quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Papo de Consultório 3 - Transferência - Você está reagindo a mim ou a alguém do seu passado?

Olá, pessoal!

Bom dia.

Nos dois últimos #Papo de Consultório, falamos sobre dois conceitos muito trabalhados dentro da psicanálise: Sombra de Jung e projeção (Freud e Jung), que conectamos da seguinte forma: o que você não aceita em si (sombras) pode ser projetado no outro, gerando conflito, e outras questões importantes que podem atrapalhar relações.

Hoje, vamos falar de é um conceito extremamente famoso da psicanálise, mas que pode ser explicado de uma maneira muito contemporânea, a transferência.

Freud percebeu algo fundamental no consultório: o paciente não chega diante do terapeuta como se estivesse diante de uma pessoa completamente nova e neutra.

E, talvez, isso sirva para todas as nossas relações: amorosas, familiares, amizades, colegas de trabalho. Nós não começamos um contato com uma pessoa nova do zero, nós trazemos nossos medos, inseguranças, julgamentos, expectativas.

Nós colocamos, nessa nova relação, formas de vínculos que aprendemos e os modelos construídos ao longo da vida.

E isso cria uma pergunta maravilhosa:

Quando alguém reage exageradamente a uma pessoa, será que está reagindo apenas ao que aquela pessoa fez?

No Papo 2, nós vimos que:

Na projeção: "Existe algo meu que eu coloco em você."

Na transferência: "Existe algo que eu vivi antes e que passo a experimentar novamente na relação atual."

É uma diferença sutil, mas muito poderosa.

E que deve ser explorada em análise.

Olhando com o olhar da neurociência: o cérebro não começa cada relacionamento do zero.

Nós construímos modelos internos a partir das experiências anteriores. Experiências repetidas de cuidado, rejeição, abandono, crítica, imprevisibilidade, acolhimento, dentre outras, ajudam a formar expectativas sobre como os outros provavelmente irão se comportar.

Quando uma situação atual possui alguma semelhança com experiências anteriores, esses modelos podem influenciar a interpretação do presente.

E aqui entra conceitos da neurociência moderna, como a Memória Emocional.

Olhe para a memória emocional da seguinte maneira: nosso cérebro entende que as experiências que nos fazem sentir mais coisas, sejam boas ou ruins, devem ser registradas com mais detalhes. Tudo que marca nos relacionamentos anteriores tende a ser registrado e, no novo relacionamento, essas memórias podem ser resgatadas e gerar grande influência por conta de gatilhos.

Um perfume parecido, um comportamento semelhante, um hábito, uma música, qualquer coisa que marcou naquela época, tende a voltar. Seja bom ou ruim. Seja em um relacionamento amoroso ou não.

Essas memórias conversam com a Aprendizagem associativa, aquelas repetições de padrões e situações que vão condicionando nosso cérebro e influenciando nossas decisões ao longo da vida.

Cuidado, não estou dizendo que a neurociência "provou a transferência freudiana".

A neurociência não confirma literalmente a teoria freudiana da transferência, mas oferece mecanismos plausíveis para entendermos por que experiências passadas influenciam a maneira como interpretamos e reagimos às relações presentes. Vai falar que não achou que as duas conversam muito bem?

Mas vamos imaginar essa transferência acontecendo em um consultório, com um paciente:

“Imagine uma paciente fictícia, Marina.

Ela chega dizendo:

— Doutor, acho que você está ficando decepcionado comigo.

Você pergunta:

— O que fez você pensar isso?

Ela responde:

— Você ficou em silêncio quando eu terminei de falar.

Você explica que estava apenas pensando no que ela havia contado. Mas aquilo não parece suficiente para ela.

Nas sessões seguintes, qualquer pequena mudança na sua expressão, um atraso, uma pergunta mais direta ou até uma discordância começa a ser interpretada como:

"Você está bravo comigo."

"Você está cansado de me ouvir."

"Você acha que eu sou incompetente."

Até que, em determinado momento, aparece uma lembrança:

O pai de Marina era extremamente crítico.

Quando ela contava alguma coisa, ele frequentemente respondia com silêncio, expressão fechada ou frases como:

"Você nunca faz nada direito."

E aí aparece a pergunta:

Marina estava realmente enxergando o terapeuta?
Ou estava enxergando o terapeuta através da história que viveu com o pai?

Pesado, não? Mas um excelente ponto de reflexão e análise.

Vale dizer que a transferência não acontece apenas no consultório.

Por exemplo: A pessoa que recebe uma mensagem curta do namorado: "Precisamos conversar." E imediatamente pensa: "Ele vai terminar comigo."

Talvez o namorado simplesmente queira conversar. Mas o cérebro não recebe apenas aquelas palavras. Ele lembra de experiências anteriores, vídeos sobre relacionamentos, tudo que tiver armazenado e parecer relevante, tende a aparecer (mesmo que falhe algumas vezes, é um mecanismo de proteção psicológico).

E constrói uma interpretação.

Mas, apesar do exemplo didático, não custa você ser mais didático e claro nas mensagens, principalmente se souber que a pessoa que receberá a mensagem sofre com ansiedade, que isso possa servir como um gatilho para piorar o dia da pessoa. Se souber disso, não faça, pois você só está sendo cretino.

Quando o presente toca em uma memória emocional, a transferência pode acontecer – proteção, modo de operação, visões que foram construídas ao longo do tempo, com as experiências da vida.

E o cérebro começa a preparar a resposta antes mesmo de termos certeza do que está acontecendo.

Às vezes, não reagimos à pessoa que está diante de nós. Reagimos à história que o nosso cérebro aprendeu a contar quando encontra alguém parecido com ela.

Não adianta, terapia é vida. E só o autoconhecimento nos ajuda a lidar com nossas mazelas psicológicas e conseguirmos aproveitar a vida e nossas relações de uma forma mais intensa e prazerosa.

Boas reflexões!

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