segunda-feira, 25 de maio de 2026

O papel do inconsciente em nossas escolhas

Você realmente toma suas próprias decisões?

Suas escolhas são conscientes?

Olha isso:

Antes de tomarmos uma decisão, nosso cérebro já foi inundado por memórias, emoções e padrões construídos ao longo da vida. Tudo em frações de um segundo.

Muitas vezes acreditamos estar escolhendo racionalmente, mas parte das nossas decisões nasce de processos inconscientes ligados às experiências que vivemos, principalmente aquelas carregadas de emoção.

Ou seja, as experiências com maior carga emocional que vivemos, são as que mais influenciam na construção do que somos e, consequentemente, das nossas escolhas no dia a dia, mesmo nas mais simples e inofensivas.

A neurociência mostra que memórias emocionais podem influenciar nossas reações de forma automática, ativando respostas aprendidas muito antes da consciência elaborar aquilo que está acontecendo.

Te lembra algo como um padrão?

A psicanálise, por sua vez, busca compreender o significado desses padrões: por que repetimos certos comportamentos, insistimos nos mesmos vínculos ou reagimos sempre da mesma maneira diante de determinadas situações? Mesmo quando, já conscientes dos prováveis resultados de uma escolha, nós ainda sim seguimos o padrão e repetimos um ciclo negativo?

Falando assim, conseguimos visualizar um pouco melhor o tamanho do inconsciente em meio à nossa rotina de vida.

Podemos olhar da seguinte maneira, também:

Nem toda escolha vem apenas da análise do presente, da experiência vivenciada naquele exato momento da tomada de decisão.

Algumas são atravessadas por marcas antigas que continuam atuando silenciosamente dentro de nós. Já ouviu aquela história de que cada experiência marcante coloca uma lente em frente aos nossos olhos? E que, dali em diante, passamos a enxergar o mundo através daquela lente?

O autoconhecimento começa quando deixamos de apenas reagir automaticamente e passamos a compreender aquilo que nos move emocionalmente. Identificar os padrões, principalmente os tóxicos, é um passo crucial para bons resultados dentro da clínica psicanalítica.

A partir daí, mudanças reais se tornam possíveis.

Como já vimos em diversos momentos aqui no Plantando Ciência, a plasticidade neural, através de um bom esquema terapêutico e de uma organização de sentimentos e emoções em fala, permite separa o trauma da dor, uma vez que as memórias não podem simplesmente ser apagadas do nosso cérebro.

Porém, quanto mais estudo sobre o tema dentro da pscinálise, mais observo que a ressignificação do trauma é apenas o primeiro passo de um real processo de cura. E sabe o porquê?

Porque o trauma, e as memórias de imensa carga emocional, que nos faz sentir muitas coisas, são registrados nos mínimos detalhes nas nossas memórias (mecanismo de sobrevivência, quanto mais informações tenho sobre aquele episódio, menores as chances de se repetir), podem ser ressignificadas, mas, existem padrões e comportamentos que foram construídos a partir daquele episódio, e para se curar, talvez a pessoa precise reconstruir os hábitos e comportamentos construídos.

Uma coisa muito comum na clínica: paciente com trauma na infância, ressignifica o trauma se livrando da dor que sentia ao relembrar algo relacionado ao episódio. Porém, a desconfiança nos relacionamentos, os padrões de amizades, os comportamentos e hábitos, que muitos foram moldados a partir das lentes do trauma, não se desfazem. O paciente não sente mais dor com a lembrança do episódio, mas continua utilizando as mesmas válvulas de escape, como o abuso de substâncias, pois os padrões tendem a se repetir sozinhos, quando não analisados.

Como citei na matéria onde conversamos a respeito pela primeira vez, o buraco é bem mais embaixo. E o processo terapêutico, principalmente o desenvolvimento do autoconhecimento, é um trabalho contínuo na vida de todos nós!

Assim, buscamos e melhoramos nossa saúde mental diariamente.

domingo, 24 de maio de 2026

Álcool e ansiolíticos - por que ambos diminuem a ansiedade?

Boa noite, pessoal!

Um assunto polêmico e muito bom para ser trabalhado nas aulas com as turmas de psicologia, é como o álcool age em nosso cérebro, e porque muitas pessoas com transtornos de ansiedade tendem a abusar de álcool.

