terça-feira, 2 de junho de 2026

Perfeccionismo: Vontade excessiva de acertar ou medo de errar?

Boa noite, pessoal.

Nossa reflexão de hoje é sobre o perfeccionismo, mas muito se encaixa na procrastinação também, bora ver como a neurociência e a psicanálise enxergam o querer tudo perfeito?

Como o próprio título já instiga, o medo de errar, o medo de ser julgado, o medo de fazer algo e esse algo não dar certo, normalmente é a causa real por trás do tempo que perdemos para fazer o que amamos, para seguir nossa intuição, nossos sonhos.

Quando analisamos com mais calma os pacientes, os conhecidos, ou até nos mesmos, percebemos que, na maioria das vezes, o que chamamos de perfeccionismo, com a ideia de que precisa estar perfeito antes de ser mostrado, na verdade é só um mecanismo de defesa para nos defender do medo, medo da rejeição, medo do julgamento...

A neurociência vem mostrando, nas últimas décadas, que por trás do perfeccionismo, normalmente encontramos pessoas com:

- Maior sensibilidade à avaliação social.

- Hipervigilância para erros;

- Intolerância às incertezas.

E essas características te lembram o que?

Exatamente, sintomas e características comuns aos transtornos de ansiedade.

Olhando mais a neurobiologia por trás: amígdala hiperativa, reconhecendo quase todas as experiências como ameaças. Resultado? Modo de defesa constante, medo tomando conta em muitos aspectos.

E ai, enrolamos.

E o tempo vai passando...

Se enxergo tudo através de um cérebro em modo de defesa, as coisas acabam parecendo mais "perigosas" e desafiadoras do que realmente são. Ai, o medo acaba tomando conta, e eu prefiro não enviar o trabalho, não postar a matéria, não gravar um vídeo... É mais seguro esperar ficar perfeito do que errar.

Mas, sejamos sinceros agora:

- Perfeição não existe.

- Existirão pessoas prontas para julgar absolutamente tudo que você fizer. É impossível agradar a todos.

Então, neurocientificamente falando (rs), a melhor opção é ligar o famoso FODA-SE mais vezes, e fazer as coisas mesmo com medo.

Mas e para a psicanálise?

Como ela pode nos ajudar a entender o perfeccionismo?

Para olhar pelo ponto de vista psicanalítico, talvez duas frases nos ajudem no começo de uma reflexão mais profunda:

- Se ficar perfeito, ninguém me rejeitará.

- Se eu não errar, estarei seguro.

É como se o perfeccionismo fosse uma forma de encontrar e de conquistar aceitação, acolhimento, em alguns casos, até mesmo amor.

A possibilidade de errar gera medo pois a ideia oferece exatamente o contrário, não acolhimento, rejeição, julgamento... Melhor mostrar só quando estiver perfeito, evito todos esses pontos negativos.

Como a psicanálise exige sempre um olhar mais profundo, muitas vezes tudo isso começa a ser construído na infância, através das exigências familiares, das cobranças excessivas, de um ambiente onde o afeto parecia estar condicionado ao desempenho, ao acerto.

Se acerto, recebo afeto.

Se erro, encontro rejeição, desprezo, não sou acolhido.

Pronto, um monstro foi criado.

Nasce ai, um padrão que pode levar exatamente ao perfeccionismo, que pode levar à procrastinação excessiva na fase adulta. 

Como já refletimos em textos anteriores, as lentes que são colocadas pela infância, que alteram a forma como enxergamos e nos comportamos com o mundão, seguem nos influenciando drasticamente na vida adulta e em nossas escolhas.

Seja tudo isso consciente ou não.

Por hoje, temos pontos suficientes para reflexão.

Boas reflexões!

Saúde Mental #2 - rotina e saúde mental

Bom dia, pessoal!

A segunda matéria da série Saúde Mental tem uma intenção muito simples: esfregar na nossa cara que, a esmagadora maioria dos problemas de saúde que enfrentamos, principalmente no avançar das nossas décadas de idade, são culpa nossa!

Mas vamos por partes, para que você entenda algo que falo em sala de aula: normalmente, os hábitos pesam mais que a genética para o desenvolvimento de problemas relacionados à saúde, seja física ou mental!

A figura que eu mais gosto sobre o assunto, usei para falar de epigenética uma vez aqui no blog:

A genética tem sim, muita influência em todos os aspectos da nossa vida: altura, cor da pele, cabelo e olhos, tamanho e funcionamento dos órgãos, inclusive do cérebro e suas habilidades cognitivas fantásticas. A genética garante que cada um de nós seja um ser completamente único no mundo, pois mesmo entre irmãos, a genética e os resultados no desenvolvimento são imensamente diferentes.

