terça-feira, 19 de maio de 2026

Como amenizar minha ansiedade?

Primeiro vídeo do youtube, um corte da minha palestra para a Conselho brasileiro de psicanálise clínica, falando um pouco sobre Ansiedade.

Nesse caso, o que você utilizar para "gastar" sua ansiedade?

Eu sempre chamei de válvula de escape, mas um professor e amigo que admiro muito, me apresentou à expressão maravilhosa: recursos que nos ajudam a suportar a atual realidade.

Para mim, musculação ajuda e muito na organização dos pensamentos e do funcionamento cerebral.
Algumas pesquisas estão mostrando que, para tratamentos de transtornos de ansiedade, exercício não é uma opção, é algo obrigatório, uma estratégia valiosíssima para acrescentar na busca pela melhoria da saúde mental.

Mas, melhor ouvir, rs:



Boas reflexões e bora se exercitar um pouco?

Plantando Ciência no Youtube

Olá, pessoal!

Agora, temos neurociência aqui do blog, também no Youtube. 

No ar, o canal do Plantando Ciência.

Olha que sensacional que ficou a imagem de capa:

O link para acessar é esse aqui:

https://www.youtube.com/@professorbrunodamiao9247

Acompanhe por lá, também! =D

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A batalha entre a razão e emoção dentro do seu cérebro: A relação entre sistema límbico e córtex pré-frontal– Parte 2

Boa tarde, pessoal!

Essa é a segunda matéria onde estamos atualizando alguns conhecimentos sobre a relação do sistema límbico com o córtex pré-frontal, sempre buscando entender melhor as fontes da nossa ansiedade.

Recomendo começar por aqui:

https://plantandociencia.blogspot.com/2026/05/a-batalha-entre-razao-e-emocao-dentro.html

A mudança de papéis da amígdala (alias, uma atualização de funções, porque acrescentamos algumas, rs), nos últimos anos, nos permite enxergar de uma forma totalmente diferente como percebemos a carga emocional das experiências que usufruímos através dos nossos cinco sentidos.

De centro do medo (o que ela é), a Amígdala passou a ser vista como uma detectora de saliências emocionais, que além de ser um termo belíssimo, significa que a Amígdala é a responsável por perceber e interpretar tudo o que sentimos em cada experiência, seja coisas positivas ou negativas.

E para que serve isso?

Para mostrar para o nosso cérebro o que de fato merece atenção naquele momento, conversa essa que a amígdala tem com o córtex pré-frontal para, além de voltar o foco, ter a análise consciente para a tomada de decisões.

E é aqui que novamente puxamos o gancho clínico com a Ansiedade. Até pouco tempo, a ciência acreditava que a amígdala hiperexcitada, reconhecendo perigo onde não tem e deixando nosso cérebro em constante alerta (gerando ansiedade) era a principal responsável. Ela participa, sem dúvida alguma, mas agora sabemos que o córtex pré-frontal costuma estar menos ativos nos transtornos de ansiedade.

Ou seja, a resposta emocional da amígdala excitada demais encontra o córtex pré-frontal, que é o único capaz de acalmá-la, mais fraco que o normal. O medo vence a razão, a ansiedade tem um terreno extremamente fértil para crescer e se desenvolver.

Mas, continuando o conteúdo da primeira parte:

  

Córtex Pré-Frontal: algo como o freio emocional do cérebro

É aqui que entra o córtex pré-frontal, nessa relação toda.

Embora não faça parte do sistema límbico, ele possui conexões intensas com essas estruturas emocionais. E, ele possui funções fantásticas, como:

  • planejamento
  • tomada de decisão
  • atenção
  • controle de impulsos
  • pensamento racional
  • regulação emocional

Ele funciona como um sistema de modulação emocional, porque abusa mais da cognição para tomar decisões. Menos impulsivo, mais analítico. Lembra da história de contar até 10 antes de responder? Uma boa margem de tempo para o sistema límbico acalmar e o córtex pré-frontal refletir sobre uma melhor resposta!

Em outras palavras:

A amígdala reage rapidamente e o córtex pré-frontal avalia se aquela reação faz sentido.

