quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Neuroplasticidade: o cérebro nunca está completamente pronto — e nossas experiências ajudam a construir quem somos

Por Prof. Dr. Bruno Damião | Plantando Ciência em parceria com o Congresso Internacional de Terapia Ocupacional (CONINTO)

Olá pessoal, boa tarde!

Você já fez essa pergunta alguma vez: Quando foi a última vez que o meu cérebro mudou?

Talvez ontem, enquanto você aprendia alguma coisa nova. Talvez hoje, ao repetir um comportamento que já faz parte da sua rotina. Ou talvez agora, enquanto lê estas palavras e estabelece novas associações entre informações que já conhece, enxergando a neuroplasticidade de uma forma completamente diferente.

Durante muito tempo, a compreensão sobre o sistema nervoso adulto foi marcada pela ideia de que sua capacidade de transformação era bastante limitada.

Espera, deixa eu falar isso de uma forma mais clara: acreditávamos que, depois do início da fase adulta (considerando que o sistema nervoso é visto como maduro a partir dos vinte um ou vinte dois anos), o cérebro se tornava praticamente imutável, como se já estivesse em sua versão final, algo como pronto.

Porém, quanto mais fomos aprendendo sobre neurociência, mais clara ficou o quão magnífico é nosso cérebro: ele se adapta, ao longo de toda a nossa vida, independente de idade ou qualquer outra coisa, de acordo com as informações e condições que oferecemos para ele!

Maturidade não significa imobilidade, não significa que está pronto.

Hoje, na fase adulta, diria que não está nem perto de estar pronto, o aprendizado e as mudanças, principalmente internas, são contínuas, dolorosas e belíssimas.

O cérebro adulto continua modificando suas conexões, reorganizando circuitos e adaptando seu funcionamento em resposta às experiências, à aprendizagem, ao ambiente e até mesmo às lesões. Neuroplasticidade é vida!

E talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se o cérebro pode mudar, mas: quais experiências estamos oferecendo a ele para que essa mudança aconteça? Uma vez que, se analisarmos apenas por essas observações iniciais do texto, já conseguimos perceber que muito sobre a forma que nosso cérebro funciona hoje e, boa parte da nossa saúde mental atual, são de responsabilidade exclusivamente nossas!


 

Mas afinal, o que é neuroplasticidade?

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura, organização e funcionamento em resposta a estímulos internos e externos.

Essas modificações podem ocorrer em diferentes níveis, desde alterações na eficácia das sinapses até mudanças na organização funcional de redes neurais, através da formação de novas sinapses, através de novos caminhos construídos em nosso cérebro!

Isso significa que aprender uma habilidade, adquirir um hábito, adaptar-se a um ambiente diferente ou recuperar parcialmente uma função após uma lesão são fenômenos que possuem por trás de toda a sua mágica mecanismos de plasticidade neural.

O cérebro se adaptando, se movendo, se reconstruindo.

Plasticidade neural é o mecanismo por trás dos processos de aprendizagem e memória.

Basicamente, a atenção que damos às experiências que vivemos e a carga emocional dessas experiências (o que nos fazem sentir), mostram para o nosso cérebro quais informações são importantes ou não, o que afeta diretamente no que ele utilizará para formas as memórias de longo prazo.

Se analisarmos, somos hoje frutos das memórias que construímos, aquela velha história de enxergar o mundo de acordo com as lentes que minhas experiências e escolhas foram colocando na frente da minha visão.

O que também nos leva a pensar e refletir que aprendo coisas novas e interajo com novas pessoas com julgamentos pré-moldados, com características e pontos de vista que fazem parte da construção do meu ser.

Entretanto, é importante compreender que neuroplasticidade não significa que o cérebro possa fazer absolutamente qualquer coisa. Longe disso, rs.

Ela não garante recuperação completa após uma lesão, tampouco significa que todas as experiências produzam mudanças benéficas ou sequer mudanças.

O cérebro se modifica, mas a direção, a intensidade e as consequências dessas modificações dependem de múltiplos fatores.

 

Aprender é modificar o cérebro

Imagine a primeira vez que você tentou dirigir um automóvel, se assim como eu ele era manual, com certeza passamos por perrengues parecidos!