Mas ai surge a primeira grande questão: e os gêmeos idênticos (monozigóticos para os mais científicos)? A genética é 100% igual, por que acabam crescendo e se desenvolvendo com personalidades e particularidades tão diferentes? 

Ambiente, escolhas, hábitos!

Essa combinação é o grande X da questão da nossa reflexão de hoje.

Hoje conseguimos fazer um exame genético e descobrir se possuímos algum gene ou alguns genes diretamente relacionados com doenças, como o Alzheimer e problemas cardiovasculares, por exemplo. 

Casos famosos como o da Angelina (que fez uma mastectomia completa por descobrir sua enorme predisposição a um tipo grave de câncer de mama) ou o caso mais recente do Crhis, mais conhecido como Thor no Universo da Marvel, que fez uma mudança radical de hábitos e escolhas após descobrir uma predisposição grande para o desenvolvimento de Alzheimer. 

Porém, a maioria dos casos, a genética mais mostra o que pode acontecer se você não se cuidar, do que te sentencia a o problema. E isso também inclui os transtornos mentais tão em alta atualmente.


Já está muito claro na ciência que: sedentarismo, alimentação dominada por ultraprocessados, sono de baixa qualidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, dentre inúmeras outros hábitos que construímos, no longo prazo, vai nos trazer problemas seríssimos de saúde, como aterosclerose, infartos e AVCs; 

Porém, olhando o caso de quem vos escreve: lado materno, genética carregada de transtornos psicológicos e doenças neurodegenerativas. Lado paterno, saúde cardiovascular totalmente debilitada. Ou seja, eu sou uma bomba relógio. 

Mas será mesmo?

Pode ser que eu tenha algum desses problemas fazendo absolutamente tudo certinho de acordo com a ciência moderna, mas o mais provável é que não.

Se eu mantiver hábitos saudáveis, como uma rotina de musculação (está ok), exercícios aeróbicos (precisa melhorar muito), alimentação balanceada (comer bem a maior parte do tempo, preocupando inclusive com a saúde gastrointestinal, mas sem abrir mão de um bom hambúrguer com maionese verde de vez em quando) e dormir bem todas as noites (ta quase acontecendo), as chances de desenvolver um desses problemas diminui drasticamente.

E pensa da seguinte maneira: mesmo que eu tenha algum deles no futuro, os bons hábitos podem jogar o início dos problemas bem para o futuro. Se for para desenvolver Alzheimer, por exemplo, que os sintomas apareçam ou se agravem lá pelos 70-80 anos, e não nos 50-60.

Os bons hábitos não nos blindam dos problemas, eles nos dão mais tempo de qualidade para viver nossas vidas.

Isso NÃO TEM PREÇO, até porque, mesmo que você tenha MUITO dinheiro, ele não compra tempo e saúde perdidos.

Se tudo isso não bastasse para você refletir sobre seus hábitos, já está bem claro na ciência que exercício físico de rotina auxilia e muito no tratamento de transtornos de ansiedade e no transtorno depressivo maior. 

Melhor ainda: está claro que uma rotina de exercícios é um fator indispensável e crucial na melhoria desses transtornos que judiam tanto da nossa mente.

Tudo isso ainda nos trás mais fortemente ao momento presente, diminuindo o triste tempo que vivemos no automático, só existindo. 

Porque nos trás para o presente? Já tentou correr distraído? Sem prestar atenção por onde está andando? Vai dar merda. Esses dias, distraído com a música no fone, eu torci o pé andando! ANDANDO!

Viver no automático custa caro, inclusive fisicamente.

Bons hábitos não vão fazer você viver para sempre, mas podem te permitir a viver todo o seu tempo, ou pelo menos a maior parte dele, com qualidade e autonomia. E no fim, é sobre isso. 

A vida adulta já é difícil, para que complicar mais criando problemas crônicos de saúde? Come, treina e dorme direito, te garanto que vai sobrar tempo para todo o restante!

Seguimos em busca de cérebros mais saudáveis!

Boas reflexões e ótimo Junho para todos nós!

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O papel do inconsciente em nossas escolhas

Você realmente toma suas próprias decisões?

Suas escolhas são conscientes?