 

Emoção vs Razão: o modelo moderno da ansiedade

A neurociência atual descreve a ansiedade como um desequilíbrio entre dois sistemas:

Sistema emocional com a Amígdala!

Sistema regulador com o córtex pré-frontal!

Amígdala responde rápido, relacionada à resposta de medo, sempre visando manter nossa saúde, nos deixar vivos frente aos perigos (mesmo que eles não existam de verdade, rs). O córtex pré-frontal analisa se isso tudo realmente faz sentido, ou você nunca notou que, após disparar o coração em uma cena do filme de terror, logo ele desacelera e volta ao seu ritmo normal?

Nesse exemplo, o perigo identificado pela amígdala durante o susto com o filme dispara a resposta para preparar o corpo para lutar ou fugir, mas quando a amígdala conta o  que aconteceu para o córtex pré-frontal, ele percebe que não existe um perigo real, e começa a trabalhar para tudo voltar ao normal, num estado de tranquilidade para continuar aproveitando o filme.

Quando o córtex pré-frontal perde eficiência, a amígdala passa a dominar o funcionamento emocional. E ai, as emoções tomam conta, mesmo que não faça muito sentido.

Repetindo a expressão usada no começo da matéria: terreno absurdamente fértil para a ansiedade.

O que nos ajuda a  explicar:

  • impulsividade
  • crises de ansiedade
  • explosões emocionais
  • pensamentos catastróficos
  • dificuldade de “desligar” a mente

 

E para complementar os avanços no conhecimento sobre o tema, é definida pelo termo Conectividade funcional.

O problema não está apenas nas estruturas isoladas. O problema pode estar na comunicação entre elas. Podemos traduzir isso como: o buraco é mais embaixo!

Esse é o conceito de conectividade funcional

Exames modernos de neuroimagem mostram que pessoas com ansiedade frequentemente apresentam: maior ativação da amígdala, menor conectividade com o córtex pré-frontal resultando em dificuldade de regulação emocional

Ou seja:

o “freio” cerebral perde força.

O córtex pré-frontal é fantástico, e podemos dividir ele em algumas áreas que já conhecemos bem:

 

Córtex Pré-Frontal Ventromedial (vmPFC)

Relacionado à:

  • regulação emocional
  • empatia
  • redução do medo

 

Córtex Pré-Frontal Dorsolateral (dlPFC)

Relacionado à:

  • concentração
  • raciocínio lógico
  • reavaliação racional das emoções

 

Córtex Orbitofrontal (OFC)

Relacionado à:

  • recompensa
  • punição
  • avaliação social

 

Essas regiões trabalham juntas constantemente para modular nossas respostas emocionais.

Mas no final da história, o que tudo isso significa para a clínica em torno da Ansiedade?

A amígdala percebe as saliências emocionais para facilitar a vida do córtex pré-frontal para saber onde focar a atenção naquele momento. Além disso, ele analisa cognitivamente se a proposta da amígdala faz sentido, evitando estresse desnecessário.

Aqui conversam dois pontos que são cruciais para a formação das memórias no nosso cérebro! Atenção e carga emocional!

Tudo que prestamos atenção e nos faz sentir algo tem maior probabilidade de ser registrado como memória de longo prazo. Imagina um cérebro que, por anos, as vezes por décadas, trabalhou com uma amígdala hiperativa e um córtex pré-frontal hipoativo. Registrou todos os episódios da vida, basicamente, sob o olhar da ansiedade, sob o olhar mais voltado para o modo de defesa, para a cautela...

Agora, imagina se o episódio que disparou tudo isso foi lá na infância, a vida literalmente foi construída nesse modo, basicamente TUDO e TODOS os caminhos percorridos com frequência pelo cérebro, todos os hábitos, comportamentos, derivam de um cérebro mais assustado, mais ansioso.

Deu para entender melhor, agora, o porque usei a expressão maravilhosa de que o buraco é bem mais embaixo?

Boas reflexões!

terça-feira, 12 de maio de 2026

A batalha entre a razão e emoção dentro do seu cérebro: A relação entre sistema límbico e córtex pré-frontal

Boa tarde, pessoal!