Atenção ao volante, aos pedais, aos espelhos, à marcha, aos outros veículos e às sinalizações. Tudo exige esforço consciente, e parece impossível no começo. Mas nada como soltar a embreagem e pisar no acelerador para conseguir sair com o carro. Quantas vezes afoguei o carro antes de conseguir sair com ele.

Depois de meses ou anos de prática, muitas dessas operações passam a ocorrer com muito menos esforço deliberado. As vezes, de forma absolutamente automática, pois a repetição foi refinando tanto os movimentos e o conhecimento do processo, que ele foi se tornando cada vez mais simples!

Se você toca algum instrumento, com certeza passou pela mesma situação. No começo, parecia impossível tocar aquela música que você tanto gosta, mas agora, depois de anos de prática, você toca ela sem nem ter que pensar direito.

O que aconteceu?

A repetição da experiência permitiu que circuitos neurais envolvidos na execução da tarefa fossem progressivamente ajustados e reorganizados. Ou seja, aquilo vai ficando cada vez mais fácil!

A aprendizagem não é apenas o armazenamento de uma informação. Ela representa uma mudança relativamente duradoura na capacidade de reconhecer, executar ou responder a determinada situação.

A famosa formulação associada a Donald Hebb, frequentemente resumida como neurônios que disparam juntos tendem a se conectar, ajuda a compreender como a atividade coordenada pode contribuir para o fortalecimento de determinadas associações neurais.

Mas existe um componente frequentemente negligenciado nesse processo: a atenção.

Aquilo que recebe nossa atenção tem maior oportunidade de ser processado e integrado aos sistemas de aprendizagem. Não basta estar exposto a uma informação; a maneira como interagimos com ela importa, isso considerando qualquer um dos cinco sentidos!

Ou você nunca notou a diferença de sabor da sua comida quando comeu prestando atenção no seu paladar e não ao seu celular?

É por isso que uma experiência ativa, com participação, elaboração e prática, pode produzir resultados diferentes de uma exposição passiva. Resultando em uma maior probabilidade de memórias de longo prazo serem formadas, e você lembrar aquelas experiências por anos, décadas e até mesmo para sempre.

Aprender exige sair da zona de conforto, exige atenção consciente, esforço.

 

Emoção, memória e a importância das experiências

Por que conseguimos recordar com tanta riqueza alguns acontecimentos emocionalmente importantes, enquanto esquecemos o que almoçamos ontem?

A resposta envolve a interação entre diferentes sistemas cerebrais, principalmente algumas regiões do sistema límbico, relacionado às nossas emoções e ao que as experiências nos fazem sentir.

A amígdala participa do processamento da relevância emocional, enquanto o hipocampo tem papel fundamental na formação e organização de memórias declarativas e episódicas. A interação entre esses sistemas contribui para modular a consolidação de determinadas experiências.

Isso não significa que emoções intensas produzam necessariamente uma aprendizagem melhor. Situações de estresse intenso ou persistente, por exemplo, podem prejudicar processos de atenção, memória e aprendizagem.

O ponto central é que aprender não é uma atividade exclusivamente intelectual, pois a parte intelectual fica com o prestar atenção. Porém, a carga emocional, ou como a neurociência criou recentemente, a saliência emocional, é um fator importantíssimo para a criação de novas memórias e conhecimentos.

Simplesmente, aprendemos o que prende nossa atenção e nos faz sentir! Bonito, né?

O cérebro aprende em um organismo que sente, interpreta, se relaciona e responde ao ambiente.

Essa compreensão é particularmente importante quando pensamos em educação, saúde mental e processos terapêuticos. Porque o cérebro só sente aquilo que entra por um dos nossos cinco preciosíssimos sentidos.

Uma das ideias que costumo discutir com meus alunos é a tendência do cérebro a automatizar comportamentos repetidos. Gosto de dizer que o cérebro não é preguiçoso: ele é econômico.

E podemos traduzir isso para: o cérebro adora a zona de conforto, porque ela exige pouco esforço dele (ou seja, baixo gasto energético).

A automatização de determinadas tarefas permite que recursos de atenção e controle sejam utilizados em outras demandas. Já parou para pensar quão libertador para seu cognitivo é o fato dos nossos órgãos funcionarem independente da nossa vontade?

É uma característica funcional importante para a adaptação e para todo o magnífico potencial criativo, cognitivo, de aprendizado e de remodelação do nosso cérebro.