Olha isso:

Antes de tomarmos uma decisão, nosso cérebro já foi inundado por memórias, emoções e padrões construídos ao longo da vida. Tudo em frações de um segundo.

Muitas vezes acreditamos estar escolhendo racionalmente, mas parte das nossas decisões nasce de processos inconscientes ligados às experiências que vivemos, principalmente aquelas carregadas de emoção.

Ou seja, as experiências com maior carga emocional que vivemos, são as que mais influenciam na construção do que somos e, consequentemente, das nossas escolhas no dia a dia, mesmo nas mais simples e inofensivas.

A neurociência mostra que memórias emocionais podem influenciar nossas reações de forma automática, ativando respostas aprendidas muito antes da consciência elaborar aquilo que está acontecendo.

Te lembra algo como um padrão?

A psicanálise, por sua vez, busca compreender o significado desses padrões: por que repetimos certos comportamentos, insistimos nos mesmos vínculos ou reagimos sempre da mesma maneira diante de determinadas situações? Mesmo quando, já conscientes dos prováveis resultados de uma escolha, nós ainda sim seguimos o padrão e repetimos um ciclo negativo?

Falando assim, conseguimos visualizar um pouco melhor o tamanho do inconsciente em meio à nossa rotina de vida.

Podemos olhar da seguinte maneira, também:

Nem toda escolha vem apenas da análise do presente, da experiência vivenciada naquele exato momento da tomada de decisão.

Algumas são atravessadas por marcas antigas que continuam atuando silenciosamente dentro de nós. Já ouviu aquela história de que cada experiência marcante coloca uma lente em frente aos nossos olhos? E que, dali em diante, passamos a enxergar o mundo através daquela lente?

O autoconhecimento começa quando deixamos de apenas reagir automaticamente e passamos a compreender aquilo que nos move emocionalmente. Identificar os padrões, principalmente os tóxicos, é um passo crucial para bons resultados dentro da clínica psicanalítica.

A partir daí, mudanças reais se tornam possíveis.

Como já vimos em diversos momentos aqui no Plantando Ciência, a plasticidade neural, através de um bom esquema terapêutico e de uma organização de sentimentos e emoções em fala, permite separa o trauma da dor, uma vez que as memórias não podem simplesmente ser apagadas do nosso cérebro.

Porém, quanto mais estudo sobre o tema dentro da pscinálise, mais observo que a ressignificação do trauma é apenas o primeiro passo de um real processo de cura. E sabe o porquê?

Porque o trauma, e as memórias de imensa carga emocional, que nos faz sentir muitas coisas, são registrados nos mínimos detalhes nas nossas memórias (mecanismo de sobrevivência, quanto mais informações tenho sobre aquele episódio, menores as chances de se repetir), podem ser ressignificadas, mas, existem padrões e comportamentos que foram construídos a partir daquele episódio, e para se curar, talvez a pessoa precise reconstruir os hábitos e comportamentos construídos.

Uma coisa muito comum na clínica: paciente com trauma na infância, ressignifica o trauma se livrando da dor que sentia ao relembrar algo relacionado ao episódio. Porém, a desconfiança nos relacionamentos, os padrões de amizades, os comportamentos e hábitos, que muitos foram moldados a partir das lentes do trauma, não se desfazem. O paciente não sente mais dor com a lembrança do episódio, mas continua utilizando as mesmas válvulas de escape, como o abuso de substâncias, pois os padrões tendem a se repetir sozinhos, quando não analisados.

Como citei na matéria onde conversamos a respeito pela primeira vez, o buraco é bem mais embaixo. E o processo terapêutico, principalmente o desenvolvimento do autoconhecimento, é um trabalho contínuo na vida de todos nós!

Assim, buscamos e melhoramos nossa saúde mental diariamente.

domingo, 24 de maio de 2026

Álcool e ansiolíticos - por que ambos diminuem a ansiedade?

Boa noite, pessoal!

Um assunto polêmico e muito bom para ser trabalhado nas aulas com as turmas de psicologia, é como o álcool age em nosso cérebro, e porque muitas pessoas com transtornos de ansiedade tendem a abusar de álcool.

O etanol, álcool da nossa cervejinha e de todas as bebidas alcoólicas, age no mesmo recepetor que os ansiolíticos. Nos receptores do neurotransmissor que diminui a atividade do nosso cérebro, que funciona como depressor do sistema nervoso central, o GABA!

Assim, encontramos alívio no álcool, mas isso jamais vai servir como um tratamento. Pelo contrário, vários outros problemas, inclusive doenças, podem ser construídos com seu abuso.

