segunda-feira, 22 de junho de 2026

Saúde Mental 3 - Dá para melhorar minha memória?

Boa tarde, pessoal!

A memória é uma das funções mais fascinantes do cérebro humano. Envolve os cinco sentidos, regiões do sistema límbico como o hipocampo e a amígdala, envolve o famoso córtex pré-frontal. A atenção que damos e tudo o que sentimos em nossas experiências influenciam o que vamos registrar como memórias de longo prazo ou não.

E isso confirma uma coisa, nossa memória não funciona como um arquivo digital que simplesmente registra tudo o que acontece ao nosso redor. Na verdade, o cérebro seleciona constantemente quais informações merecem ser armazenadas e quais podem ser descartadas.


Advinha quem fez a figura? Sim, ele: chat gpt!


Mas Bruno, não seria mais vantajoso registrar tudo e ficar muito mais inteligente?

Não, pelo contrário! Imagina guardar o rosto de todas as pessoas que você cruza em um ônibus, ou todos os sons que escutou pegando o trânsito de Campinas em horário de pico. Ficou mais claro agora, né? Seria um inferno para o cérebro, e um inferno totalmente desnecessário, que serviria apenas para gastar energia e atrapalhar as funções cognitivas.

Dois fatores exercem enorme influência nesse processo: a atenção e a emoção.

Ou seja, tendemos a registrar com mais facilidade o que prestamos atenção e o quanto nos fez sentir determinada experiência.

Vai me falar que você nunca chegou na última palavra da folha de um livro e não sabia absolutamente nada do que leu naquela página inteira? Não prestou atenção, não processou e muito menos registrou nada.

Quando prestamos atenção a uma experiência, ativamos circuitos cerebrais responsáveis pela codificação das informações, especialmente regiões como o hipocampo. É como se a atenção passasse um marco texto naquela experiência, que durante o sono o hipocampo fará mais questão de transformar em memória de longo prazo.

Sem atenção, dificilmente uma experiência será registrada de forma eficiente. Imagina o conteúdo que vai cair na prova do seu concurso, então!

As emoções também atuam como um marcador biológico da importância de um evento. Experiências carregadas de alegria, medo, surpresa ou tristeza tendem a ser lembradas com mais facilidade.

E o motivo também é simples, e fantástico. A Amígdala cerebral, é uma região do sistema límbico que interpreta a carga emocional das experiências, e quanto mais essa carga, ou seja, quanto mais aquela experiência te faz sentir, mais ativa fica a amígdala, outra caneta marca texto é passada na experiência para o hipocampo, que entende de uma forma bem simples: fez sentir, melhor lembrar! Posso querer mais ou evitar depois.

Mas ai vieram as novas pesquisas e mostraram algo ainda mais legal.

Essa análise feita pela amígdala, além de sinalizar para o hipocampo, também serve para mostrar o que devemos prestar atenção naquele momento. E ai, a amígdala mexe diretamente com os dois principais fatores que precisamos para registrar algo com mais facilidade: atenção e carga emocional.

Entende, agora, por que é tão difícil aprender ou desenvolver algo quando seu estresse está muito alto? Quando seu “psicológico” está desregulado?

E isso nos leva a outro ponto muito comum no âmbito popular atualmente: estou com problemas de memória.

E não, meu amigo ou amiga. Dificilmente você tem algum problema de memória, provavelmente é só falta de atenção.

A boa notícia é que existem hábitos simples, incorporados à rotina diária, capazes de fortalecer os mecanismos biológicos responsáveis pela formação e manutenção das memórias.

 

Exercício aeróbico

Se existisse uma "pílula" para melhorar a memória, provavelmente ela se pareceria muito com a atividade física.

Diversos estudos mostram que exercícios aeróbicos aumentam a produção de fatores neurotróficos, especialmente o BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), uma proteína essencial para a sobrevivência dos neurônios e para a formação de novas conexões neurais.

Além disso, a prática regular de atividade física favorece a saúde do hipocampo, estrutura cerebral fundamental para a consolidação de memórias.

Pesquisas recentes demonstraram que programas de treinamento aeróbico, especialmente em intensidades moderadas e altas, podem melhorar significativamente funções dependentes do hipocampo, com benefícios observados mesmo anos após a intervenção.

