Bom dia, pessoal!
No Papo de Consultório 1
nós falamos sobre a Sombra, de Jung. Basicamente, o que não entendendo em mim,
acabo “não gostando” ou “enxergando” de forma exacerbada no outro. Com
frequência, levando a julgamentos.
Porém, se você ainda não
leu, da uma olhadinha na primeira parte, porque eu deixei um gancho para esse
segundo texto:
https://plantandociencia.blogspot.com/2026/07/papo-de-consultorio-1-jung-e-sombra.html
O ganho era exatamente
sobre o conceito de hoje, Projeção.
A relação dos dois
conceitos é interessantíssima, uma vez que o que deixo nas minhas sombras do consciente
e do inconsciente, é visto como um grande defeito ou algo que eu não gosto no
outro (projeção).
O que é Projeção?
Projeção é o mecanismo
pelo qual atribuímos ao outro sentimentos, desejos ou características que, na
verdade, são nossos — mas que não conseguimos (ou não queremos) reconhecer como
nossos.
Não é mentira consciente.
Ninguém decide projetar. É um recurso automático da mente para lidar com aquilo
que dói demais admitir sobre si mesmo: então a gente "empurra" para
fora, coloca no outro, e passa a combater ali fora o que na verdade mora
dentro.
Dói menos, é inegável.
Trazido à tona pela
primeira vez por Freud, no fim do século XIX, descrevendo a projeção como um
dos mecanismos de defesa do ego — junto com repressão, negação, racionalização.
Para Freud, era uma forma
de aliviar a angústia gerada por impulsos ou desejos inaceitáveis, jogando-os
para fora de si.
Aceitar características,
principalmente as menos aceitas em suas rodas sociais, pode ser bem doloroso.
Projetar as sombras em outra pessoa, seja seu parceiro, sua parceira, seu
terapeuta... consigo combater algo que não gosto, julgar, sem me envolver. Dói
bem menos.
Jung, mais tarde, pegou
esse conceito e aprofundou, ligando diretamente à Sombra: aquilo que reprimimos
não desaparece, e uma das formas mais comuns dele se manifestar é justamente
projetado no outro.
Foi Jung quem disse: "tudo que nos incomoda no outro pode nos levar a um entendimento de nós mesmos."
Alguns exemplos da
literatura psicanalítica são famosos:
O parceiro extremamente
ciumento, que vive acusando o outro de traição sem motivo — muitas vezes é ele
quem convive com desejos ou fantasias que não consegue admitir. E não
raramente, o excesso de ciúmes está associado a comportamentos considerados
traição pelo próprio indivíduo, algo como se eu faço ele/ela também faz.
A pessoa que critica com
fúria quem "só pensa em dinheiro", mas nutre em segredo uma ambição
que julga feia demais para assumir, como se dinheiro fosse algo sujo ou inapropriado.
Discursos de preconceito:
atribuir a um grupo inteiro características (preguiça, promiscuidade,
agressividade) que muitas vezes escondem um medo ou impulso do próprio grupo
que projeta.
Percebe o padrão? Sempre
um julgamento com carga emocional desproporcional ao fato em si. Desmedido,
desnecessariamente grande.
Uma cena de consultório
Sessão 1
Carla (nome fictício)
chega irritada com a irmã.
— Ela é tão competitiva,
doutor. Compete em tudo, quer ganhar de todo mundo, não aguento mais.
Eu escuto e valido:
existem sim pessoas mais competitivas. Mas guardo a pergunta de sempre: por que
esse traço específico incomoda tanto?
Sessão 2
Carla comenta, meio de
passagem, que na infância era "a boazinha" da família, a que cedia, a
que não brigava por espaço.
— Minha mãe sempre dizia
que menina educada não disputa, não compete. Isso é feio.
Sessão 3
Na sessão seguinte, ela
conta que recusou uma promoção no trabalho — mesmo querendo muito o cargo —
porque "não ficou bem" pedir na frente dos colegas.
Foi aí que devolvi a
reflexão:
— Carla, será que o que
mais te incomoda na sua irmã não é justamente a permissão que ela tem para
competir, e que você nunca se deu?
Ela ficou em silêncio.
Depois:
— Eu também quero ganhar,
doutor. Eu só não sei fazer isso sem me sentir errada.
Carla não odiava a
competitividade da irmã. Odiava a própria vontade de competir, proibida desde
cedo — e que, projetada, virava crítica.
E a neurociência, o que
diz sobre isso?
Curiosamente, a
neurociência moderna mostra que nosso cérebro está longe de funcionar como uma
câmera que registra a realidade.
Hoje sabemos que ele
trabalha muito mais como um sistema de previsão.
Antes mesmo de
interpretar uma situação, o cérebro utiliza memórias, emoções, experiências
anteriores e expectativas para construir uma hipótese sobre aquilo que está
acontecendo.
Em outras palavras, não
enxergamos apenas o mundo.
Enxergamos o mundo
misturado com quem somos.
Aqui entra uma conexão
bonita, mas que eu prefiro apresentar com o devido cuidado, porque ainda é
território de hipótese, não de certeza fechada.
Os neurônios-espelho,
descobertos em macacos e posteriormente estudados (com mais detalhes) em
humanos, disparam tanto quando fazemos uma ação quanto quando observamos outra
pessoa fazendo. É um dos sistemas propostos para explicar como conseguimos
simular, "por dentro", o que o outro está sentindo ou fazendo.
Uma hipótese interessante
nesse campo é a de que esse sistema de simulação não é neutro: ele usa o nosso
próprio repertório emocional como matriz para interpretar o outro. Ou seja,
quando observamos alguém se exibindo, competindo, se impondo, o cérebro simula
aquilo comparando com o que já temos arquivado sobre esses mesmos impulsos em
nós — inclusive o que foi reprimido.
Some a isso o papel de
outras duas regiões:
A junção temporoparietal,
envolvida na Teoria da Mente (nossa capacidade de inferir o que se passa na
cabeça do outro) — ela empresta o próprio "banco de dados" emocional
para fazer essa leitura.
O córtex pré-frontal
medial, ligado à autorreferência, que como já vimos no texto sobre a Sombra,
tende a desviar o olhar de si quando certos conteúdos foram marcados como
inaceitáveis — e esse desvio precisa de um destino. O destino é o outro.
Juntando as peças: o
mesmo sistema que nos permite ter empatia é, possivelmente, o mesmo que nos
permite projetar — porque ambos dependem de usar a nós mesmos como referência
para entender quem está à nossa frente.
A diferença é sutil:
quando reconhecemos o que vemos no outro como também nosso, é empatia. Quando
negamos que aquilo nos pertence e o atacamos de fora, é projeção.
Para fechar
Projeção não é hipocrisia
proposital. É o cérebro tentando lidar, da forma mais barata possível (menos
dolorosa possível), com aquilo que aprendemos a temer em nós mesmos.
Da próxima vez que sentir
uma implicância forte demais com um traço específico em alguém, vale a mesma
pergunta de sempre: será que não é um pedaço meu, projetado ali na tela do
outro?

Nenhum comentário:
Postar um comentário