quarta-feira, 29 de julho de 2026

Papo de Consultório #2 - Freud, Jung e o conceito de Projeção

Bom dia, pessoal!

No Papo de Consultório 1 nós falamos sobre a Sombra, de Jung. Basicamente, o que não entendendo em mim, acabo “não gostando” ou “enxergando” de forma exacerbada no outro. Com frequência, levando a julgamentos.

Porém, se você ainda não leu, da uma olhadinha na primeira parte, porque eu deixei um gancho para esse segundo texto:

https://plantandociencia.blogspot.com/2026/07/papo-de-consultorio-1-jung-e-sombra.html

O ganho era exatamente sobre o conceito de hoje, Projeção.

A relação dos dois conceitos é interessantíssima, uma vez que o que deixo nas minhas sombras do consciente e do inconsciente, é visto como um grande defeito ou algo que eu não gosto no outro (projeção).

 


O que é Projeção?

Projeção é o mecanismo pelo qual atribuímos ao outro sentimentos, desejos ou características que, na verdade, são nossos — mas que não conseguimos (ou não queremos) reconhecer como nossos.

Não é mentira consciente. Ninguém decide projetar. É um recurso automático da mente para lidar com aquilo que dói demais admitir sobre si mesmo: então a gente "empurra" para fora, coloca no outro, e passa a combater ali fora o que na verdade mora dentro.

Dói menos, é inegável.

Trazido à tona pela primeira vez por Freud, no fim do século XIX, descrevendo a projeção como um dos mecanismos de defesa do ego — junto com repressão, negação, racionalização.

Para Freud, era uma forma de aliviar a angústia gerada por impulsos ou desejos inaceitáveis, jogando-os para fora de si.

Aceitar características, principalmente as menos aceitas em suas rodas sociais, pode ser bem doloroso. Projetar as sombras em outra pessoa, seja seu parceiro, sua parceira, seu terapeuta... consigo combater algo que não gosto, julgar, sem me envolver. Dói bem menos.

Jung, mais tarde, pegou esse conceito e aprofundou, ligando diretamente à Sombra: aquilo que reprimimos não desaparece, e uma das formas mais comuns dele se manifestar é justamente projetado no outro.

Foi Jung quem disse: "tudo que nos incomoda no outro pode nos levar a um entendimento de nós mesmos."

Alguns exemplos da literatura psicanalítica são famosos:

O parceiro extremamente ciumento, que vive acusando o outro de traição sem motivo — muitas vezes é ele quem convive com desejos ou fantasias que não consegue admitir. E não raramente, o excesso de ciúmes está associado a comportamentos considerados traição pelo próprio indivíduo, algo como se eu faço ele/ela também faz.

A pessoa que critica com fúria quem "só pensa em dinheiro", mas nutre em segredo uma ambição que julga feia demais para assumir, como se dinheiro fosse algo sujo ou inapropriado.

Discursos de preconceito: atribuir a um grupo inteiro características (preguiça, promiscuidade, agressividade) que muitas vezes escondem um medo ou impulso do próprio grupo que projeta.

Percebe o padrão? Sempre um julgamento com carga emocional desproporcional ao fato em si. Desmedido, desnecessariamente grande.

 

Uma cena de consultório

Sessão 1

Carla (nome fictício) chega irritada com a irmã.

— Ela é tão competitiva, doutor. Compete em tudo, quer ganhar de todo mundo, não aguento mais.

Eu escuto e valido: existem sim pessoas mais competitivas. Mas guardo a pergunta de sempre: por que esse traço específico incomoda tanto?

Sessão 2

Carla comenta, meio de passagem, que na infância era "a boazinha" da família, a que cedia, a que não brigava por espaço.

— Minha mãe sempre dizia que menina educada não disputa, não compete. Isso é feio.

Sessão 3

Na sessão seguinte, ela conta que recusou uma promoção no trabalho — mesmo querendo muito o cargo — porque "não ficou bem" pedir na frente dos colegas.

Foi aí que devolvi a reflexão:

— Carla, será que o que mais te incomoda na sua irmã não é justamente a permissão que ela tem para competir, e que você nunca se deu?

Ela ficou em silêncio. Depois:

— Eu também quero ganhar, doutor. Eu só não sei fazer isso sem me sentir errada.

Carla não odiava a competitividade da irmã. Odiava a própria vontade de competir, proibida desde cedo — e que, projetada, virava crítica.

 

E a neurociência, o que diz sobre isso?

Curiosamente, a neurociência moderna mostra que nosso cérebro está longe de funcionar como uma câmera que registra a realidade.

Hoje sabemos que ele trabalha muito mais como um sistema de previsão.

Antes mesmo de interpretar uma situação, o cérebro utiliza memórias, emoções, experiências anteriores e expectativas para construir uma hipótese sobre aquilo que está acontecendo.

Em outras palavras, não enxergamos apenas o mundo.

Enxergamos o mundo misturado com quem somos.

Aqui entra uma conexão bonita, mas que eu prefiro apresentar com o devido cuidado, porque ainda é território de hipótese, não de certeza fechada.

Os neurônios-espelho, descobertos em macacos e posteriormente estudados (com mais detalhes) em humanos, disparam tanto quando fazemos uma ação quanto quando observamos outra pessoa fazendo. É um dos sistemas propostos para explicar como conseguimos simular, "por dentro", o que o outro está sentindo ou fazendo.

Uma hipótese interessante nesse campo é a de que esse sistema de simulação não é neutro: ele usa o nosso próprio repertório emocional como matriz para interpretar o outro. Ou seja, quando observamos alguém se exibindo, competindo, se impondo, o cérebro simula aquilo comparando com o que já temos arquivado sobre esses mesmos impulsos em nós — inclusive o que foi reprimido.

Some a isso o papel de outras duas regiões:

A junção temporoparietal, envolvida na Teoria da Mente (nossa capacidade de inferir o que se passa na cabeça do outro) — ela empresta o próprio "banco de dados" emocional para fazer essa leitura.

O córtex pré-frontal medial, ligado à autorreferência, que como já vimos no texto sobre a Sombra, tende a desviar o olhar de si quando certos conteúdos foram marcados como inaceitáveis — e esse desvio precisa de um destino. O destino é o outro.

Juntando as peças: o mesmo sistema que nos permite ter empatia é, possivelmente, o mesmo que nos permite projetar — porque ambos dependem de usar a nós mesmos como referência para entender quem está à nossa frente.

A diferença é sutil: quando reconhecemos o que vemos no outro como também nosso, é empatia. Quando negamos que aquilo nos pertence e o atacamos de fora, é projeção.

Para fechar

Projeção não é hipocrisia proposital. É o cérebro tentando lidar, da forma mais barata possível (menos dolorosa possível), com aquilo que aprendemos a temer em nós mesmos.

Da próxima vez que sentir uma implicância forte demais com um traço específico em alguém, vale a mesma pergunta de sempre: será que não é um pedaço meu, projetado ali na tela do outro?

Até o próximo Papo de Consultório, meu povo.

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