Dá uma conferida no short que publiquei hoje lá no canal do youtube:


Tecido nervoso - atualizações incríveis

Boa noite, pessoal!

Amanhã, darei início à série de aulas no yuoutube, que apelidei carinhosamente de manual de instruções do cérebro.

Uma viagem leve e informativa pelo mundo da neurociência básica, uma forma inovadora de aprender sobre o cérebro humano, desde o tecido nervoso até as funções mais incríveus.

E, para começar, quais células formam o nosso cérebro e nosso sistema nervoso?


A resposta é bem simples!

O cérebro é formado pelos neurônios e pelas células da glia, das quais focamos nossa discussão em três: astrócitos, oligodendrócitos e células de schwan.

Descrições e as funções básicas você encontra nos três materiais que já existem aqui no blog, são eles:

https://plantandociencia.blogspot.com/2020/09/tecido-nervoso-i.html

https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/tecido-nervoso-2-celulas-da-glia-e.html

https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/tecido-nervoso-neuroanatomia.html


Mas, muito se avançou em conhecimento neurocientífico nos últimos anos, e as células da glia deixaram de ser vistas como coadjuvantes trabalhando para os neuônios.

Agora, podemos enxergar o tecido nervoso como um ecossistema de células que trabalham e se organizam em conjunto, permitindo que nosso cérebro faça todas as mágicas que gostamos tanto.

Os astrócitos, por exemplo, deixaram de ser exclusivos da barreira hematoencefálica (função essencial para a saúde do nosso sistema nervoso), e hoje também está diretamente relacionado com as sinapses químicas, inclusive no controle de alguns neurotransmissores na fenda sináptica, como o glutamato.

Inclusive, astrócitos, micróglias e os oligodendrócitos estão diretamente relacionados à plasticidade neural. Base do nosso aprendizado (formação de memórias) e da reorganização do nosso cérebro após uma lesão, por exemplo.

Na verdade, hoje podemos estudar as células da glia através de três grandes vertentes de funções:

- Modulação da atividade neural

- Plasticidade e aprendizado

- Neuroimunologia e neuroinflamação.

Oligodendrócitos agora também participam da remodelação da bainha de mielina ao longo de nossas vidas, sendo influenciado pela atividade neuronal e guiando parte da plasticidade neural. Passou de produtor da bainha de mielina (o que continua fazendo muito bem, rs) para um elemento crucial na modulação dos circuitos neurais.

As micróglias, que já tinham um papel diretamente relacionado à defesa e a manutenção da "paz" no sistema nervoso, agora tem uma relação muito interessante (e crucial) para o desenvolvimento do cérebro humano, através da poda sináptica!

Ou seja, as células da glia, conforme mais entendemos sobre a biologia do nosso cérebro, mais se mostram essenciais para o bom funcionamento do nosso sistema nervoso e cada vez menos como meras coadjuvantes.

Viva a ciência!

Para aprofundar mais, recomendo 5 artigos científicos:

Astrócitos e plasticidade neural:

“The role of astrocytes from synaptic to non-synaptic plasticity” — Frontiers in Cellular Neuroscience (2024)

Astrócitos no neurodesenvolvimento:

“Brain stars take the lead during critical periods of early postnatal brain development” — Molecular Psychiatry (2024).

Oligodendrócitos e mielina:

“Dynamics of mature myelin” — Nature Neuroscience (2024).

Novas funções gliais:

“Glial modulation of synapse development and plasticity: oligodendrocyte precursor cells as a new player in the synaptic quintet” — Frontiers in Cell and Developmental Biology (2024).

Sobre micróglia e neuroinflamação:

“Taming microglia: the promise of engineered microglia in treating neurological diseases” — Journal of Neuroinflammation (2024). 

Bons estudos!

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Escola de Neurociência Aplicada à Clínica

Bom dia, pessoal!

Estão preparados?

Em comemoração a 10 anos de história do Plantando Ciência, logo estarão disponíveis as inscrições para a Escola de Neurociência Aplicada à Clínica.

Uma plataforma com três disciplinas para construir todo o conhecimento básico sobre o cérebro e o comportamento humano, como podemos utilizar esses conhecimentos na clínica e uma gigantesca quantidade de materiais escritos, apostilas e vídeo-aulas, além de aulas semanais, ao vivo, e várias outras novidades.

Olha a imagem de capa, como está bonita:


Em breve, novidades sobre o acesso!