O etanol, álcool da nossa cervejinha e de todas as bebidas alcoólicas, age no mesmo recepetor que os ansiolíticos. Nos receptores do neurotransmissor que diminui a atividade do nosso cérebro, que funciona como depressor do sistema nervoso central, o GABA!

Assim, encontramos alívio no álcool, mas isso jamais vai servir como um tratamento. Pelo contrário, vários outros problemas, inclusive doenças, podem ser construídos com seu abuso.

Dá uma conferida no short que publiquei hoje lá no canal do youtube:


Tecido nervoso - atualizações incríveis

Boa noite, pessoal!

Amanhã, darei início à série de aulas no yuoutube, que apelidei carinhosamente de manual de instruções do cérebro.

Uma viagem leve e informativa pelo mundo da neurociência básica, uma forma inovadora de aprender sobre o cérebro humano, desde o tecido nervoso até as funções mais incríveus.

E, para começar, quais células formam o nosso cérebro e nosso sistema nervoso?


A resposta é bem simples!

O cérebro é formado pelos neurônios e pelas células da glia, das quais focamos nossa discussão em três: astrócitos, oligodendrócitos e células de schwan.

Descrições e as funções básicas você encontra nos três materiais que já existem aqui no blog, são eles:

https://plantandociencia.blogspot.com/2020/09/tecido-nervoso-i.html

https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/tecido-nervoso-2-celulas-da-glia-e.html

https://plantandociencia.blogspot.com/2021/03/tecido-nervoso-neuroanatomia.html


Mas, muito se avançou em conhecimento neurocientífico nos últimos anos, e as células da glia deixaram de ser vistas como coadjuvantes trabalhando para os neuônios.

Agora, podemos enxergar o tecido nervoso como um ecossistema de células que trabalham e se organizam em conjunto, permitindo que nosso cérebro faça todas as mágicas que gostamos tanto.

Os astrócitos, por exemplo, deixaram de ser exclusivos da barreira hematoencefálica (função essencial para a saúde do nosso sistema nervoso), e hoje também está diretamente relacionado com as sinapses químicas, inclusive no controle de alguns neurotransmissores na fenda sináptica, como o glutamato.

Inclusive, astrócitos, micróglias e os oligodendrócitos estão diretamente relacionados à plasticidade neural. Base do nosso aprendizado (formação de memórias) e da reorganização do nosso cérebro após uma lesão, por exemplo.

Na verdade, hoje podemos estudar as células da glia através de três grandes vertentes de funções:

- Modulação da atividade neural

- Plasticidade e aprendizado

- Neuroimunologia e neuroinflamação.

Oligodendrócitos agora também participam da remodelação da bainha de mielina ao longo de nossas vidas, sendo influenciado pela atividade neuronal e guiando parte da plasticidade neural. Passou de produtor da bainha de mielina (o que continua fazendo muito bem, rs) para um elemento crucial na modulação dos circuitos neurais.

As micróglias, que já tinham um papel diretamente relacionado à defesa e a manutenção da "paz" no sistema nervoso, agora tem uma relação muito interessante (e crucial) para o desenvolvimento do cérebro humano, através da poda sináptica!

Ou seja, as células da glia, conforme mais entendemos sobre a biologia do nosso cérebro, mais se mostram essenciais para o bom funcionamento do nosso sistema nervoso e cada vez menos como meras coadjuvantes.

Viva a ciência!

Para aprofundar mais, recomendo 5 artigos científicos:

Astrócitos e plasticidade neural:

“The role of astrocytes from synaptic to non-synaptic plasticity” — Frontiers in Cellular Neuroscience (2024)

Astrócitos no neurodesenvolvimento:

“Brain stars take the lead during critical periods of early postnatal brain development” — Molecular Psychiatry (2024).

Oligodendrócitos e mielina:

“Dynamics of mature myelin” — Nature Neuroscience (2024).

Novas funções gliais:

“Glial modulation of synapse development and plasticity: oligodendrocyte precursor cells as a new player in the synaptic quintet” — Frontiers in Cell and Developmental Biology (2024).

Sobre micróglia e neuroinflamação:

“Taming microglia: the promise of engineered microglia in treating neurological diseases” — Journal of Neuroinflammation (2024). 

Bons estudos!

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Escola de Neurociência Aplicada à Clínica

Bom dia, pessoal!

Estão preparados?

Em comemoração a 10 anos de história do Plantando Ciência, logo estarão disponíveis as inscrições para a Escola de Neurociência Aplicada à Clínica.

