Plantando Ciência
Para o cérebro.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Meio ano passou
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Saúde Mental 3 - Dá para melhorar minha memória?
Boa tarde, pessoal!
A memória é uma das
funções mais fascinantes do cérebro humano. Envolve os cinco sentidos, regiões
do sistema límbico como o hipocampo e a amígdala, envolve o famoso córtex
pré-frontal. A atenção que damos e tudo o que sentimos em nossas experiências
influenciam o que vamos registrar como memórias de longo prazo ou não.
E isso confirma uma
coisa, nossa memória não funciona como um arquivo digital que simplesmente
registra tudo o que acontece ao nosso redor. Na verdade, o cérebro seleciona
constantemente quais informações merecem ser armazenadas e quais podem ser
descartadas.
Advinha quem fez a figura? Sim, ele: chat gpt!
Mas Bruno, não seria mais vantajoso registrar tudo e ficar muito mais inteligente?
Não, pelo contrário! Imagina
guardar o rosto de todas as pessoas que você cruza em um ônibus, ou todos os
sons que escutou pegando o trânsito de Campinas em horário de pico. Ficou mais
claro agora, né? Seria um inferno para o cérebro, e um inferno totalmente desnecessário,
que serviria apenas para gastar energia e atrapalhar as funções cognitivas.
Dois fatores exercem
enorme influência nesse processo: a atenção e a emoção.
Ou seja, tendemos a
registrar com mais facilidade o que prestamos atenção e o quanto nos fez sentir
determinada experiência.
Vai me falar que você
nunca chegou na última palavra da folha de um livro e não sabia absolutamente
nada do que leu naquela página inteira? Não prestou atenção, não processou e
muito menos registrou nada.
Quando prestamos atenção a
uma experiência, ativamos circuitos cerebrais responsáveis pela codificação das
informações, especialmente regiões como o hipocampo. É como se a atenção
passasse um marco texto naquela experiência, que durante o sono o hipocampo
fará mais questão de transformar em memória de longo prazo.
Sem atenção, dificilmente
uma experiência será registrada de forma eficiente. Imagina o conteúdo que vai
cair na prova do seu concurso, então!
As emoções também atuam
como um marcador biológico da importância de um evento. Experiências carregadas
de alegria, medo, surpresa ou tristeza tendem a ser lembradas com mais
facilidade.
E o motivo também é
simples, e fantástico. A Amígdala cerebral, é uma região do sistema límbico que
interpreta a carga emocional das experiências, e quanto mais essa carga, ou
seja, quanto mais aquela experiência te faz sentir, mais ativa fica a amígdala,
outra caneta marca texto é passada na experiência para o hipocampo, que entende
de uma forma bem simples: fez sentir, melhor lembrar! Posso querer mais ou
evitar depois.
Mas ai vieram as novas
pesquisas e mostraram algo ainda mais legal.
Essa análise feita pela
amígdala, além de sinalizar para o hipocampo, também serve para mostrar o que
devemos prestar atenção naquele momento. E ai, a amígdala mexe diretamente com
os dois principais fatores que precisamos para registrar algo com mais facilidade:
atenção e carga emocional.
Entende, agora, por que é
tão difícil aprender ou desenvolver algo quando seu estresse está muito alto?
Quando seu “psicológico” está desregulado?
E isso nos leva a outro ponto muito comum no âmbito popular atualmente: estou com problemas de memória.
E não, meu amigo ou amiga.
Dificilmente você tem algum problema de memória, provavelmente é só falta de
atenção.
A boa notícia é que
existem hábitos simples, incorporados à rotina diária, capazes de fortalecer os
mecanismos biológicos responsáveis pela formação e manutenção das memórias.
Exercício aeróbico
Se existisse uma
"pílula" para melhorar a memória, provavelmente ela se pareceria
muito com a atividade física.
Diversos estudos mostram
que exercícios aeróbicos aumentam a produção de fatores neurotróficos,
especialmente o BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), uma proteína
essencial para a sobrevivência dos neurônios e para a formação de novas
conexões neurais.
Além disso, a prática
regular de atividade física favorece a saúde do hipocampo, estrutura cerebral
fundamental para a consolidação de memórias.