Muito disso tem relação com a circulação sanguínea, sabia? Mais aeróbico, melhor saúde cardiovascular, mais sangue, oxigênio e nutrientes abastecendo nosso cérebro.

Resultado?

Funções cognitivas melhores, mais atenção, maiores chances de formar memórias de longo prazo quando queremos focar em algo.

 

Como aplicar na rotina:

  • Caminhada rápida por 30 minutos;
  • Corrida leve;
  • Bicicleta;
  • Natação;
  • Dança.

 

O mais importante é a regularidade. Três a cinco sessões semanais já podem trazer benefícios cognitivos mensuráveis.

Mas lembre-se: de leve se você estiver parado a muito tempo, sem inventar ou esforçar de uma maneira estúpida, assim evitamos lesões e colhemos apenas os benefícios, rs.

 

Dormir bem

Dormir é parte essencial do processo e tem uma relação gritante com nossa saúde mental.

Só de ler essa primeira frase, você já ligou os pontos e entendeu que, se sono está relacionado a saúde mental, sono de qualidade vai deixar meu cérebro mais afiado e funcionando perfeitamente bem, ou seja, apto a formar mais memórias.

Durante o sono, especialmente nas fases profundas e no sono REM, o cérebro revisita experiências recentes e fortalece conexões neurais relacionadas ao aprendizado. Esse processo é chamado de consolidação da memória.

E lembra que a atenção que demos às experiências e o que elas nos fizeram sentir grifaram a importância daqueles episódios para o hipocampo? É na consolidação que ele trabalha para transformar o que foi grifado como importante em memória de longo prazo.

Todo o restante? Simplesmente apagado, não era importante.

Em termos simples, dormir é o momento em que o cérebro organiza, seleciona e armazena as informações adquiridas ao longo do dia.

Pesquisas demonstram que uma boa noite de sono melhora a retenção de informações, o desempenho cognitivo e a memória emocional.

 

Como aplicar na rotina:

  • Dormir entre 7 e 9 horas por noite – isso varia bastante de pessoa para a pessoa, e você deve observar quantas horas dormiu e como foi seu desempenho no outro dia. E assim ir ajustando a quantidade de horas que faz mais sentido para você!
  • Manter horários regulares para dormir;
  • Evitar telas brilhantes na última hora antes de dormir;
  • Reduzir cafeína no período noturno. 

Em muitos momentos, chamamos esse processo de higiene do sono, como aquela skin care antes de dormir. Vamos desacelerando nosso cérebro para o repouso e ainda construindo uma rotina, com padrões que vão mostrando para ele que está chegando a hora de dormir.


Consuma alimentos ricos em flavonoides

Alguns alimentos parecem oferecer uma ajuda extra para o cérebro.

Entre eles, os frutos vermelhos, como o mirtilo (blueberry), têm recebido atenção crescente da comunidade científica.

Essas frutas são ricas em flavonoides, compostos antioxidantes capazes de reduzir processos inflamatórios e favorecer a comunicação entre neurônios.

Uma revisão sistemática de estudos clínicos encontrou melhora em diferentes aspectos da cognição, incluindo memória de curto e longo prazo, após intervenções com mirtilos e seus derivados.

Embora nenhum alimento seja milagroso, uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, azeite de oliva, peixes e oleaginosas parece favorecer a saúde cerebral ao longo da vida. Fora que é uma delícia né, rs.

 

Como aplicar na rotina:

  • Consumir frutas vermelhas regularmente;
  • Incluir castanhas e nozes;
  • Aumentar o consumo de vegetais;
  • Priorizar alimentos minimamente processados.

 

Aprenda algo novo

O cérebro é um órgão adaptável, plástico, dai o termo neuroplasticidade.

Quando aprendemos uma nova habilidade, novos circuitos neurais são formados e a repetição pode fortalecê-los, algo como criar hábitos.

Aprender um instrumento musical, estudar um idioma, praticar uma nova modalidade esportiva ou até mesmo mudar caminhos habituais pode estimular processos de plasticidade cerebral.

Um cérebro que aprende constantemente, que é estimulado e desafiado constantemente, que lê, se mantêm jovem e tende a afastar ou a pelo menos postergar o surgimento de doenças neurodegenerativas.

Essa dica é basicamente a evolução do famoso “fazer palavras cruzadas”.