O problema é que esse processo não seleciona apenas comportamentos que consideramos bons. O mesmo mecanismo que contribui para automatizar uma habilidade pode participar da manutenção de hábitos que gostaríamos de modificar.

Pense no uso excessivo do celular, no consumo de álcool, de drogas de abuso...

Uma notificação funciona como um gatilho. Pegamos o aparelho, encontramos uma novidade, recebemos uma informação ou algum tipo de recompensa. A repetição dessa sequência pode fortalecer o comportamento.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à procrastinação, ao sedentarismo e a determinados padrões de resposta emocional.

E aqui chegamos a uma das ideias centrais da neuroplasticidade:

O cérebro pode aprender um comportamento, mas também pode aprender novas maneiras de responder.

Isso não significa que modificar hábitos seja simples.

A força dos comportamentos automatizados, o ambiente, as condições emocionais e os fatores biológicos influenciam esse processo.

A mudança exige mais do que vontade: exige condições, prática, estratégias e, em muitos casos, acompanhamento profissional.

 

E quando a capacidade de mudar encontra a reabilitação?

Talvez uma das aplicações mais fascinantes da neuroplasticidade esteja na recuperação funcional após lesões do sistema nervoso. Após um acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo, uma pessoa pode apresentar comprometimentos motores, sensitivos, cognitivos ou relacionados à linguagem.

A lesão pode interromper circuitos essenciais para determinadas funções.

Entretanto, as redes neurais remanescentes podem apresentar reorganização funcional, e a experiência pode influenciar esse processo. E a reabilitação utiliza justamente essa capacidade de adaptação.

A prática de tarefas, o treinamento motor, a repetição orientada e a utilização de estratégias compensatórias podem contribuir para a recuperação de funções e para a construção de novas possibilidades de desempenho. Isso não significa que o cérebro simplesmente substitua uma região lesionada por outra ou que toda função possa ser recuperada integralmente.

Até porque, neurogênese, que é o “nascimento de novos neurônios” é um processo que acontece em grande quantidade apenas no hipocampo.

A recuperação depende da extensão e localização da lesão, das condições clínicas, do tempo, das características individuais e das intervenções realizadas. Além disso, a plasticidade não é necessariamente adaptativa. Algumas mudanças podem contribuir para compensações pouco eficientes ou para a manutenção de limitações.

Por isso, não basta estimular o cérebro. É necessário compreender o que está sendo estimulado, com qual objetivo e em qual contexto.

 

Neuroplasticidade e Terapia Ocupacional: quando a experiência ganha significado

É aqui que a neurociência encontra uma das aplicações mais interessantes da Terapia Ocupacional. Se o cérebro se modifica em resposta à experiência, então a experiência terapêutica importa.

Mas existe uma diferença importante entre executar um movimento isolado e realizar uma atividade que tenha significado para a vida de uma pessoa. Imagine um paciente que apresenta limitações motoras após um AVC.

Podemos pensar no treinamento de movimentos específicos do membro superior. Entretanto, também podemos pensar em atividades como vestir uma camiseta, preparar uma refeição, segurar uma xícara ou utilizar um objeto que faça parte de sua rotina.

Essas atividades envolvem demandas motoras, sensoriais, cognitivas e ambientais. Mais do que isso, estão relacionadas à autonomia e à participação do indivíduo em sua própria vida. Atrás de tudo isso, precisamos pensar que autonomia é qualidade de vida!

E qualidade de vida é essencial para a saúde mental e para o bem-estar, independente da idade ou situação. A Terapia Ocupacional trabalha justamente nessa interface entre pessoa, atividade e ambiente.

A literatura sobre reabilitação aponta que o treinamento orientado a tarefas e a prática de atividades funcionais são estratégias relevantes para a recuperação do desempenho após o AVC.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 no American Journal of Occupational Therapy, por Lee e Howe, examinou intervenções de treinamento orientado a atividades para recuperação do membro superior em adultos após AVC.

Esse campo de pesquisa ajuda a compreender como princípios de aprendizagem motora e plasticidade podem ser traduzidos em intervenções terapêuticas.

Mas a contribuição da Terapia Ocupacional não se limita à recuperação de movimentos.

Ela também envolve adaptação ambiental, desenvolvimento de estratégias compensatórias, reorganização da rotina e construção de novas possibilidades de participação.