Hoje vamos dar uma atualizada em uma das discussões mais fascinantes da Neurociência moderna e também, das mais relevantes para a clínica: a relação entre o Sistema Límbico e o Córtex Pré-Frontal.

Antigamente acreditávamos que as emoções eram apenas “sentimentos abstratos”, hoje sabemos que existem circuitos cerebrais extremamente sofisticados envolvidos em cada sensação de medo, ansiedade, prazer, apego, impulsividade e até na maneira como interpretamos nossa própria vida.

E, talvez, a descoberta mais interessante dos últimos anos seja esta:

Ansiedade, impulsividade e sofrimento emocional frequentemente não surgem apenas de uma “amígdala hiperativa”, mas de um desequilíbrio entre emoção e controle emocional. Ou seja, o que hoje conhecemos como circuito córtico-límbico, que nos conta muito sobre a relação entre córtex pré-frontal e regiões límbicas, como a Amígdala, é o verdadeiro responsável pela regulação emocional e, consequentemente, por suas desregulações, como na ansiedade,

Resumindo, na ansiedade vemos:

  • um cérebro emocional acelerado
  • combinado com um “freio” pré-frontal enfraquecido



Sistema Límbico - Enciclopédia Britânica


O Sistema Límbico: o cérebro emocional

O chamado Sistema Límbico é um conjunto de estruturas cerebrais profundamente relacionadas às emoções, memória, motivação, aprendizado e sobrevivência.

As principais estruturas límbicas incluem:

  • Hipocampo
  • Amígdala
  • Giro do Cíngulo
  • Giro Para-hipocampal
  • Hipotálamo
  • Área Septal
  • Núcleos anteriores do Tálamo

Durante muito tempo, os cientistas estudaram essas estruturas isoladamente e descobriram importantes funções. Porém, principalmente com o avanço das técnicas modernas de imagem, como a ressonância magnética funcional, passamos a ver menos as estruturas em si e mais os circuitos que elas participam, como os verdadeiros detentores das funções e disfunções do nosso incrível cérebro.

Hoje, porém, a neurociência entende que o mais importante não são apenas as áreas em si, mas a comunicação entre elas.

Nesse caso da conexão entre córtex pré-frontal e amígdala (e outras estruturas do sistema límbico), chamamos de circuitos córtico-límbicos.

Esses circuitos conectam regiões emocionais profundas do cérebro ao córtex cerebral, especialmente ao córtex pré-frontal. E é exatamente dessa conversa entre emoção e racionalidade que nasce boa parte da experiência humana.

 

A Amígdala NÃO é mais apenas o “centro do medo”

As pesquisas mais recentes mostram algo muito mais interessante. Que a amígdala funciona como um detector de relevância emocional.

Ou seja:

Ela tenta responder constantemente:

“Isso é importante para minha sobrevivência?”

Esse processo é chamado de:

  • saliência emocional

E nos ensinou que a Amígdala não responde só a estímulos ameaçadores, negativos, mas sim a todos as experiências que possuem carga emocional, saliência emocional, sejam positivas ou negativas.

É, basicamente: Se faz sentir, faz sentido. E aqui, significa que faz sentido guardar, como memória de longo prazo (útil para sobrevivência, deve ser registrado).

A amígdala responde principalmente a:

  • ameaças
  • rejeição social
  • experiências traumáticas
  • dor emocional
  • estímulos intensamente prazerosos
  • situações novas e imprevisíveis

Ela ajuda o cérebro a decidir rapidamente no que devemos prestar atenção. E ai, juntamos os dois fatores que são decisivos para a formação de memórias no nosso cérebro: a atenção que damos ao evento e o que a experiência nos faz sentir. A mágica está pronta, ou melhor, a memória foi registrada, muitas vezes para sempre!

Para quem esteve comigo em sala de aula, vai se lembrar do exemplo do experimento com a amígdala de macacos, uma das pesquisas clássicas que nos mostrou algo impressionante: Macacos com lesões na amígdala perderam respostas naturais de medo.