Uma plataforma com três disciplinas para construir todo o conhecimento básico sobre o cérebro e o comportamento humano, como podemos utilizar esses conhecimentos na clínica e uma gigantesca quantidade de materiais escritos, apostilas e vídeo-aulas, além de aulas semanais, ao vivo, e várias outras novidades.

Olha a imagem de capa, como está bonita:


Em breve, novidades sobre o acesso!

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Neurociência, Psicanálise e técnicas de imagem

Boa tarde, pessoal!

Mais dois cortes que são frutos da minha live para o Conselho brasileiro de psicanálise clínica. 

Um, falando sobre a relação entre Neurociência e Psicanálise. Em como ambas as áreas de estudo sobre o cérebro humano podem se enriquecer quando conversam com carinho e respeito. 

A neurociência não vai explicar a psicanálise, o objetivo das áreas são completamente diferentes. Porém, como psicanalista, se eu sei mais sobre o funcionamento do cérebro humano, consigo compreender meus pacientes de uma forma completamente diferente. É exatamente sobre isso.

Uma breve reflexão:



No segundo short do youtube, falo sobre como os estudos com técnicas de imagem permitem enxergar o cérebro humano enquanto vivo, sem qualquer necessidade de intervenção cirúrgica, e como isso vem mostrando a base biológica dos transtornos de ansiedade na ciência moderna. 

Vale a reflexão:



Bons estudos!

Anatomia da Ansiedade

Boa tarde, pessoal!

Há exatos 5 anos, eu dava minha palestra na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).

Mesmo sendo online, a sensação de falar sobre a Anatomia da Ansiedade, na casa onde desenvolvi uma enorme parte do meu conhecimento, foi sensacional.

Como o pessoal está pedindo mais palestras e materiais, enquanto os novos estão saindo do forno para serem postados, trago essa relíquia de 2021, no simpósio interligas.

Boas reflexões:


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Live - Ansiedade: Sintomas contemporâneos ou conflito inconsciente

Bom dia, pessoal!

Esse foi o tema da minha live, semana passada, para o Conselho Brasileiro de Psicanálise Clínica.

Se a ansiedade é causada por sintomas contemporâneos ou conflitos inconscientes?  Diria que ambos.

É inegável que nosso estilo de vida atual não é nada a favor da nossa biologia básica. Luzes no período da noite, bilhões de informações recebidas por telas, principalmente dos celulares, mas também telas de diversos outros tamanhos. tudo que ouvimos ao longo do dia, em especial quem utiliza transporte público. 

Se considerarmos nossos cinco sentidos ao longo de um dia, a quantidade de informações que chega até o nosso cérebro é um absurdo, e o coitado, sobrecarregado.

Estresse, rotina pesada, boletos, pouco ou nenhum tempo para fazer as coisas que aquecem seu coração (no meu caso, sentar e escrever), é um terreno extremamente fértil para a ansiedade e os transtornos relacionados a ela. 

Mas, considerando o aparelho psíquico proposto por Freud, os sintomas também são frutos dos conflitos gerados por precisarmos suprimir os desejos para poder conviver em sociedade, manter relações, empregos...

Por isso, o tema da live é de extrema importância no cenário atual, vale a pena conferir:


 Bons estudos e reflexões!

terça-feira, 19 de maio de 2026

Como amenizar minha ansiedade?

Primeiro vídeo do youtube, um corte da minha palestra para a Conselho brasileiro de psicanálise clínica, falando um pouco sobre Ansiedade.

Nesse caso, o que você utilizar para "gastar" sua ansiedade?

Eu sempre chamei de válvula de escape, mas um professor e amigo que admiro muito, me apresentou à expressão maravilhosa: recursos que nos ajudam a suportar a atual realidade.

Para mim, musculação ajuda e muito na organização dos pensamentos e do funcionamento cerebral.
Algumas pesquisas estão mostrando que, para tratamentos de transtornos de ansiedade, exercício não é uma opção, é algo obrigatório, uma estratégia valiosíssima para acrescentar na busca pela melhoria da saúde mental.

Mas, melhor ouvir, rs:



Boas reflexões e bora se exercitar um pouco?

Plantando Ciência no Youtube

Olá, pessoal!

Agora temos neurociência aqui do blog e também no Youtube. 

No ar, o canal do Plantando Ciência.