Quanto mais desafiamos o cérebro, maior a necessidade de criar e fortalecer conexões neurais envolvidas no aprendizado e na memória.

 

Muitas pessoas procuram técnicas complexas para melhorar a memória, mas a ciência mostra que os maiores benefícios costumam vir de hábitos simples e consistentes.

Constância nos bons hábitos, o grande x da questão da saúde cerebral.

Praticar exercícios físicos, dormir adequadamente, manter uma alimentação equilibrada, aprender coisas novas e prestar mais atenção ao momento presente são atitudes capazes de fortalecer os mecanismos biológicos que sustentam nossas lembranças.

A memória não depende apenas daquilo que tentamos guardar. Ela depende, principalmente, da forma como cuidamos do cérebro que realiza esse trabalho todos os dias.


 "Você sabia?"

Emoções intensas aumentam a liberação de adrenalina e noradrenalina, substâncias que ajudam o cérebro a sinalizar que uma experiência é importante (lembra do papel da amígdala nesse processo?). É por isso que muitas pessoas lembram exatamente onde estavam em momentos marcantes da vida, mas esquecem facilmente o que almoçaram na terça-feira passada.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Toxicologia Forense: moléculas ajudando a solucionar crimes

Boa noite, pessoal.

Dentro da nossa disciplina de Farmacologia e Toxicologia, hoje vamos entender o que é e o que faz a Toxicologia Forense. E sim, é sensacional!

Já imaginou ajudar na resolução de crimes complexos encontrando substâncias como psicofármacos e drogas como a cocaína, no sangue de uma vítima? E no cabelo? No humor vítreo?

Sim, a toxicologia auxilia em tudo isso, e vamos entender um pouco sobre como isso acontece e vem ajudando nas investigações criminais.

E, além disso, qual o papel do biomédico nisso tudo? Como os conhecimentos que estamos construindo em sala de aula podem

Vou dividir em tópicos nossa discussão, para ficar mais didático:

 


O que é Toxicologia Forense?

A Toxicologia Forense é uma área da ciência que aplica os conhecimentos da toxicologia às investigações de interesse legal.

Seu principal objetivo é identificar, quantificar e interpretar a presença de substâncias químicas — como medicamentos, drogas ilícitas, álcool, venenos e outras toxinas — em amostras biológicas ou materiais coletados durante uma investigação.

O trabalho do toxicologista forense vai muito além de detectar uma substância em uma amostra.

Seu objetivo é compreender o significado daquele achado dentro do contexto investigativo.

Entre as principais perguntas respondidas pela toxicologia forense

- estão: qual substância foi utilizada;

- em que quantidade ela estava presente;

- quando ocorreu a exposição;

- essa substância pode ter contribuído para a morte ou para determinado comportamento da vítima.

Dessa forma, a toxicologia auxilia na reconstrução dos fatos e na busca pela verdade científica.

A Toxicologia Forense atua como uma ponte entre a ciência e o sistema judiciário. Os resultados obtidos em análises laboratoriais podem servir como provas em processos criminais, cíveis e trabalhistas, contribuindo para decisões judiciais mais fundamentadas.

Em muitos casos, a presença ou ausência de determinada substância pode ser determinante para confirmar ou descartar hipóteses investigativas.

Ou seja, o trabalho do toxicologista forense ajuda a garantir que conclusões sejam baseadas em evidências científicas, promovendo maior segurança e imparcialidade na aplicação da justiça.

Curiosidade: Em diversas investigações, a causa da morte só foi esclarecida após análises toxicológicas detalhadas. Em alguns casos, substâncias presentes em concentrações aparentemente baixas revelaram interações medicamentosas capazes de provocar efeitos fatais, demonstrando que, na toxicologia forense, o contexto é tão importante quanto o resultado laboratorial.

 

O que faz um toxicologista forense?

  • Investigação de mortes suspeitas
  • Intoxicações
  • Acidentes
  • Drogas de abuso
  • Envenenamentos

 

Quais amostras podem ser analisadas?

  • Sangue
  • Urina
  • Cabelo
  • Humor vítreo
  • Conteúdo gástrico

 

Você sabia que um fio de cabelo pode revelar o uso de drogas ocorrido meses antes da coleta.