Em outras palavras, o objetivo não é apenas fazer com que o indivíduo execute uma função, mas favorecer que ele volte a participar de atividades que tenham sentido em sua vida.

E essa é uma distinção fundamental.

A neuroplasticidade oferece uma explicação biológica para a capacidade de adaptação. A Terapia Ocupacional transforma essa possibilidade em experiências concretas de funcionalidade, autonomia e participação.

 

E a psicoterapia? Podemos reaprender a relação com nossas experiências?

Existe ainda uma dimensão particularmente interessante da neuroplasticidade: sua relação com a aprendizagem emocional e os processos psicoterapêuticos.

Uma vez que não podemos simplesmente apagar memórias como apagamos fotos da galeria do celular, a neuroplasticidade garante que, pelo menos, podemos alterá-las ou dar um novo significado para elas, o que é extremamente importante quando consideramos que algumas memórias causam dor e sofrimento psicológico.

Memórias não são arquivos completamente estáticos. Quando recuperadas, determinadas memórias podem passar por processos de atualização, onde novas informações são acrescentadas para dar sentido, como a roupa das pessoas que estão na memória resgatada. Isso nos mostra que, sempre que evocamos alguma memória, guardamos ela com algumas pequenas modificações, com pequenas mudanças.

Isso não significa que toda lembrança se torne modificável sempre que é evocada. A reconsolidação depende de condições específicas, e sua aplicação clínica exige cautela.

Ainda assim, esse conhecimento oferece uma perspectiva relevante para compreender como novas experiências podem influenciar a maneira como interpretamos acontecimentos anteriores. Uma pessoa pode ter aprendido, ao longo da vida, a associar erro à rejeição, exposição à vergonha ou vulnerabilidade à ameaça. Essas associações podem influenciar comportamentos, expectativas e respostas emocionais no presente.

No contexto psicoterapêutico, a construção de novas experiências, a elaboração de significados e o desenvolvimento de outras formas de interpretação podem participar de processos de mudança.

Não se trata de apagar o passado, mas de modificar a maneira como determinadas experiências são integradas à vida atual.

A neuroplasticidade não explica sozinha a psicoterapia, mas oferece uma das bases biológicas para compreender como processos de aprendizagem e adaptação podem ocorrer também na vida adulta. E como podemos ressignificar as coisas, muitas vezes nos libertando da dor.

Novamente, neuroplasticidade por trás de uma melhoria na qualidade de vida, na melhoria da saúde mental.

Gosto de pensar na neuroplasticidade como uma cidade.

Com o passar do tempo, algumas estradas se tornam muito utilizadas. Outras permanecem pouco acessadas. Novos caminhos podem ser construídos, enquanto determinados trajetos podem perder sua predominância, ou até mesmo deixar de existir.

A experiência participa da organização dessa cidade. A aprendizagem fortalece caminhos. A repetição favorece a automatização. Uma lesão pode interromper rotas. A reabilitação pode ajudar a desenvolver novas possibilidades de circulação.

E as atividades significativas permitem que essas mudanças sejam direcionadas para algo que realmente importa: a vida do indivíduo. Isso também nos faz refletir sobre a responsabilidade que temos com nossas próprias experiências, com nossa própria saúde mental e, em um âmbito reflexivo maior, com nossa vida!

A leitura, a atividade física, o sono adequado, a aprendizagem contínua, as relações sociais e o contato com novos desafios são elementos que podem contribuir para a saúde cerebral e para a manutenção de capacidades cognitivas.

Não existe uma fórmula mágica para transformar o cérebro, tampouco uma promessa de que qualquer dificuldade será superada apenas com esforço individual. Existem, porém, oportunidades de aprendizagem e adaptação que continuam presentes ao longo da vida.

E talvez essa seja a mensagem mais importante que a neuroplasticidade nos oferece.

O cérebro não é apenas aquilo que temos. É também aquilo que nossas experiências ajudam a construir.

Se o cérebro muda, a pergunta não é apenas se podemos mudar. É quais experiências estamos criando para tornar essa mudança possível e o que estamos fornecendo dia após dia para a  construção do nosso cérebro!

Algumas referências utilizadas para escrever o texto e que pode trazer importantes insights para você:

 

Referências

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