Quando uma cobra era apresentada ao animal:

  • ele não fugia
  • não apresentava agressividade
  • tentava brincar com a cobra
  • às vezes tentava colocá-la na boca

 

Esses achados ajudaram a compreender a chamada:

  • Síndrome de Klüver-Bucy

Nessa síndrome, ocorre uma desconexão importante envolvendo a amígdala, levando a:

  • perda da resposta de medo
  • alterações sexuais
  • dificuldade de reconhecer perigos
  • comportamento excessivamente dócil

 

A amígdala, portanto, é essencial para atribuir significado emocional às experiências. Sendo uma estrutura indispensável para a forma como reagimos e interagimos com o mundo a nossa volta. E, sem sombra de dúvidas, peça-chave na construção do que somos como seres humanos e também com as desconexões e transtornos que podem nos acometer ao longo de nossas vidas, como os transtornos de ansiedade.

Acreditamos, por muito tempo, que a Amígdala estava hiperativa nos transtornos de Ansiedade, e, realmente, está na grande maioria dos casos. Porém, não é só dela essa “culpa”, porque as técnicas de imagem mostraram que o córtex pré-frontal também está hipoativo, ou seja, regulando menos do que deveria a amígdala e o sistema límbico.

O que já sabíamos sobre essas áreas e a Ansiedade?

  • hiperatividade da amígdala
  • aumento da vigilância
  • interpretação exagerada de ameaça

 

Isso significa que o cérebro passa a detectar perigo mesmo quando ele não existe objetivamente. Pequenos sinais sociais, olhares, mensagens, silêncios ou situações cotidianas passam a ser interpretados como ameaças emocionais. E isso torna a vida da pessoa um “inferno”.

É como se o cérebro emocional permanecesse constantemente em estado de alerta. Tudo é perigo, tudo nos leva a um modo de defesa, pronto para enfrentar os fantasmas imaginários que criamos.

Tá, mas e o córtex pré-frontal?

Vamos falar sobre ele amanhã, na parte 2 dessa matéria!

terça-feira, 28 de abril de 2026

Dopamina é sinônimo de prazer? Uma discussão sobre neurotransmissores e sias funções e disfunções

Boa noite, pessoal!

Eu sempre falo aqui, que talvez a coisa mais incrível que acontece no nosso cérebro, seja a neuroplasticidade. Tanto pelo quão incrível ela é por si só, como pelas inúmeras possibilidades, funções e capacidades que derivam dela. É sensacional!

Massss, como toda coisa muito sensacional, existem coisas por trás, e, nesse caso, são as maravilhosas sinapses químicas (representadas abaixo por uma figura criada por mim, obviamente por IA, rs):



Para quem ainda não leu, a matéria sobre sinapses químicas é, até hoje, a mais lida de toda a história do blog, vale a pena conferir antes de seguir nessa de hoje:

https://plantandociencia.blogspot.com/2019/03/sinapses-quimicas.html

A matéria antiga tem várias formas de explicar a sinapse química, inclusive um esquema de flechas, mas vou resumir aqui como um neurônio se comunica com o outro: quando um impulso nervoso chega ao terminal sináptico (e sim, o impulso nervoso é o start para tudo aqui, sem ele não acontece comunicação nervosa), os canais de cálcio se abrem e entra um monte de cálcio para dentro do terminal sináptico (na fisiologia, influxo de cálcio). Essa entrada de cálcio faz com que as vesículas sinápticas se liguem às proteínas conectadas à membrana celular, se fundam à membrana e liberem os neurotransmissores na fenda sináptica (lembrem-se sempre, sinapse química não existe contato físico entre as células que estão se comunicando, por isso a fenda sináptica e a necessidade de neurotransmissores). Os neurotransmissores então atravessam a fenda e se ligam aos receptores do neurônio, músculo ou glândula que está recebendo a mensagem, e assim a informação é passada adiante. 

Por trás desse fenômeno, estão todas as nossas funções cognitivas, como nossa capacidade de focar em alguma entrada sensorial específica (como quando você foca sua visão no seriado que está assistindo), a formação das nossas memórias, as tomadas de decisões (e sim, as erradas também, rs), dentre diversas outras habilidades incríveis do nosso cérebro.

Mas hoje, vamos focar nossa discussão em dois neurotransmissores específicos e, posso dizer até que famosos, talvez os mais conhecidos na atualidade: serotonina e dopamina.