Pesquisas recentes
demonstraram que programas de treinamento aeróbico, especialmente em
intensidades moderadas e altas, podem melhorar significativamente funções
dependentes do hipocampo, com benefícios observados mesmo anos após a
intervenção.
Muito disso tem relação
com a circulação sanguínea, sabia? Mais aeróbico, melhor saúde cardiovascular,
mais sangue, oxigênio e nutrientes abastecendo nosso cérebro.
Resultado?
Funções cognitivas
melhores, mais atenção, maiores chances de formar memórias de longo prazo
quando queremos focar em algo.
Como aplicar na rotina:
- Caminhada rápida por 30 minutos;
- Corrida leve;
- Bicicleta;
- Natação;
- Dança.
O mais importante é a
regularidade. Três a cinco sessões semanais já podem trazer benefícios
cognitivos mensuráveis.
Mas lembre-se: de leve se
você estiver parado a muito tempo, sem inventar ou esforçar de uma maneira
estúpida, assim evitamos lesões e colhemos apenas os benefícios, rs.
Dormir bem
Dormir é parte essencial
do processo e tem uma relação gritante com nossa saúde mental.
Só de ler essa primeira
frase, você já ligou os pontos e entendeu que, se sono está relacionado a saúde
mental, sono de qualidade vai deixar meu cérebro mais afiado e funcionando
perfeitamente bem, ou seja, apto a formar mais memórias.
Durante o sono,
especialmente nas fases profundas e no sono REM, o cérebro revisita
experiências recentes e fortalece conexões neurais relacionadas ao aprendizado.
Esse processo é chamado de consolidação da memória.
E lembra que a atenção
que demos às experiências e o que elas nos fizeram sentir grifaram a
importância daqueles episódios para o hipocampo? É na consolidação que ele
trabalha para transformar o que foi grifado como importante em memória de longo
prazo.
Todo o restante?
Simplesmente apagado, não era importante.
Em termos simples, dormir
é o momento em que o cérebro organiza, seleciona e armazena as informações
adquiridas ao longo do dia.
Pesquisas demonstram que
uma boa noite de sono melhora a retenção de informações, o desempenho cognitivo
e a memória emocional.
Como aplicar na rotina:
- Dormir entre 7 e 9 horas por noite –
isso varia bastante de pessoa para a pessoa, e você deve observar quantas
horas dormiu e como foi seu desempenho no outro dia. E assim ir ajustando
a quantidade de horas que faz mais sentido para você!
- Manter horários regulares para
dormir;
- Evitar telas brilhantes na última
hora antes de dormir;
- Reduzir cafeína no período noturno.
Em muitos momentos,
chamamos esse processo de higiene do sono, como aquela skin care antes de dormir.
Vamos desacelerando nosso cérebro para o repouso e ainda construindo uma
rotina, com padrões que vão mostrando para ele que está chegando a hora de dormir.
Consuma alimentos ricos em flavonoides
Alguns alimentos parecem
oferecer uma ajuda extra para o cérebro.
Entre eles, os frutos
vermelhos, como o mirtilo (blueberry), têm recebido atenção crescente da
comunidade científica.
Essas frutas são ricas em
flavonoides, compostos antioxidantes capazes de reduzir processos inflamatórios
e favorecer a comunicação entre neurônios.
Uma revisão sistemática
de estudos clínicos encontrou melhora em diferentes aspectos da cognição,
incluindo memória de curto e longo prazo, após intervenções com mirtilos e seus
derivados.
Embora nenhum alimento
seja milagroso, uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, azeite de
oliva, peixes e oleaginosas parece favorecer a saúde cerebral ao longo da vida.
Fora que é uma delícia né, rs.
Como aplicar na rotina:
- Consumir frutas vermelhas
regularmente;
- Incluir castanhas e nozes;
- Aumentar o consumo de vegetais;
- Priorizar alimentos minimamente
processados.
Aprenda algo novo
O cérebro é um órgão
adaptável, plástico, dai o termo neuroplasticidade.
Quando aprendemos uma
nova habilidade, novos circuitos neurais são formados e a repetição pode fortalecê-los,
algo como criar hábitos.