Olha que sensacional que ficou a imagem de capa:

O link para acessar é esse aqui:

https://www.youtube.com/@professorbrunodamiao9247

Acompanhe por lá, também! =D

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A batalha entre a razão e emoção dentro do seu cérebro: A relação entre sistema límbico e córtex pré-frontal– Parte 2

Boa tarde, pessoal!

Essa é a segunda matéria onde estamos atualizando alguns conhecimentos sobre a relação do sistema límbico com o córtex pré-frontal, sempre buscando entender melhor as fontes da nossa ansiedade.

Recomendo começar por aqui:

https://plantandociencia.blogspot.com/2026/05/a-batalha-entre-razao-e-emocao-dentro.html

A mudança de papéis da amígdala (alias, uma atualização de funções, porque acrescentamos algumas, rs), nos últimos anos, nos permite enxergar de uma forma totalmente diferente como percebemos a carga emocional das experiências que usufruímos através dos nossos cinco sentidos.

De centro do medo (o que ela é), a Amígdala passou a ser vista como uma detectora de saliências emocionais, que além de ser um termo belíssimo, significa que a Amígdala é a responsável por perceber e interpretar tudo o que sentimos em cada experiência, seja coisas positivas ou negativas.

E para que serve isso?

Para mostrar para o nosso cérebro o que de fato merece atenção naquele momento, conversa essa que a amígdala tem com o córtex pré-frontal para, além de voltar o foco, ter a análise consciente para a tomada de decisões.

E é aqui que novamente puxamos o gancho clínico com a Ansiedade. Até pouco tempo, a ciência acreditava que a amígdala hiperexcitada, reconhecendo perigo onde não tem e deixando nosso cérebro em constante alerta (gerando ansiedade) era a principal responsável. Ela participa, sem dúvida alguma, mas agora sabemos que o córtex pré-frontal costuma estar menos ativos nos transtornos de ansiedade.

Ou seja, a resposta emocional da amígdala excitada demais encontra o córtex pré-frontal, que é o único capaz de acalmá-la, mais fraco que o normal. O medo vence a razão, a ansiedade tem um terreno extremamente fértil para crescer e se desenvolver.

Mas, continuando o conteúdo da primeira parte:

  

Córtex Pré-Frontal: algo como o freio emocional do cérebro

É aqui que entra o córtex pré-frontal, nessa relação toda.

Embora não faça parte do sistema límbico, ele possui conexões intensas com essas estruturas emocionais. E, ele possui funções fantásticas, como:

  • planejamento
  • tomada de decisão
  • atenção
  • controle de impulsos
  • pensamento racional
  • regulação emocional

Ele funciona como um sistema de modulação emocional, porque abusa mais da cognição para tomar decisões. Menos impulsivo, mais analítico. Lembra da história de contar até 10 antes de responder? Uma boa margem de tempo para o sistema límbico acalmar e o córtex pré-frontal refletir sobre uma melhor resposta!

Em outras palavras:

A amígdala reage rapidamente e o córtex pré-frontal avalia se aquela reação faz sentido.

 

Emoção vs Razão: o modelo moderno da ansiedade

A neurociência atual descreve a ansiedade como um desequilíbrio entre dois sistemas:

Sistema emocional com a Amígdala!

Sistema regulador com o córtex pré-frontal!

Amígdala responde rápido, relacionada à resposta de medo, sempre visando manter nossa saúde, nos deixar vivos frente aos perigos (mesmo que eles não existam de verdade, rs). O córtex pré-frontal analisa se isso tudo realmente faz sentido, ou você nunca notou que, após disparar o coração em uma cena do filme de terror, logo ele desacelera e volta ao seu ritmo normal?

Nesse exemplo, o perigo identificado pela amígdala durante o susto com o filme dispara a resposta para preparar o corpo para lutar ou fugir, mas quando a amígdala conta o  que aconteceu para o córtex pré-frontal, ele percebe que não existe um perigo real, e começa a trabalhar para tudo voltar ao normal, num estado de tranquilidade para continuar aproveitando o filme.

Quando o córtex pré-frontal perde eficiência, a amígdala passa a dominar o funcionamento emocional. E ai, as emoções tomam conta, mesmo que não faça muito sentido.

Repetindo a expressão usada no começo da matéria: terreno absurdamente fértil para a ansiedade.