Primeiro, a Serotonina, que tenho certeza que você já ouviu falar da relação dela, ou melhor, da falta dela, com a depressão.

Até hoje, a hipótese neurobiológica mais discutida é sim a questão da diminuição da serotonina, tanto que o principal antidepressivo utilizado no brasil é a classe dos inibidores da recaptação de serotonina, que, ao impedirem que o neurotransmissor volte para o neurônio que o liberou, faz com que a concentração do mesmo aumente na fenda sináptica. 

Porém, agora com décadas de pesquisas e dados concretos, é evidente que a depressão é algo bem mais complexo que a baixa concentração de serotonina, e sua construção, muitas vezes com variáveis genéticas e ambientais envolvidas, é realizada por muitos caminhos que não só o neurotransmissor em falta. Associar a depressão exclusivamente à serotonina, hoje, é algo até reducionista.

Mas, e a serotonina? 

O que esse neurotransmissor tão conhecido realmente faz no nosso cérebro?

Primeiro, a maior parte da serotonina utilizada no nosso cérebro é produzida no tronco encefálico, em alguns núcleos conhecidos como Núcleos da Rafe, e dali essa serotonina se projeta para diversas regiões do nosso cérebro. Só com essa informação, já percebemos que a serotonina está envolvida em diversas funções cerebrais.

No Sistema Límbico, relacionado às nossas emoções e funções como a formação de memórias, a serotonina age principalmente na Amígadala e no Hipocampo. Na Amígdala, ela atua no processamento das emoções negativas, como o medo e às ameaças. Lembrem que a Amígdala é basicamente um sistema de alarme do nosso cérebro.

No hipocampo, a serotonina está relacionada à formação de memórias emocionais, papel esse que também tem uma grande participação da Amígdala (experiências que nos fazem sentir mais, possuem uma chance muito maior de se tornarem memórias de longo prazo), além de participar da função muito interessante de dar contexto às experiências, como se ajudasse a dar sentido (integrar informações) da experiência que estamos vivendo nesse momento.

No córtex pré-frontal, esse neurotriansmissor magnífico está por trás de funções como as tomadas de decisões, o controle cognitivo e a regulação emocional frente às experiências.

Agora, conseguem enxergar um pouco melhor como uma queda grande de serotonina está sim por trás dos sintomas característicos da depressão?

E a Dopamina?

Já pensou em prazer, né?

E sim, ela está relacionada e é um dos principais sistemas relacionados ao prazer no nosso cérebro, que inclui áreas como o Núcleo Accumbens, o Córtex Pré-frontal e o Estriado. Esse circuito é chamado de Via Mesolímbica.

Mas dopamina é igual a prazer? Não especificamente, pois ela esstá mais relacionada a motivação (o querer algo), na antecipação de recompensas (como o que sinto quando estou escolhendo qual hambúrguer vou pedir) e no aprendizado por reforço.

Os prazeres imediatos atuam na liberação de dopamina, nesse mesmo sistema, como as curtidas notificações e novidades que aparecem na tela dos nossos celulares constantemente. Isso acontece porque nosso cérebro adora recompensas rápidas e aquela questão da imprevisibilidade, tipo o que conseguimos em um cassino, ou no perigoso tigrinho.

Isso, por si só, já explica muito sobre a criação de hábitos tóxicos como os vícios, principalmente nesse tipo de jogo, ainda mais pela imprevisibilidade ser a possibilidade de se ganhar dinheiro, mas também no uso de substâncias, como a cocaína.

Aliás, no longo prazo, os efeitos do uso constante de cocaína sobre a dopamina cerebral leva a uma desregulação onde, basicamente, só mais cocaína vai suprindo, inclusive essa constância diminui a capacidade da pessoa optar por não usar (lá na tomada de decisão do córtex pré-frontal).

Neurotransmissores e as regiões onde atuam, com seus variados papéis influenciando nos nossos comportamentos e cognição, explicam tranquilamente inúmeros dos sintomas e características de transtornos psicológicos, hábitos, vícios...

Neurociência é vida, assim como terapia! 
Estudem e façam, rs.

Bons estudos!

