Olá pessoal, boa tarde.
Hoje vamos fazer uma
reflexão dentro da Farmacologia: Uso de placebos e eficácia.
Vamos começar com uma
frase essa reflexão:
"Quanto da melhora
observada pode ser atribuída ao medicamento, além do que aconteceria sem o
princípio ativo?"
E aqui gostaria de lembrar
um ponto importante: placebo não é sinônimo de "não fazer nada".
Mas como não, Bruno?
Se ele não tem princípio ativo.
Porque a resposta
observada no grupo placebo pode envolver expectativa, condicionamento, contato
com o profissional, evolução natural da doença e outros componentes. Ou seja, pode
ter efeito sim (obviamente, não para todos os casos e patologias).
O estudo clínico, que a
empresa farmacêutica precisa realizar antes de ter as devidas autorizações para
vender seu medicamento em drogarias tenta justamente separar esses efeitos do
efeito específico do fármaco.
E podemos confiar nos
resultados disponibilizados pela própria empresa do fármaco? Sim, mas embasamento
científico externo e, de preferência, de anos de duração, mitigam quaisquer
riscos desnecessários relacionados a apenas acreditar. Diria que seguindo uma
regrinha básica, conseguimos resultados cientificamente mais atraentes para
essa análise:
Estudo da indústria ≠
estudo inválido. Porém, estudo da indústria também não deve ser nossa única
fonte de evidência. O ideal seria cruzar: estudos clínicos
originais + revisões sistemáticas/meta-análises + documentos regulatórios +
bula.
Para medicamentos
antigos, como paracetamol e loratadina, isso é particularmente importante,
porque os estudos que estabeleceram sua eficácia ocorreram décadas atrás. E
muita coisa mudou desde então na indústria farmacêutica e em nossos
conhecimentos a respeito dessas substâncias e a interação com o organismo
humano.
Para rastrear a história
regulatória, o FDA disponibiliza bases como o Orange Book e o
repositório de informações de medicamentos aprovados. Para os mais curioso,
vale a pena dar uma olhada.
Mas, vamos ver como medicamentos clássicos, que fazem parte do nosso dia a dia, se saíram contra os placebos?
Uma figura que pode resumir nossa discussão:
PARACETAMOL
O mecanismo exato do
paracetamol ainda não é completamente estabelecido, acredita?
Ele exerce efeito analgésico e antipirético
predominantemente central, mas não apresenta o mesmo perfil
anti-inflamatório periférico dos AINEs clássicos.
Ou seja, cumpre o papel,
mas para tratamentos mais localizados ao longo do organismo, a opção do anti-inflamatório
clássico tende a apresentar melhores resultados.
Existem várias hipóteses
envolvendo a modulação das vias centrais relacionadas às prostaglandinas e à
percepção da dor.
Paracetamol → ação
predominantemente central → redução da percepção da dor + redução da febre.
E o placebo?
Um estudo publicado em 1980 comparou:
- paracetamol
1 g;
- dipirona
1 g;
- placebo
em 264 pacientes com
dor pós cirúrgica. O resultado foi bastante didático: Tanto paracetamol
quanto dipirona foram superiores ao placebo.
Além disso, a dipirona
apresentou maior eficácia que o paracetamol, especialmente nos pacientes com
dor inicial mais intensa. Outro estudo de 1980 fez algo ainda mais
interessante: cada paciente serviu como seu próprio controle em um
desenho crossover após cirurgia oral.
O paracetamol foi
comparado com placebo e produziu menor dor e menor edema pós-operatório.
Um dado interessante:
Paracetamol 1 g × Placebo
Dor pós-operatória: Paracetamol → melhora
significativa
Placebo → também houve melhora, porém, Paracetamol
> Placebo
O que nos leva a concluir:
Efeito específico do medicamento ≠ melhora
observada no paciente.
E há outro estudo
bastante didático: em pacientes com enxaqueca, a resposta em 2 horas foi 57,8%
com acetaminofeno versus 38,7% com placebo; a taxa de ausência de dor foi
22,4% versus 11,3%, respectivamente.
Ou seja:
Placebo não significa "zero
resposta".