Aprender um instrumento
musical, estudar um idioma, praticar uma nova modalidade esportiva ou até mesmo
mudar caminhos habituais pode estimular processos de plasticidade cerebral.
Um cérebro que aprende
constantemente, que é estimulado e desafiado constantemente, que lê, se mantêm
jovem e tende a afastar ou a pelo menos postergar o surgimento de doenças neurodegenerativas.
Essa dica é basicamente a
evolução do famoso “fazer palavras cruzadas”.
Quanto mais desafiamos o
cérebro, maior a necessidade de criar e fortalecer conexões neurais envolvidas
no aprendizado e na memória.
Muitas pessoas procuram
técnicas complexas para melhorar a memória, mas a ciência mostra que os maiores
benefícios costumam vir de hábitos simples e consistentes.
Constância nos bons hábitos,
o grande x da questão da saúde cerebral.
Praticar exercícios
físicos, dormir adequadamente, manter uma alimentação equilibrada, aprender
coisas novas e prestar mais atenção ao momento presente são atitudes capazes de
fortalecer os mecanismos biológicos que sustentam nossas lembranças.
A memória não depende
apenas daquilo que tentamos guardar. Ela depende, principalmente, da forma como
cuidamos do cérebro que realiza esse trabalho todos os dias.
Emoções intensas aumentam a liberação de adrenalina e noradrenalina, substâncias que ajudam o cérebro a sinalizar que uma experiência é importante (lembra do papel da amígdala nesse processo?). É por isso que muitas pessoas lembram exatamente onde estavam em momentos marcantes da vida, mas esquecem facilmente o que almoçaram na terça-feira passada.
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Toxicologia Forense: moléculas ajudando a solucionar crimes
Boa noite, pessoal.
Dentro da nossa
disciplina de Farmacologia e Toxicologia, hoje vamos entender o que é e o que
faz a Toxicologia Forense. E sim, é sensacional!
Já imaginou ajudar na
resolução de crimes complexos encontrando substâncias como psicofármacos e
drogas como a cocaína, no sangue de uma vítima? E no cabelo? No humor vítreo?
Sim, a toxicologia
auxilia em tudo isso, e vamos entender um pouco sobre como isso acontece e vem
ajudando nas investigações criminais.
E, além disso, qual o
papel do biomédico nisso tudo? Como os conhecimentos que estamos construindo em
sala de aula podem
Vou dividir em tópicos
nossa discussão, para ficar mais didático:
O que é Toxicologia Forense?
A Toxicologia Forense é
uma área da ciência que aplica os conhecimentos da toxicologia às investigações
de interesse legal.
Seu principal objetivo é
identificar, quantificar e interpretar a presença de substâncias químicas —
como medicamentos, drogas ilícitas, álcool, venenos e outras toxinas — em
amostras biológicas ou materiais coletados durante uma investigação.
O trabalho do
toxicologista forense vai muito além de detectar uma substância em uma amostra.
Seu objetivo é
compreender o significado daquele achado dentro do contexto investigativo.
Entre as principais
perguntas respondidas pela toxicologia forense
-
estão: qual substância foi utilizada;
-
em que quantidade ela estava presente;
-
quando ocorreu a exposição;
-
essa substância pode ter contribuído para a morte ou para determinado
comportamento da vítima.
Dessa forma, a
toxicologia auxilia na reconstrução dos fatos e na busca pela verdade
científica.
A Toxicologia Forense
atua como uma ponte entre a ciência e o sistema judiciário. Os resultados
obtidos em análises laboratoriais podem servir como provas em processos
criminais, cíveis e trabalhistas, contribuindo para decisões judiciais mais
fundamentadas.
Em muitos casos, a
presença ou ausência de determinada substância pode ser determinante para
confirmar ou descartar hipóteses investigativas.
Ou seja, o trabalho do
toxicologista forense ajuda a garantir que conclusões sejam baseadas em
evidências científicas, promovendo maior segurança e imparcialidade na
aplicação da justiça.
Curiosidade:
Em diversas investigações, a causa da morte só foi esclarecida após análises
toxicológicas detalhadas. Em alguns casos, substâncias presentes em
concentrações aparentemente baixas revelaram interações medicamentosas capazes
de provocar efeitos fatais, demonstrando que, na toxicologia forense, o
contexto é tão importante quanto o resultado laboratorial.