Para saber mais sobre amostras biológicas, recomendo o material de bioquímica clínica:

https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/materiais-biologicos-20.html


Principais técnicas laboratoriais

  • Imunoensaio
  • GC-MS – Cromatografia gasosa acoplada ao espectro de massas
  • LC – Cromatografia líquida

A descrição das técnicas e suas principais características estarão na próxima matéria da disciplina;.

O papel do biomédico

O biomédico possui formação sólida nas áreas de análises clínicas, biologia molecular, bioquímica, farmacologia e toxicologia, conhecimentos fundamentais para a investigação de substâncias químicas em amostras biológicas.

Após habilitação na área de Toxicologia, esse profissional pode atuar em laboratórios forenses, institutos de criminalística, centros de pesquisa e órgãos de segurança pública, participando diretamente de análises relacionadas a intoxicações, drogas de abuso, medicamentos, venenos e outras substâncias de interesse pericial.

A perícia criminal é um dos maiores desejos dos alunos do curso de biomedicina.

Na prática pericial, o biomédico desempenha um papel essencial na identificação e quantificação de agentes tóxicos presentes em materiais como sangue, urina, cabelo, conteúdo gástrico e tecidos biológicos.

Seu trabalho contribui para a elucidação de mortes suspeitas, acidentes, casos de envenenamento e crimes envolvendo substâncias químicas.

"Na Toxicologia Forense, o biomédico não procura apenas substâncias; ele transforma evidências químicas em respostas que podem mudar o rumo de uma investigação."

 Casos famosos resolvidos pela toxicologia

  • Michael Jackson
  • Marilyn Monroe
  • Elvis Presley
  • Anna Nicole Smith

 Você sabia?

  • Nem todo veneno deixa sinais visíveis.
  • O cabelo funciona como uma linha do tempo química.
  • O humor vítreo do olho é uma das amostras mais estáveis após a morte.
  • Algumas substâncias podem ser detectadas anos após o óbito em determinadas condições.

Por hoje é isso, pessoal!

Bons estudos!

terça-feira, 9 de junho de 2026

Padrões e tomadas de decisão

Bom dia, pessoal!
Ontem, publiquei um vídeo com uma reflexão que pode ser resumida em uma frase bem conhecida:

Será que realmente estamos no controle do nosso cérebro?

Assistam para a reflexão:




Por que a liberdade assusta?

Bom dia, pessoal!

Hoje tive o prazer de participar do quadro: Cá entre nós!

De uma profissional que admiro e acompanho a um bom tempo, a Camila Manga. Inclusive, muito obrigado pelo convite, Cá.

E o tema da live?

“O que fazer quando a liberdade assusta?”

Para refletirmos melhor sobre o assunto, dividi a discussão em cinco pontos principais, começando pelo mais neurobiológico deles:


 

1. O cérebro prefere previsibilidade

Nossos ancestrais precisavam caçar para obter alimentos, pasmem, não existia ifood em épocas antigas, rs.

Imagina ser difícil obter combustível e ter um cérebro extremamente potente, sedento por conhecimentos e aventuras, mas que gasta um combustível danado, tipo um superesportivo.

A conta não fechava e, para continuar se desenvolvendo sem fronteiras, o cérebro aprendeu a ser o mais econômico possível quando executa suas funções.

E aqui mora a biologia por trás da discussão de hoje: para gastar menos energia sendo tão “inteligente” quanto seu potencial, o cérebro constrói padrões e adora previsibilidade e zona de conforto.

Escolhas, principalmente quando existem diversas opções, implicam incertezas.

Incertezas fazem com que o cérebro gaste mais energia para evitar erros, para nos manter vivos... Mais opções, maior gasto energético, mais trabalho para o cérebro.

Resultado? Melhor evitar e se manter no fluxo normal dos hábitos e padrões.

Mas, diante do catálogo da Netflix ou das dezenas de opções do rodízio da churrascaria (ou do japonês), frente à liberdade, o cérebro enxerga:

  • múltiplas possibilidades;
  • ausência de garantias;
  • responsabilidade pelas escolhas;
  • imprevisibilidade dos resultados.

 

Do ponto de vista neural, isso aumenta a incerteza.

E incerteza costuma ativar circuitos relacionados à vigilância e à ansiedade.

Ou seja, biologicamente falando, escolhas causam medo. É inevitável, rs.

