Olá, pessoal!
Bom dia.
Nos dois últimos #Papo de
Consultório, falamos sobre dois conceitos muito trabalhados dentro da
psicanálise: Sombra de Jung e projeção (Freud e Jung), que conectamos da
seguinte forma: o que você não aceita em si (sombras) pode ser projetado no
outro, gerando conflito, e outras questões importantes que podem atrapalhar
relações.
Hoje, vamos falar de é um
conceito extremamente famoso da psicanálise, mas que pode ser explicado de uma
maneira muito contemporânea, a transferência.
Freud percebeu algo fundamental no consultório: o paciente não chega diante do terapeuta como se estivesse diante de uma pessoa completamente nova e neutra.
E, talvez, isso sirva
para todas as nossas relações: amorosas, familiares, amizades, colegas de
trabalho. Nós não começamos um contato com uma pessoa nova do zero, nós
trazemos nossos medos, inseguranças, julgamentos, expectativas.
Nós colocamos, nessa nova
relação, formas de vínculos que aprendemos e os modelos construídos ao longo da
vida.
E isso cria uma pergunta
maravilhosa:
Quando alguém reage
exageradamente a uma pessoa, será que está reagindo apenas ao que aquela pessoa
fez?
No Papo 2, nós vimos que:
Na projeção: "Existe
algo meu que eu coloco em você."
Na transferência: "Existe
algo que eu vivi antes e que passo a experimentar novamente na relação
atual."
É uma diferença sutil,
mas muito poderosa.
E que deve ser explorada
em análise.
Olhando com o olhar da
neurociência: o cérebro não começa cada relacionamento do zero.
Nós construímos modelos
internos a partir das experiências anteriores. Experiências repetidas de
cuidado, rejeição, abandono, crítica, imprevisibilidade, acolhimento, dentre
outras, ajudam a formar expectativas sobre como os outros provavelmente irão se
comportar.
Quando uma situação atual
possui alguma semelhança com experiências anteriores, esses modelos podem
influenciar a interpretação do presente.
E aqui entra conceitos da
neurociência moderna, como a Memória Emocional.
Olhe para a memória
emocional da seguinte maneira: nosso cérebro entende que as experiências que
nos fazem sentir mais coisas, sejam boas ou ruins, devem ser registradas com
mais detalhes. Tudo que marca nos relacionamentos anteriores tende a ser
registrado e, no novo relacionamento, essas memórias podem ser resgatadas e
gerar grande influência por conta de gatilhos.
Um perfume parecido, um
comportamento semelhante, um hábito, uma música, qualquer coisa que marcou
naquela época, tende a voltar. Seja bom ou ruim. Seja em um relacionamento
amoroso ou não.
Essas memórias conversam
com a Aprendizagem associativa, aquelas repetições de padrões e situações que
vão condicionando nosso cérebro e influenciando nossas decisões ao longo da
vida.
Cuidado, não estou
dizendo que a neurociência "provou a transferência freudiana".
A neurociência não
confirma literalmente a teoria freudiana da transferência, mas oferece
mecanismos plausíveis para entendermos por que experiências passadas
influenciam a maneira como interpretamos e reagimos às relações presentes. Vai
falar que não achou que as duas conversam muito bem?
Mas vamos imaginar essa
transferência acontecendo em um consultório, com um paciente:
“Imagine uma paciente
fictícia, Marina.
Ela chega dizendo:
— Doutor, acho que você
está ficando decepcionado comigo.
Você pergunta:
— O que fez você pensar
isso?
Ela responde:
— Você ficou em silêncio
quando eu terminei de falar.
Você explica que estava
apenas pensando no que ela havia contado. Mas aquilo não parece suficiente para
ela.
Nas sessões seguintes,
qualquer pequena mudança na sua expressão, um atraso, uma pergunta mais direta
ou até uma discordância começa a ser interpretada como:
"Você está bravo
comigo."
"Você está cansado
de me ouvir."
"Você acha que eu
sou incompetente."
Até que, em determinado
momento, aparece uma lembrança:
O pai de Marina era
extremamente crítico.
Quando ela contava alguma
coisa, ele frequentemente respondia com silêncio, expressão fechada ou frases
como:
"Você nunca faz nada
direito."
E aí aparece a pergunta:
Marina estava realmente
enxergando o terapeuta?
Ou estava enxergando o terapeuta através da história que viveu com o pai?
Pesado, não? Mas um
excelente ponto de reflexão e análise.
Vale dizer que a transferência
não acontece apenas no consultório.
Por exemplo: A pessoa que
recebe uma mensagem curta do namorado: "Precisamos conversar." E
imediatamente pensa: "Ele vai terminar comigo."
Talvez o namorado
simplesmente queira conversar. Mas o cérebro não recebe apenas aquelas
palavras. Ele lembra de experiências anteriores, vídeos sobre relacionamentos,
tudo que tiver armazenado e parecer relevante, tende a aparecer (mesmo que
falhe algumas vezes, é um mecanismo de proteção psicológico).
E constrói uma
interpretação.
Mas, apesar do exemplo
didático, não custa você ser mais didático e claro nas mensagens,
principalmente se souber que a pessoa que receberá a mensagem sofre com
ansiedade, que isso possa servir como um gatilho para piorar o dia da pessoa.
Se souber disso, não faça, pois você só está sendo cretino.
Quando o presente toca em
uma memória emocional, a transferência pode acontecer – proteção, modo de
operação, visões que foram construídas ao longo do tempo, com as experiências
da vida.
E o cérebro começa a
preparar a resposta antes mesmo de termos certeza do que está acontecendo.
Às vezes, não reagimos à
pessoa que está diante de nós. Reagimos à história que o nosso cérebro aprendeu
a contar quando encontra alguém parecido com ela.
Não adianta, terapia é
vida. E só o autoconhecimento nos ajuda a lidar com nossas mazelas psicológicas
e conseguirmos aproveitar a vida e nossas relações de uma forma mais intensa e
prazerosa.
Boas reflexões!