O que faz um
toxicologista forense?
- Investigação de mortes suspeitas
- Intoxicações
- Acidentes
- Drogas de abuso
- Envenenamentos
Quais amostras podem ser
analisadas?
- Sangue
- Urina
- Cabelo
- Humor vítreo
- Conteúdo gástrico
Você sabia que um fio de
cabelo pode revelar o uso de drogas ocorrido meses antes da coleta.
Para saber mais sobre
amostras biológicas, recomendo o material de bioquímica clínica:
https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/materiais-biologicos-20.html
Principais técnicas laboratoriais
- Imunoensaio
- GC-MS – Cromatografia gasosa acoplada
ao espectro de massas
- LC – Cromatografia líquida
A descrição das técnicas
e suas principais características estarão na próxima matéria da disciplina;.
O papel do biomédico
O biomédico possui
formação sólida nas áreas de análises clínicas, biologia molecular, bioquímica,
farmacologia e toxicologia, conhecimentos fundamentais para a investigação de
substâncias químicas em amostras biológicas.
Após habilitação na área
de Toxicologia, esse profissional pode atuar em laboratórios forenses,
institutos de criminalística, centros de pesquisa e órgãos de segurança
pública, participando diretamente de análises relacionadas a intoxicações,
drogas de abuso, medicamentos, venenos e outras substâncias de interesse
pericial.
A perícia criminal é um
dos maiores desejos dos alunos do curso de biomedicina.
Na prática pericial, o
biomédico desempenha um papel essencial na identificação e quantificação de
agentes tóxicos presentes em materiais como sangue, urina, cabelo, conteúdo
gástrico e tecidos biológicos.
Seu trabalho contribui
para a elucidação de mortes suspeitas, acidentes, casos de envenenamento e
crimes envolvendo substâncias químicas.
"Na Toxicologia
Forense, o biomédico não procura apenas substâncias; ele transforma evidências
químicas em respostas que podem mudar o rumo de uma investigação."
- Michael Jackson
- Marilyn Monroe
- Elvis Presley
- Anna Nicole Smith
- Nem todo veneno deixa sinais
visíveis.
- O cabelo funciona como uma linha do
tempo química.
- O humor vítreo do olho é uma das
amostras mais estáveis após a morte.
- Algumas substâncias podem ser
detectadas anos após o óbito em determinadas condições.
Por hoje é isso, pessoal!
Bons estudos!
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Padrões e tomadas de decisão
Será que realmente estamos no controle do nosso cérebro?
Assistam para a reflexão:
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.
Por que a liberdade assusta?
Bom dia, pessoal!
Hoje tive o prazer de
participar do quadro: Cá entre nós!
De uma profissional que
admiro e acompanho a um bom tempo, a Camila Manga. Inclusive, muito obrigado
pelo convite, Cá.
E o tema da live?
“O que fazer quando a
liberdade assusta?”
Para refletirmos melhor
sobre o assunto, dividi a discussão em cinco pontos principais, começando pelo
mais neurobiológico deles:
1. O cérebro prefere previsibilidade
Nossos ancestrais precisavam
caçar para obter alimentos, pasmem, não existia ifood em épocas antigas, rs.
Imagina ser difícil obter
combustível e ter um cérebro extremamente potente, sedento por conhecimentos e
aventuras, mas que gasta um combustível danado, tipo um superesportivo.
A conta não fechava e,
para continuar se desenvolvendo sem fronteiras, o cérebro aprendeu a ser o mais
econômico possível quando executa suas funções.
E aqui mora a biologia
por trás da discussão de hoje: para gastar menos energia sendo tão “inteligente”
quanto seu potencial, o cérebro constrói padrões e adora previsibilidade e zona
de conforto.
Escolhas, principalmente
quando existem diversas opções, implicam incertezas.
Incertezas fazem com que
o cérebro gaste mais energia para evitar erros, para nos manter vivos... Mais
opções, maior gasto energético, mais trabalho para o cérebro.
Resultado? Melhor evitar
e se manter no fluxo normal dos hábitos e padrões.