 

2. Mais opções nem sempre significa mais felicidade

Já ouviu falar sobre: paradoxo da escolha?

Quando temos poucas opções, escolhemos e seguimos em frente. Tipo quando seu parceiro ou sua parceira diminui as opções de hambúrguer para duas hamburguerias, agilizou absurdamente sua vida.

Quando temos muitas opções nosso cérebro começa a trabalhar com questões mais complexas do que apenas escolher e pronto, ele precisa analisar fatores como:

  • aumento do medo de errar;
  • arrependimento potencial – achei fantástico esse termo, porque quanto mais opções eu tenho, maior a impressão de que posso mais errar do que acertar. Psicologicamente péssimo;
  • aumenta a comparação entre alternativas.

 

O resultado pode ser justamente uma sensação de paralisia, travar frente tantas opções.

Pensando no self-service, normalmente é quando colocamos 5 tipos de mistura no prato, porque queria provar todas (mesmo sem a menor necessidade e, muitas vezes, sem nem fome para isso – vale olhar isso aqui: comer-com-os-olhos)

A liberdade absoluta pode se transformar em peso.

 

3. A responsabilidade assusta

Do ponto de vista psicológico, quando alguém está preso a uma regra rígida, uma tradição ou uma autoridade, parte da responsabilidade pela decisão pode ser atribuída a algo externo.

É o que comentei na live: quando minha rotina era definida pelos meus pais, com a escola ocupando parte do meu dia, refeições prontas e acontecendo sempre na mesma faixa de horário, dentre inúmeras outras coisas da rotina daquela época, meu cérebro não precisava se preocupar com inúmeras escolhas importantes do meu dia, podendo ser mais criativo, mais imaginativo – talvez até construindo uma ideia errônea de que liberdade em demasia é sempre maravilhoso.

Mas quando a pessoa é verdadeiramente livre, ela se torna autora das próprias escolhas, ou seja, aumenta drasticamente a responsabilidade pelos resultados que serão colhidos daquela escolha.

Senti uma pontada de ansiedade aqui, só de lembrar de todas as responsabilidades que tenho atualmente, rs.

A neurociência social mostra que regiões como o córtex pré-frontal medial estão envolvidas na autorreferência e na avaliação das consequências das próprias decisões. Que, coincidentemente, também é uma das regiões envolvida no controle das nossas emoções, um caminho que conhecemos com inteligência emocional.

Consegue entender melhor agora, como nossas emoções influenciam nas nossas escolhas?

 

4. Para o cérebro: segurança é mais importante que prazer

Uma descoberta importante das últimas décadas é que o sistema nervoso não trabalha prioritariamente para buscar felicidade, isso foi uma ideia maligna construída por nós mesmos.

O cérebro trabalha para garantir sobrevivência.

Por isso muitas pessoas permanecem:

  • em relacionamentos ruins;
  • em empregos insatisfatórios;
  • em hábitos prejudiciais.

 

Não porque gostem deles. Mas porque são locais seguros, mesmo que seja uma possível falsa segurança, como a Camila colocou muito bem na live.

O conhecido gera previsibilidade. O desconhecido gera ativação fisiológica, e, nesses casos, a ativação fisiológica é a famosa resposta do medo, base dos nossos anseios mais comuns.

Nesse sentido, a liberdade pode ser vivida como uma ameaça biológica antes de ser experimentada como uma oportunidade. Análise de risco!

 

5. O desenvolvimento humano exige tolerar a incerteza

Talvez a reflexão mais interessante seja:

A maturidade não consiste em eliminar o medo da liberdade. Ela consiste em desenvolver recursos para agir apesar dele.

Do ponto de vista neurobiológico, isso envolve o fortalecimento de circuitos relacionados à regulação emocional, especialmente as conexões entre regiões pré-frontais e estruturas límbicas como a amígdala.

Ou seja, não é que pessoas maduras sintam menos incerteza. É que elas desenvolveram ferramentas e conseguem sustentar a incerteza por mais tempo sem fugir dela.

E aqui, meu amigo, só a terapia e o autoconhecimento podem te ajudar!

terça-feira, 2 de junho de 2026

Perfeccionismo: Vontade excessiva de acertar ou medo de errar?

Boa noite, pessoal.