O que nos ajuda a  explicar:

  • impulsividade
  • crises de ansiedade
  • explosões emocionais
  • pensamentos catastróficos
  • dificuldade de “desligar” a mente

 

E para complementar os avanços no conhecimento sobre o tema, é definida pelo termo Conectividade funcional.

O problema não está apenas nas estruturas isoladas. O problema pode estar na comunicação entre elas. Podemos traduzir isso como: o buraco é mais embaixo!

Esse é o conceito de conectividade funcional

Exames modernos de neuroimagem mostram que pessoas com ansiedade frequentemente apresentam: maior ativação da amígdala, menor conectividade com o córtex pré-frontal resultando em dificuldade de regulação emocional

Ou seja:

o “freio” cerebral perde força.

O córtex pré-frontal é fantástico, e podemos dividir ele em algumas áreas que já conhecemos bem:

 

Córtex Pré-Frontal Ventromedial (vmPFC)

Relacionado à:

  • regulação emocional
  • empatia
  • redução do medo

 

Córtex Pré-Frontal Dorsolateral (dlPFC)

Relacionado à:

  • concentração
  • raciocínio lógico
  • reavaliação racional das emoções

 

Córtex Orbitofrontal (OFC)

Relacionado à:

  • recompensa
  • punição
  • avaliação social

 

Essas regiões trabalham juntas constantemente para modular nossas respostas emocionais.

Mas no final da história, o que tudo isso significa para a clínica em torno da Ansiedade?

A amígdala percebe as saliências emocionais para facilitar a vida do córtex pré-frontal para saber onde focar a atenção naquele momento. Além disso, ele analisa cognitivamente se a proposta da amígdala faz sentido, evitando estresse desnecessário.

Aqui conversam dois pontos que são cruciais para a formação das memórias no nosso cérebro! Atenção e carga emocional!

Tudo que prestamos atenção e nos faz sentir algo tem maior probabilidade de ser registrado como memória de longo prazo. Imagina um cérebro que, por anos, as vezes por décadas, trabalhou com uma amígdala hiperativa e um córtex pré-frontal hipoativo. Registrou todos os episódios da vida, basicamente, sob o olhar da ansiedade, sob o olhar mais voltado para o modo de defesa, para a cautela...

Agora, imagina se o episódio que disparou tudo isso foi lá na infância, a vida literalmente foi construída nesse modo, basicamente TUDO e TODOS os caminhos percorridos com frequência pelo cérebro, todos os hábitos, comportamentos, derivam de um cérebro mais assustado, mais ansioso.

Deu para entender melhor, agora, o porque usei a expressão maravilhosa de que o buraco é bem mais embaixo?

Boas reflexões!

terça-feira, 12 de maio de 2026

A batalha entre a razão e emoção dentro do seu cérebro: A relação entre sistema límbico e córtex pré-frontal

Boa tarde, pessoal!

Hoje vamos dar uma atualizada em uma das discussões mais fascinantes da Neurociência moderna e também, das mais relevantes para a clínica: a relação entre o Sistema Límbico e o Córtex Pré-Frontal.

Antigamente acreditávamos que as emoções eram apenas “sentimentos abstratos”, hoje sabemos que existem circuitos cerebrais extremamente sofisticados envolvidos em cada sensação de medo, ansiedade, prazer, apego, impulsividade e até na maneira como interpretamos nossa própria vida.

E, talvez, a descoberta mais interessante dos últimos anos seja esta:

Ansiedade, impulsividade e sofrimento emocional frequentemente não surgem apenas de uma “amígdala hiperativa”, mas de um desequilíbrio entre emoção e controle emocional. Ou seja, o que hoje conhecemos como circuito córtico-límbico, que nos conta muito sobre a relação entre córtex pré-frontal e regiões límbicas, como a Amígdala, é o verdadeiro responsável pela regulação emocional e, consequentemente, por suas desregulações, como na ansiedade,

Resumindo, na ansiedade vemos:

  • um cérebro emocional acelerado
  • combinado com um “freio” pré-frontal enfraquecido



Sistema Límbico - Enciclopédia Britânica


O Sistema Límbico: o cérebro emocional

O chamado Sistema Límbico é um conjunto de estruturas cerebrais profundamente relacionadas às emoções, memória, motivação, aprendizado e sobrevivência.

