Boa tarde, pessoal!
Hoje vamos dar uma
atualizada em uma das discussões mais fascinantes da Neurociência moderna e
também, das mais relevantes para a clínica: a relação entre o Sistema Límbico e
o Córtex Pré-Frontal.
Antigamente acreditávamos
que as emoções eram apenas “sentimentos abstratos”, hoje sabemos que existem
circuitos cerebrais extremamente sofisticados envolvidos em cada sensação de
medo, ansiedade, prazer, apego, impulsividade e até na maneira como interpretamos
nossa própria vida.
E, talvez, a descoberta
mais interessante dos últimos anos seja esta:
Ansiedade, impulsividade
e sofrimento emocional frequentemente não surgem apenas de uma “amígdala
hiperativa”, mas de um desequilíbrio entre emoção e controle emocional. Ou seja,
o que hoje conhecemos como circuito córtico-límbico, que nos conta muito sobre
a relação entre córtex pré-frontal e regiões límbicas, como a Amígdala, é o
verdadeiro responsável pela regulação emocional e, consequentemente, por suas
desregulações, como na ansiedade,
Resumindo, na ansiedade
vemos:
- um cérebro emocional acelerado
- combinado com um “freio” pré-frontal
enfraquecido
Sistema Límbico - Enciclopédia Britânica
O Sistema Límbico: o
cérebro emocional
O chamado Sistema Límbico
é um conjunto de estruturas cerebrais profundamente relacionadas às emoções,
memória, motivação, aprendizado e sobrevivência.
As principais estruturas
límbicas incluem:
- Hipocampo
- Amígdala
- Giro do Cíngulo
- Giro Para-hipocampal
- Hipotálamo
- Área Septal
- Núcleos anteriores do Tálamo
Durante muito tempo, os
cientistas estudaram essas estruturas isoladamente e descobriram importantes funções.
Porém, principalmente com o avanço das técnicas modernas de imagem, como a
ressonância magnética funcional, passamos a ver menos as estruturas em si e
mais os circuitos que elas participam, como os verdadeiros detentores das
funções e disfunções do nosso incrível cérebro.
Hoje, porém, a
neurociência entende que o mais importante não são apenas as áreas em si, mas a
comunicação entre elas.
Nesse
caso da conexão entre córtex pré-frontal e amígdala (e outras estruturas do
sistema límbico), chamamos de circuitos córtico-límbicos.
Esses circuitos conectam
regiões emocionais profundas do cérebro ao córtex cerebral, especialmente ao
córtex pré-frontal. E é exatamente dessa conversa entre emoção e racionalidade
que nasce boa parte da experiência humana.
A Amígdala NÃO é mais apenas
o “centro do medo”
As pesquisas mais
recentes mostram algo muito mais interessante. Que a amígdala funciona como um
detector de relevância emocional.
Ou seja:
Ela tenta responder
constantemente:
“Isso é importante para
minha sobrevivência?”
Esse processo é chamado
de:
- saliência emocional
E nos ensinou que a Amígdala
não responde só a estímulos ameaçadores, negativos, mas sim a todos as
experiências que possuem carga emocional, saliência emocional, sejam positivas
ou negativas.
É, basicamente: Se faz
sentir, faz sentido. E aqui, significa que faz sentido guardar, como memória de
longo prazo (útil para sobrevivência, deve ser registrado).
A amígdala responde
principalmente a:
- ameaças
- rejeição social
- experiências traumáticas
- dor emocional
- estímulos intensamente prazerosos
- situações novas e imprevisíveis
Ela ajuda o cérebro a
decidir rapidamente no que devemos prestar atenção. E ai, juntamos os dois
fatores que são decisivos para a formação de memórias no nosso cérebro: a
atenção que damos ao evento e o que a experiência nos faz sentir. A mágica está
pronta, ou melhor, a memória foi registrada, muitas vezes para sempre!
Para quem esteve comigo
em sala de aula, vai se lembrar do exemplo do experimento com a amígdala de
macacos, uma das pesquisas clássicas que nos mostrou algo impressionante: Macacos
com lesões na amígdala perderam respostas naturais de medo.
Quando uma cobra era
apresentada ao animal:
- ele não fugia
- não apresentava agressividade
- tentava brincar com a cobra
- às vezes tentava colocá-la na boca
Esses achados ajudaram a
compreender a chamada:
- Síndrome de Klüver-Bucy
Nessa síndrome, ocorre
uma desconexão importante envolvendo a amígdala, levando a:
- perda da resposta de medo
- alterações sexuais
- dificuldade de reconhecer perigos
- comportamento excessivamente dócil
A amígdala, portanto, é
essencial para atribuir significado emocional às experiências. Sendo uma
estrutura indispensável para a forma como reagimos e interagimos com o mundo a
nossa volta. E, sem sombra de dúvidas, peça-chave na construção do que somos
como seres humanos e também com as desconexões e transtornos que podem nos
acometer ao longo de nossas vidas, como os transtornos de ansiedade.
Acreditamos, por muito
tempo, que a Amígdala estava hiperativa nos transtornos de Ansiedade, e,
realmente, está na grande maioria dos casos. Porém, não é só dela essa “culpa”,
porque as técnicas de imagem mostraram que o córtex pré-frontal também está
hipoativo, ou seja, regulando menos do que deveria a amígdala e o sistema
límbico.
O que já sabíamos sobre
essas áreas e a Ansiedade?
- hiperatividade da amígdala
- aumento da vigilância
- interpretação exagerada de ameaça
Isso significa que o
cérebro passa a detectar perigo mesmo quando ele não existe objetivamente. Pequenos
sinais sociais, olhares, mensagens, silêncios ou situações cotidianas passam a
ser interpretados como ameaças emocionais. E isso torna a vida da pessoa um “inferno”.
É como se o cérebro
emocional permanecesse constantemente em estado de alerta. Tudo é perigo, tudo
nos leva a um modo de defesa, pronto para enfrentar os fantasmas imaginários
que criamos.
Tá, mas e o córtex
pré-frontal?
Vamos falar sobre ele amanhã,
na parte 2 dessa matéria!
