Boa noite, pessoal!
Hoje eu inauguro uma
série nova aqui no blog: o Papo de Consultório.
A ideia é simples: trazer
situações que aparecem (ou poderiam aparecer) dentro do consultório, e usar
isso como ponto de partida para conversarmos sobre conceitos importantes da
psicanálise, sempre costurando com o que a neurociência mais atual tem nos mostrado.
E para abrir com força,
resolvi começar por um conceito que é praticamente uma porta de entrada para o
autoconhecimento: a Sombra, de Carl Jung.
O que é a Sombra?
Não é sobre ser uma
pessoa má, escondida, cheia de segredos sombrios (embora a palavra confunda um
pouco por causa disso). É mais sutil do que isso e também um pouco mais
dolorido.
Desde muito cedo, para
sermos aceitos — pela família, pela escola, pelo grupo social — aprendemos a
exibir certas partes de nós e a empurrar outras para debaixo do tapete: raiva,
inveja, egoísmo, desejo de poder, preguiça, competitividade, sexualidade mais
livre... características que, em algum momento, foram marcadas como
"erradas" ou "inaceitáveis".
E é exatamente essa parte
“omitida” que entra no conceito de sombra, e sabe por que?
Porque não desaparece,
está escondida mas permeia nossos comportamentos, nossas atuações sociais, nossos
relacionamentos...
Elas só saem de cena. E o
que sai de cena, segundo Jung, não deixa de existir: continua agindo por baixo
do palco.
E é aí que mora a
armadilha: aquilo que reprimimos em nós, tendemos a enxergar com muita
clareza no outro — e a julgar com uma intensidade emocional que não bate
com a situação.
Sabe aquela raiva
desnecessária por algo ou alguém, que você sente mas não consegue entender o por
que daquilo tudo?
Isso tem nome: projeção.
Uma cena de consultório
Rafael (nome fictício)
chega reclamando de um colega de trabalho.
— Ele é um narcisista,
doutor. Só fala dele, das conquistas dele, fica se exibindo em toda reunião. Eu
tenho ódio de gente assim.
Eu escuto, valido o
incômodo — afinal, existem sim pessoas mais autocentradas — mas guardo uma
pergunta para mais tarde: por que esse tipo específico de comportamento incomoda
tanto a ponto de tirar o sono dele?
Sessão 2
O assunto volta. E dessa
vez, Rafael conta que, na adolescência, era o "engraçadinho" da
turma, adorava ser o centro das atenções, contar vantagem, se exibir.
Até que um dia o pai
disse, na frente de todo mundo, que aquilo era "ridículo, uma vergonha,
coisa de gente fútil".
Rafael se cala e me olha.
— Eu nunca mais quis ser
assim, doutor.
Sessão 3
Na sessão seguinte, ele
traz um episódio da semana: contou uma conquista pequena no trabalho para os
amigos e, na hora, sentiu uma vergonha desproporcional, quase um mal-estar
físico.
Foi aí que eu devolvi a
ele:
— Rafael, será que o que
você mais odeia no seu colega não é justamente aquilo que você aprendeu a odiar
em você mesmo?
Silêncio. E depois, os
olhos marejados.
Rafael não odiava o
colega.
Ele odiava a parte dele
que também gostaria de brilhar, se exibir, ocupar espaço — mas que foi
reprimida ainda menino, por vergonha e medo de rejeição.
O colega apenas fazia,
sem culpa, o que Rafael havia proibido a si mesmo de fazer.
Isso é a Sombra em ação:
não é o que os outros são, é o espelho do que negamos em nós.
E a neurociência, o que diz sobre isso?
Jung não tinha
ressonância magnética, é claro, rs.
Mas o conceito de Sombra
encontra respaldo em achados bem atuais.
Sabe aquela ativação
emocional desproporcional que Rafael sentia? A neurociência mostra que
julgamentos morais carregados de intensidade emocional envolvem estruturas como
a amígdala e a ínsula, regiões ligadas à detecção de ameaça e ao processamento
de emoções desconfortáveis — muito mais do que áreas puramente racionais.
Ou seja: quando a reação
a algo no outro é forte demais para o "tamanho" da situação, é sinal
de que existe carga emocional antiga sendo ativada, não apenas uma opinião fria
sobre o comportamento alheio, mas sim que está guardado dentro de você, e pelo
visto foi guardado a força!
Outro ponto interessante
vem da psicologia social, com os estudos sobre viés de projeção: tendemos a
atribuir aos outros traços que preferimos não reconhecer em nós, um mecanismo
relacionado à necessidade do cérebro de manter uma autoimagem coerente e aceitável
— reduzindo o desconforto daquilo que, em psicologia, chamamos de dissonância
cognitiva.
E tem ainda o papel do
córtex pré-frontal medial, envolvido na autorreferência: normalmente ele nos ajuda
a avaliar quem somos, mas quando certas partes de nós foram marcadas como
perigosas ou vergonhosas lá atrás, o cérebro aprende a desviar o olhar de si
mesmo e a colocá-lo no outro.
É mais barato,
emocionalmente falando, condenar no colega do que reconhecer em si.
Nós já conversamos sobre
isso aqui e, quem passou por algumas sessões de terapia em algum momento da
vida, sabe bem disso que vou falar agora: terapia é desconfortável, reconhecer
algo que se esconde nas sombras pode doer antes de melhorar, mas ai está o
grande ponto – melhora!
Organizar em palavras,
falar a respeito e inevitavelmente ter que refletir sobre essas questões, faz
com que seu nível de autoconhecimento e seu arsenal psicológico aumentem de uma
forma maravilhosamente interessante. Vale a pena, só que nem sempre funciona como
um carinho, rs.
Para fechar
A Sombra não é sobre ser uma pessoa ruim. É sobre
reconhecer as partes de nós que fomos ensinados a esconder — e perceber que,
quanto mais fugimos delas, mais elas aparecem disfarçadas de julgamento sobre o
outro.
Da próxima vez que sentir uma raiva ou um desprezo
forte demais por alguém, vale se perguntar: será que não é um pedaço meu,
escondido, batendo na porta?
E aqui, meu amigo, só a terapia e o autoconhecimento
podem te ajudar a abrir essa porta com cuidado.
Até o próximo Papo de Consultório, meu povo.

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