Nossa reflexão de hoje é sobre o perfeccionismo, mas muito se encaixa na procrastinação também, bora ver como a neurociência e a psicanálise enxergam o querer tudo perfeito?

Como o próprio título já instiga, o medo de errar, o medo de ser julgado, o medo de fazer algo e esse algo não dar certo, normalmente é a causa real por trás do tempo que perdemos para fazer o que amamos, para seguir nossa intuição, nossos sonhos.

Quando analisamos com mais calma os pacientes, os conhecidos, ou até nos mesmos, percebemos que, na maioria das vezes, o que chamamos de perfeccionismo, com a ideia de que precisa estar perfeito antes de ser mostrado, na verdade é só um mecanismo de defesa para nos defender do medo, medo da rejeição, medo do julgamento...

A neurociência vem mostrando, nas últimas décadas, que por trás do perfeccionismo, normalmente encontramos pessoas com:

- Maior sensibilidade à avaliação social.

- Hipervigilância para erros;

- Intolerância às incertezas.

E essas características te lembram o que?

Exatamente, sintomas e características comuns aos transtornos de ansiedade.

Olhando mais a neurobiologia por trás: amígdala hiperativa, reconhecendo quase todas as experiências como ameaças. Resultado? Modo de defesa constante, medo tomando conta em muitos aspectos.

E ai, enrolamos.

E o tempo vai passando...

Se enxergo tudo através de um cérebro em modo de defesa, as coisas acabam parecendo mais "perigosas" e desafiadoras do que realmente são. Ai, o medo acaba tomando conta, e eu prefiro não enviar o trabalho, não postar a matéria, não gravar um vídeo... É mais seguro esperar ficar perfeito do que errar.

Mas, sejamos sinceros agora:

- Perfeição não existe.

- Existirão pessoas prontas para julgar absolutamente tudo que você fizer. É impossível agradar a todos.

Então, neurocientificamente falando (rs), a melhor opção é ligar o famoso FODA-SE mais vezes, e fazer as coisas mesmo com medo.

Mas e para a psicanálise?

Como ela pode nos ajudar a entender o perfeccionismo?

Para olhar pelo ponto de vista psicanalítico, talvez duas frases nos ajudem no começo de uma reflexão mais profunda:

- Se ficar perfeito, ninguém me rejeitará.

- Se eu não errar, estarei seguro.

É como se o perfeccionismo fosse uma forma de encontrar e de conquistar aceitação, acolhimento, em alguns casos, até mesmo amor.

A possibilidade de errar gera medo pois a ideia oferece exatamente o contrário, não acolhimento, rejeição, julgamento... Melhor mostrar só quando estiver perfeito, evito todos esses pontos negativos.

Como a psicanálise exige sempre um olhar mais profundo, muitas vezes tudo isso começa a ser construído na infância, através das exigências familiares, das cobranças excessivas, de um ambiente onde o afeto parecia estar condicionado ao desempenho, ao acerto.

Se acerto, recebo afeto.

Se erro, encontro rejeição, desprezo, não sou acolhido.

Pronto, um monstro foi criado.

Nasce ai, um padrão que pode levar exatamente ao perfeccionismo, que pode levar à procrastinação excessiva na fase adulta. 

Como já refletimos em textos anteriores, as lentes que são colocadas pela infância, que alteram a forma como enxergamos e nos comportamos com o mundão, seguem nos influenciando drasticamente na vida adulta e em nossas escolhas.

Seja tudo isso consciente ou não.

Por hoje, temos pontos suficientes para reflexão.

Boas reflexões!

Saúde Mental #2 - rotina e saúde mental

Bom dia, pessoal!

A segunda matéria da série Saúde Mental tem uma intenção muito simples: esfregar na nossa cara que, a esmagadora maioria dos problemas de saúde que enfrentamos, principalmente no avançar das nossas décadas de idade, são culpa nossa!

Mas vamos por partes, para que você entenda algo que falo em sala de aula: normalmente, os hábitos pesam mais que a genética para o desenvolvimento de problemas relacionados à saúde, seja física ou mental!

A figura que eu mais gosto sobre o assunto, usei para falar de epigenética uma vez aqui no blog:

A genética tem sim, muita influência em todos os aspectos da nossa vida: altura, cor da pele, cabelo e olhos, tamanho e funcionamento dos órgãos, inclusive do cérebro e suas habilidades cognitivas fantásticas. A genética garante que cada um de nós seja um ser completamente único no mundo, pois mesmo entre irmãos, a genética e os resultados no desenvolvimento são imensamente diferentes.