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Reflexões neurocientíficas e psicanalíticas - uso de substâncias

Boa tarde, pessoal!

Mais um trecho do meu TCC, para vocês refletirem sobre como a Psicanálise e a Neurociência moderna podem conversar e avançar juntos, lembrando sempre que, o objetivo, é a saúde mental humana, que caminha em pedaços, e não uma disciplina diminuir ou tentar explicar a outra, isso é EGO. E não o EGO freudiano, o EGO besta que mais nos atrapalha do que ajuda!

Mas vamos à reflexão, visto que, essas duas substâncias, são muito utilizadas hoje em dia, e os efeitos para o usuário e para as pessoas que estão à sua volta podem ser terríveis:


"No que se refere ao uso de substâncias psicoativas, a neurociência oferece um campo privilegiado para o diálogo com a psicanálise ao evidenciar como alterações neuroquímicas impactam diretamente os sistemas de regulação emocional, recompensa e controle inibitório. A cocaína, por exemplo, atua principalmente aumentando a liberação e bloqueando a recaptação de dopamina no sistema mesolímbico, especialmente em regiões como o núcleo accumbens, levando a um aumento intenso e rápido da sensação de prazer e reforço.

Esse mecanismo promove um aprendizado poderoso baseado em recompensa, fortalecendo circuitos associados à busca compulsiva pela substância. Paralelamente, há relatos científicos que comprovam o prejuízo progressivo da função do córtex pré-frontal, reduzindo a capacidade de inibição comportamental e tomada de decisão. Ou seja, o uso de maiores quantidades e com maior frequência, dá cada vez mais poder à resposta de prazer e reforça esse aprendizado através da dopamina, enquanto diminui cada vez mais a capacidade de tomada de decisão e de controle sobre o uso do córtex pré-frontal. Sob a perspectiva psicanalítica, esse fenômeno pode ser compreendido como uma predominância do Id — regido pelo princípio do prazer — sobre as instâncias do Ego, responsáveis pela mediação com a realidade. A fragilização do controle pré-frontal se aproxima, portanto, de um enfraquecimento das funções egóicas, permitindo que impulsos primitivos e imediatistas se expressem de maneira mais direta no comportamento. Um questionamento, aqui: quantas vezes você, ciente de que não podia tomar mais aquela dose, comer mais aquele doce, buscar mais aquela porção de alguma droga de abuso, ou qualquer outro comportamento compulsivo e, normalmente, destrutivo, foi lá e o fez? Quem venceu nessa batalha, a razão ou a emoção? O consciente ou os impulsos?

De forma distinta, mas igualmente relevante, o zolpidem — um hipnótico que atua como agonista dos receptores GABAérgicos — promove um efeito depressor do sistema nervoso central, facilitando a indução do sono ao reduzir a atividade cortical, especialmente em áreas frontais. Apesar de seu uso terapêutico, há relatos de comportamentos complexos realizados em estado dissociativo, como alimentar-se, dirigir, realizar compras totalmente desnecessárias e interagir socialmente, algumas vezes de forma desastrosa. Neurobiologicamente, esse fenômeno pode ser explicado pela dissociação entre sistemas de memória e consciência, envolvendo uma redução da atividade do córtex pré-frontal associada à manutenção parcial de circuitos automáticos subcorticais. Sob a ótica psicanalítica, tais manifestações podem ser interpretadas como uma suspensão temporária das funções do Ego, com expressão de conteúdos e comportamentos não mediados pela consciência. Nesse sentido, o zolpidem evidencia, de forma experimental, como a diminuição da atividade reguladora cortical pode permitir a emergência de padrões comportamentais automatizados, aproximando-se da noção de conteúdos inconscientes que se manifestam na ausência de censura psíquica."


Entendam, o abuso de substâncias, independente da substância, lícitas ou não, tem sido a muleta para sustentar as mazelas psíquicas de muitas pessoas, MUITAS! Mas assim como o álcool serve apenas para amenizar uma crise de ansiedade e jamais vai servir para tratar o transtorno (até porque, vai construir diversos outros problemas), qualquer outra substância segue o mesmo preceito, o de uma muleta. Que nunca trata, apenas ameniza!