Olha a diferença quando analisamos os dados da
comparação entre a loratadina, que tem um efeito mais sistêmico de ação:
LORATADINA
Aqui temos outro exemplo
clássico, mas agora com uma condição completamente diferente (e que apresenta
valores quando comparados ao placebo, muito diferentes do exemplo anterior também).
A loratadina é um antagonista
dos receptores H1 periféricos da histamina, sendo classificada como
anti-histamínico de segunda geração.
Vamos relembrar:
Alérgeno → mastócito →
histamina → H1 → sintomas
A loratadina: bloqueia
a sinalização H1 → reduz sintomas da resposta alérgica.
Por
isso é utilizada em condições como: rinite alérgica, urticária, entre diversas
outras.
Um estudo multicêntrico publicado em 1988
comparou:
- loratadina
10 mg/dia;
- terfenadina;
- placebo.
Foram inicialmente incluídos 275 pacientes com
rinite alérgica sazonal. A avaliação ocorreu durante 14 dias. E o resultado
foi bastante claro:
loratadina e terfenadina foram
significativamente superiores ao placebo.
Na avaliação final: boa/excelente resposta
terapêutica
- Loratadina:
67%
- Terfenadina:
65%
- Placebo:
16%
Além disso, os escores
médios dos sintomas melhoraram 56% com loratadina, enquanto no grupo
placebo houve piora de 5%.
Pessoal, outra reflexão
valiosíssima aqui: alergias e alguns outros casos agudos merecem atenção especial
pois podem levar a pessoa à morte. Atendimento médico e medicamentos
comprovadamente eficazes devem SEMPRE ser a primeira escolha.
Assim, podemos concluir:
"O medicamento
funciona... mas quanto?"
Depois desses dois
exemplos, qual a sua conclusão? O placebo funciona?
Mas, cientificamente falando,
essa não é a pergunta mais interessante.
A pergunta científica é: "Quanto
da resposta observada no grupo que recebeu o medicamento excede a resposta
observada no grupo controle?"
"Se um paciente toma
uma terapia alternativa e melhora, como saberemos quanto dessa melhora veio da
terapia propriamente dita?"
Ensaio clínico
randomizado → grupo controle → placebo → cegamento → análise estatística.
Aí a discussão deixa de
ser "terapias alternativas funcionam ou não?" e passa a ser "como
podemos saber se funcionam e também, como funcionam?"
Para fecharmos nossa discussão:
O efeito placebo tende a
ser mais expressivo quando o desfecho depende, em maior grau, da experiência
subjetiva do indivíduo.
Escalas de dor são uma
forma excelente de pensarmos sobre o assunto. Será que a minha dor de nível 5,
dói igual a sua dor de nível 5? Se considerarmos a história da pessoa e o fato
de que sentir dor é algo completamente diferente de experienciar a dor, ou
seja, comparar a minha dor 10 com a sua dor 2 seria injusto com nós dois.
Injusto porque nós
sentimos essas dores de formas completamente distintas, somadas às nossas histórias
e experiências, fica claro o quão subjetiva é a experiência da dor? A dor é uma
experiência real, mas sua intensidade é modulada por expectativa, atenção,
aprendizagem, emoção e contexto. Revisões mostram que os efeitos placebo estão
entre os mais fortes justamente nos estudos de dor, e que expectativas
conseguem modular circuitos neurais relacionados ao processamento da dor.
"Talvez a pergunta
não seja se o placebo funciona. A pergunta é: em quais condições, para quais
desfechos e por quais mecanismos o contexto terapêutico consegue modificar a
experiência do paciente?"
Isso muda completamente a
discussão.
"Se o contexto
terapêutico pode modificar a percepção de dor, ansiedade, náusea, estresse ou
bem-estar, quanto dos efeitos atribuídos às terapias integrativas pode estar
relacionado ao efeito específico da intervenção e quanto pode estar relacionado
ao contexto terapêutico?"
Além de utilizar alguma
técnica ou não, como utilizar? Quando utilizar?
Sabe o que essa reflexão realmente pode mudar? A forma como você atende e
melhora a queixa do seu paciente, e como seu consultório pode pular de apenas
um consultório para um consultório referência no mercado. Fazer o bem e ganhar
dinheiro, acredito que ninguém tenha algo contra, rs.
Boas reflexões meu povo!

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