Mas, diante do catálogo
da Netflix ou das dezenas de opções do rodízio da churrascaria (ou do japonês),
frente à liberdade, o cérebro enxerga:
- múltiplas possibilidades;
- ausência de garantias;
- responsabilidade pelas escolhas;
- imprevisibilidade dos resultados.
Do ponto de vista neural,
isso aumenta a incerteza.
E incerteza costuma
ativar circuitos relacionados à vigilância e à ansiedade.
Ou seja, biologicamente
falando, escolhas causam medo. É inevitável, rs.
2. Mais opções nem sempre
significa mais felicidade
Já ouviu falar sobre:
paradoxo da escolha?
Quando temos poucas
opções, escolhemos e seguimos em frente. Tipo quando seu parceiro ou sua
parceira diminui as opções de hambúrguer para duas hamburguerias, agilizou
absurdamente sua vida.
Quando temos muitas
opções nosso cérebro começa a trabalhar com questões mais complexas do que apenas
escolher e pronto, ele precisa analisar fatores como:
- aumento do medo de errar;
- arrependimento potencial – achei fantástico
esse termo, porque quanto mais opções eu tenho, maior a impressão de que
posso mais errar do que acertar. Psicologicamente péssimo;
- aumenta a comparação entre
alternativas.
O resultado pode ser
justamente uma sensação de paralisia, travar frente tantas opções.
Pensando no self-service, normalmente é quando colocamos 5 tipos de mistura no prato, porque queria provar todas (mesmo sem a menor necessidade e, muitas vezes, sem nem fome para isso – vale olhar isso aqui: comer-com-os-olhos)
A liberdade absoluta pode
se transformar em peso.
3. A responsabilidade
assusta
Do ponto de vista
psicológico, quando alguém está preso a uma regra rígida, uma tradição ou uma
autoridade, parte da responsabilidade pela decisão pode ser atribuída a algo
externo.
É o que comentei na live:
quando minha rotina era definida pelos meus pais, com a escola ocupando parte do
meu dia, refeições prontas e acontecendo sempre na mesma faixa de horário,
dentre inúmeras outras coisas da rotina daquela época, meu cérebro não
precisava se preocupar com inúmeras escolhas importantes do meu dia, podendo
ser mais criativo, mais imaginativo – talvez até construindo uma ideia errônea
de que liberdade em demasia é sempre maravilhoso.
Mas quando a pessoa é
verdadeiramente livre, ela se torna autora das próprias escolhas, ou seja,
aumenta drasticamente a responsabilidade pelos resultados que serão colhidos
daquela escolha.
Senti uma pontada de
ansiedade aqui, só de lembrar de todas as responsabilidades que tenho
atualmente, rs.
A neurociência social
mostra que regiões como o córtex pré-frontal medial estão envolvidas na
autorreferência e na avaliação das consequências das próprias decisões. Que,
coincidentemente, também é uma das regiões envolvida no controle das nossas
emoções, um caminho que conhecemos com inteligência emocional.
Consegue entender melhor
agora, como nossas emoções influenciam nas nossas escolhas?
4. Para o cérebro:
segurança é mais importante que prazer
Uma descoberta importante
das últimas décadas é que o sistema nervoso não trabalha prioritariamente para
buscar felicidade, isso foi uma ideia maligna construída por nós mesmos.
O cérebro trabalha para
garantir sobrevivência.
Por isso muitas pessoas
permanecem:
- em relacionamentos ruins;
- em empregos insatisfatórios;
- em hábitos prejudiciais.
Não porque gostem deles.
Mas porque são locais seguros, mesmo que seja uma possível falsa segurança,
como a Camila colocou muito bem na live.
O conhecido gera
previsibilidade. O desconhecido gera ativação fisiológica, e, nesses casos, a
ativação fisiológica é a famosa resposta do medo, base dos nossos anseios mais
comuns.
Nesse sentido, a
liberdade pode ser vivida como uma ameaça biológica antes de ser experimentada
como uma oportunidade. Análise de risco!
5. O desenvolvimento
humano exige tolerar a incerteza
Talvez a reflexão mais
interessante seja:
A maturidade não consiste
em eliminar o medo da liberdade. Ela consiste em desenvolver recursos para agir
apesar dele.