As principais estruturas límbicas incluem:

  • Hipocampo
  • Amígdala
  • Giro do Cíngulo
  • Giro Para-hipocampal
  • Hipotálamo
  • Área Septal
  • Núcleos anteriores do Tálamo

Durante muito tempo, os cientistas estudaram essas estruturas isoladamente e descobriram importantes funções. Porém, principalmente com o avanço das técnicas modernas de imagem, como a ressonância magnética funcional, passamos a ver menos as estruturas em si e mais os circuitos que elas participam, como os verdadeiros detentores das funções e disfunções do nosso incrível cérebro.

Hoje, porém, a neurociência entende que o mais importante não são apenas as áreas em si, mas a comunicação entre elas.

Nesse caso da conexão entre córtex pré-frontal e amígdala (e outras estruturas do sistema límbico), chamamos de circuitos córtico-límbicos.

Esses circuitos conectam regiões emocionais profundas do cérebro ao córtex cerebral, especialmente ao córtex pré-frontal. E é exatamente dessa conversa entre emoção e racionalidade que nasce boa parte da experiência humana.

 

A Amígdala NÃO é mais apenas o “centro do medo”

As pesquisas mais recentes mostram algo muito mais interessante. Que a amígdala funciona como um detector de relevância emocional.

Ou seja:

Ela tenta responder constantemente:

“Isso é importante para minha sobrevivência?”

Esse processo é chamado de:

  • saliência emocional

E nos ensinou que a Amígdala não responde só a estímulos ameaçadores, negativos, mas sim a todos as experiências que possuem carga emocional, saliência emocional, sejam positivas ou negativas.

É, basicamente: Se faz sentir, faz sentido. E aqui, significa que faz sentido guardar, como memória de longo prazo (útil para sobrevivência, deve ser registrado).

A amígdala responde principalmente a:

  • ameaças
  • rejeição social
  • experiências traumáticas
  • dor emocional
  • estímulos intensamente prazerosos
  • situações novas e imprevisíveis

Ela ajuda o cérebro a decidir rapidamente no que devemos prestar atenção. E ai, juntamos os dois fatores que são decisivos para a formação de memórias no nosso cérebro: a atenção que damos ao evento e o que a experiência nos faz sentir. A mágica está pronta, ou melhor, a memória foi registrada, muitas vezes para sempre!

Para quem esteve comigo em sala de aula, vai se lembrar do exemplo do experimento com a amígdala de macacos, uma das pesquisas clássicas que nos mostrou algo impressionante: Macacos com lesões na amígdala perderam respostas naturais de medo.

Quando uma cobra era apresentada ao animal:

  • ele não fugia
  • não apresentava agressividade
  • tentava brincar com a cobra
  • às vezes tentava colocá-la na boca

 

Esses achados ajudaram a compreender a chamada:

  • Síndrome de Klüver-Bucy

Nessa síndrome, ocorre uma desconexão importante envolvendo a amígdala, levando a:

  • perda da resposta de medo
  • alterações sexuais
  • dificuldade de reconhecer perigos
  • comportamento excessivamente dócil

 

A amígdala, portanto, é essencial para atribuir significado emocional às experiências. Sendo uma estrutura indispensável para a forma como reagimos e interagimos com o mundo a nossa volta. E, sem sombra de dúvidas, peça-chave na construção do que somos como seres humanos e também com as desconexões e transtornos que podem nos acometer ao longo de nossas vidas, como os transtornos de ansiedade.

Acreditamos, por muito tempo, que a Amígdala estava hiperativa nos transtornos de Ansiedade, e, realmente, está na grande maioria dos casos. Porém, não é só dela essa “culpa”, porque as técnicas de imagem mostraram que o córtex pré-frontal também está hipoativo, ou seja, regulando menos do que deveria a amígdala e o sistema límbico.

O que já sabíamos sobre essas áreas e a Ansiedade?

  • hiperatividade da amígdala
  • aumento da vigilância
  • interpretação exagerada de ameaça

 

Isso significa que o cérebro passa a detectar perigo mesmo quando ele não existe objetivamente. Pequenos sinais sociais, olhares, mensagens, silêncios ou situações cotidianas passam a ser interpretados como ameaças emocionais. E isso torna a vida da pessoa um “inferno”.

É como se o cérebro emocional permanecesse constantemente em estado de alerta. Tudo é perigo, tudo nos leva a um modo de defesa, pronto para enfrentar os fantasmas imaginários que criamos.

Tá, mas e o córtex pré-frontal?

Vamos falar sobre ele amanhã, na parte 2 dessa matéria!