Bom dia, pessoal!
Na nossa terceira aula de
bioquímica básica vamos falar sobre água e toda sua relação com o funcionamento
do nosso organismo, e como isso conversa com os dois próximos temas, pH e
sistema tempão.
Vocês devem ter bebido
água hoje, né?
Talvez um copo assim que
acordaram, ou junto com o café da manhã.
Um gesto tão automático
que ninguém para pra pensar nele.
Mas, se a gente for parar
pra realmente entender o que está acontecendo, a água é, provavelmente, a
molécula mais subestimada de todo o nosso organismo.
Cerca de 75% de você é água.
E não estou falando de
"água parada", tipo um copo em cima da mesa. Estou falando de uma
molécula extremamente ativa, que participa, literalmente, de todos os processos
biológicos que discutimos até aqui na disciplina. Sem ela, nenhuma reação bioquímica
acontece.
Mas vamos entender isso
com mais detalhes, água e bioquímica são as bases da nossa biologia.
A água é formada por dois hidrogênios e um oxigênio, numa geometria dobrada, tipo um "V". E aqui já mora a primeira genialidade: o oxigênio é mais eletronegativo que o hidrogênio, ou seja, ele puxa os elétrons da ligação mais para perto de si.
Resultado?
O oxigênio fica com uma
cargazinha parcialmente negativa, e os hidrogênios ficam parcialmente
positivos. Não é uma carga completa, por isso usamos aquele símbolo δ (delta)
que vocês viram na aula. Mas é o suficiente para transformar a água numa
molécula polar.
E por que isso importa
tanto?
Porque é essa polaridade
que faz da água o "solvente universal".
Só que aqui temos uma
pegadinha: universal não é sinônimo de "dissolve absolutamente tudo".
A água é ótima para
dissolver outras substâncias polares e sais, porque ela consegue se organizar
ao redor dos íons e enfraquecer a atração entre eles (isso tem nome, se chama
constante dielétrica elevada).
Só que substâncias
apolares, como as gorduras, ela simplesmente ignora.
E moléculas que têm as
duas características ao mesmo tempo, uma parte que gosta de água e outra que
foge dela, as chamadas substâncias anfipáticas, a água literalmente as organiza
em estruturas chamadas micelas, escondendo a parte hidrofóbica e expondo a
parte hidrofílica.
Isso é a base da formação
das membranas celulares.
Sim, a membrana da sua
célula existe, em grande parte, porque a água "não aceita" o contato
com a parte lipídica dos fosfolipídeos.
Só que a genialidade da
água não para na polaridade. Ela também forma pontes de hidrogênio entre suas
próprias moléculas, e é aí que aparecem outras propriedades fantásticas.
Ela consegue absorver ou
liberar bastante calor sem mudar muito sua própria temperatura (alta capacidade
calorífica), o que ajuda o seu corpo a manter uma temperatura estável mesmo
enquanto todas aquelas reações bioquímicas malucas estão acontecendo lá dentro.
E ela também precisa de
bastante energia para evaporar (alto calor de vaporização). Vocês já pararam
pra pensar por que suar refresca?
O suor é, basicamente,
água e sais chegando até a sua pele. Quando ele evapora, ele "rouba"
energia (calor) do seu corpo para conseguir virar vapor. Cada gotinha de suor
que evapora carrega um pouco de calor embora, e é assim, gota por gota, que seu
corpo consegue reduzir a temperatura interna depois do treino ou num dia
quente. Bonito, né?
E tem mais uma
curiosidade:
A água tem densidade
máxima a 4°C, não a 0°C. Por isso o gelo flutua. Isso parece um detalhe bobo,
mas é o motivo pelo qual lagos e rios congelam de cima pra baixo, e não de
baixo pra cima, permitindo que a vida aquática sobreviva embaixo do gelo no
inverno.
A bioquímica de uma
molécula simples sustentando ecossistemas inteiros.
Agora, vamos falar de
outro papel da água que é menos comentado, mas gigantesco: ela participa
ativamente da manutenção do pH.
Aqui entra um processo
chamado ionização da água.
De vez em quando, uma
molécula de água se rompe espontaneamente e libera um íon hidrogênio (H⁺) e um
íon hidroxila (OH⁻).
É um processo reversível
e, na água pura, acontece muito pouco. Mas é justamente essa capacidade de
gerar (e de "absorver de volta") H⁺ que está por trás do conceito de
pH.
O pH nada mais é do que
uma forma de medir a concentração de íons H⁺ numa solução.
Quanto mais H⁺ livre,
mais ácida a solução, e menor o valor do pH. Quanto menos H⁺ livre, mais básica
(ou alcalina), e maior o valor do pH.
E aqui está o ponto que
eu quero que vocês gravem: seu corpo é extremamente sensível a variações de pH.
As enzimas, aquelas
proteínas responsáveis por acelerar praticamente todas as reações que
discutimos até aqui, como o metabolismo da glicose, a produção de ATP, a ação
da insulina, só funcionam direito dentro de uma faixa de pH bem estreita.
Se essa faixa for
alterada, a enzima muda de formato, perde sua função, e a reação simplesmente
para de acontecer.
Então como o corpo evita
que pequenas produções de ácido (e o metabolismo produz ácido o tempo inteiro)
baguncem esse equilíbrio tão delicado?
A resposta é o sistema
tampão.
Um sistema tampão é,
basicamente, uma dupla de substâncias que trabalha em conjunto para
"absorver o impacto" quando um ácido ou uma base é adicionado numa
solução, evitando que o pH varie bruscamente.
Pensa assim: imagina que
o pH é o volume de um show, e o tampão é o técnico de som segurando a mesa,
corrigindo qualquer pico ou queda muito brusca, para que o volume continue numa
faixa agradável de se ouvir.
É exatamente isso que o
tampão faz com o pH do seu sangue e das suas células.
E adivinha quem participa
dessa história? Água!
Ela não é, sozinha, um
tampão forte, mas ela participa ativamente das reações de tamponamento, seja
servindo de meio para essas reações acontecerem, seja ela mesma se ionizando e
ajudando a repor ou consumir H⁺ conforme a necessidade.
No nosso organismo, um
dos sistemas tampão mais importantes é o tampão bicarbonato, que envolve o
ácido carbônico e o bicarbonato circulando no seu sangue.
Todo santo dia, seu
metabolismo celular produz gás carbônico e ácidos como subproduto (os famosos
dejetos metabólicos).
Se esse ácido se
acumulasse sem controle, o pH do sangue despencaria rapidamente, e isso seria
incompatível com a vida. É o tampão bicarbonato, entre outros sistemas do
corpo, que absorve esse excesso de H⁺ constantemente, mantendo o pH sanguíneo
numa faixa extremamente estreita.
Então, da próxima vez que
vocês beberem um copo de água, lembrem que essa moleculazinha simples está
fazendo muito mais do que "matar a sede".
Ela dissolve, ela
transporta, ela regula temperatura, ela participa da própria manutenção do pH
que permite que suas enzimas continuem trabalhando. Tudo isso acontecendo, o
tempo inteiro, sem vocês perceberem nada.
Um espetáculo da
bioquímica, não?
Outra figura resumo:
Bons estudos meu povo!

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