Mas ai surge a primeira grande questão: e os gêmeos idênticos (monozigóticos para os mais científicos)? A genética é 100% igual, por que acabam crescendo e se desenvolvendo com personalidades e particularidades tão diferentes? 

Ambiente, escolhas, hábitos!

Essa combinação é o grande X da questão da nossa reflexão de hoje.

Hoje conseguimos fazer um exame genético e descobrir se possuímos algum gene ou alguns genes diretamente relacionados com doenças, como o Alzheimer e problemas cardiovasculares, por exemplo. 

Casos famosos como o da Angelina (que fez uma mastectomia completa por descobrir sua enorme predisposição a um tipo grave de câncer de mama) ou o caso mais recente do Crhis, mais conhecido como Thor no Universo da Marvel, que fez uma mudança radical de hábitos e escolhas após descobrir uma predisposição grande para o desenvolvimento de Alzheimer. 

Porém, a maioria dos casos, a genética mais mostra o que pode acontecer se você não se cuidar, do que te sentencia a o problema. E isso também inclui os transtornos mentais tão em alta atualmente.


Já está muito claro na ciência que: sedentarismo, alimentação dominada por ultraprocessados, sono de baixa qualidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, dentre inúmeras outros hábitos que construímos, no longo prazo, vai nos trazer problemas seríssimos de saúde, como aterosclerose, infartos e AVCs; 

Porém, olhando o caso de quem vos escreve: lado materno, genética carregada de transtornos psicológicos e doenças neurodegenerativas. Lado paterno, saúde cardiovascular totalmente debilitada. Ou seja, eu sou uma bomba relógio. 

Mas será mesmo?

Pode ser que eu tenha algum desses problemas fazendo absolutamente tudo certinho de acordo com a ciência moderna, mas o mais provável é que não.

Se eu mantiver hábitos saudáveis, como uma rotina de musculação (está ok), exercícios aeróbicos (precisa melhorar muito), alimentação balanceada (comer bem a maior parte do tempo, preocupando inclusive com a saúde gastrointestinal, mas sem abrir mão de um bom hambúrguer com maionese verde de vez em quando) e dormir bem todas as noites (ta quase acontecendo), as chances de desenvolver um desses problemas diminui drasticamente.

E pensa da seguinte maneira: mesmo que eu tenha algum deles no futuro, os bons hábitos podem jogar o início dos problemas bem para o futuro. Se for para desenvolver Alzheimer, por exemplo, que os sintomas apareçam ou se agravem lá pelos 70-80 anos, e não nos 50-60.

Os bons hábitos não nos blindam dos problemas, eles nos dão mais tempo de qualidade para viver nossas vidas.

Isso NÃO TEM PREÇO, até porque, mesmo que você tenha MUITO dinheiro, ele não compra tempo e saúde perdidos.

Se tudo isso não bastasse para você refletir sobre seus hábitos, já está bem claro na ciência que exercício físico de rotina auxilia e muito no tratamento de transtornos de ansiedade e no transtorno depressivo maior. 

Melhor ainda: está claro que uma rotina de exercícios é um fator indispensável e crucial na melhoria desses transtornos que judiam tanto da nossa mente.

Tudo isso ainda nos trás mais fortemente ao momento presente, diminuindo o triste tempo que vivemos no automático, só existindo. 

Porque nos trás para o presente? Já tentou correr distraído? Sem prestar atenção por onde está andando? Vai dar merda. Esses dias, distraído com a música no fone, eu torci o pé andando! ANDANDO!

Viver no automático custa caro, inclusive fisicamente.

Bons hábitos não vão fazer você viver para sempre, mas podem te permitir a viver todo o seu tempo, ou pelo menos a maior parte dele, com qualidade e autonomia. E no fim, é sobre isso. 

A vida adulta já é difícil, para que complicar mais criando problemas crônicos de saúde? Come, treina e dorme direito, te garanto que vai sobrar tempo para todo o restante!

Seguimos em busca de cérebros mais saudáveis!

Boas reflexões e ótimo Junho para todos nós!