Do ponto de vista
neurobiológico, isso envolve o fortalecimento de circuitos relacionados à
regulação emocional, especialmente as conexões entre regiões pré-frontais e
estruturas límbicas como a amígdala.
Ou seja, não é que
pessoas maduras sintam menos incerteza. É que elas desenvolveram ferramentas e
conseguem sustentar a incerteza por mais tempo sem fugir dela.
E aqui, meu amigo, só a terapia e o autoconhecimento podem te ajudar!
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Perfeccionismo: Vontade excessiva de acertar ou medo de errar?
Boa noite, pessoal.
Nossa reflexão de hoje é sobre o perfeccionismo, mas muito se encaixa na procrastinação também, bora ver como a neurociência e a psicanálise enxergam o querer tudo perfeito?
Como o próprio título já instiga, o medo de errar, o medo de ser julgado, o medo de fazer algo e esse algo não dar certo, normalmente é a causa real por trás do tempo que perdemos para fazer o que amamos, para seguir nossa intuição, nossos sonhos.
Quando analisamos com mais calma os pacientes, os conhecidos, ou até nos mesmos, percebemos que, na maioria das vezes, o que chamamos de perfeccionismo, com a ideia de que precisa estar perfeito antes de ser mostrado, na verdade é só um mecanismo de defesa para nos defender do medo, medo da rejeição, medo do julgamento...
A neurociência vem mostrando, nas últimas décadas, que por trás do perfeccionismo, normalmente encontramos pessoas com:
- Maior sensibilidade à avaliação social.
- Hipervigilância para erros;
- Intolerância às incertezas.
E essas características te lembram o que?
Exatamente, sintomas e características comuns aos transtornos de ansiedade.
Olhando mais a neurobiologia por trás: amígdala hiperativa, reconhecendo quase todas as experiências como ameaças. Resultado? Modo de defesa constante, medo tomando conta em muitos aspectos.
E ai, enrolamos.
E o tempo vai passando...
Se enxergo tudo através de um cérebro em modo de defesa, as coisas acabam parecendo mais "perigosas" e desafiadoras do que realmente são. Ai, o medo acaba tomando conta, e eu prefiro não enviar o trabalho, não postar a matéria, não gravar um vídeo... É mais seguro esperar ficar perfeito do que errar.
Mas, sejamos sinceros agora:
- Perfeição não existe.
- Existirão pessoas prontas para julgar absolutamente tudo que você fizer. É impossível agradar a todos.
Então, neurocientificamente falando (rs), a melhor opção é ligar o famoso FODA-SE mais vezes, e fazer as coisas mesmo com medo.
Mas e para a psicanálise?
Como ela pode nos ajudar a entender o perfeccionismo?
Para olhar pelo ponto de vista psicanalítico, talvez duas frases nos ajudem no começo de uma reflexão mais profunda:
- Se ficar perfeito, ninguém me rejeitará.
- Se eu não errar, estarei seguro.
É como se o perfeccionismo fosse uma forma de encontrar e de conquistar aceitação, acolhimento, em alguns casos, até mesmo amor.
A possibilidade de errar gera medo pois a ideia oferece exatamente o contrário, não acolhimento, rejeição, julgamento... Melhor mostrar só quando estiver perfeito, evito todos esses pontos negativos.
Como a psicanálise exige sempre um olhar mais profundo, muitas vezes tudo isso começa a ser construído na infância, através das exigências familiares, das cobranças excessivas, de um ambiente onde o afeto parecia estar condicionado ao desempenho, ao acerto.
Se acerto, recebo afeto.
Se erro, encontro rejeição, desprezo, não sou acolhido.
Pronto, um monstro foi criado.
Nasce ai, um padrão que pode levar exatamente ao perfeccionismo, que pode levar à procrastinação excessiva na fase adulta.
Como já refletimos em textos anteriores, as lentes que são colocadas pela infância, que alteram a forma como enxergamos e nos comportamos com o mundão, seguem nos influenciando drasticamente na vida adulta e em nossas escolhas.
Seja tudo isso consciente ou não.
Por hoje, temos pontos suficientes para reflexão.
Boas reflexões!
Oi, prazer! Sou o Dr. Bruno Damião, apaixonado pelo cérebro humano e todas as suas habilidades e mazelas.



