terça-feira, 8 de setembro de 2026

Acupuntura e cérebro: o que acontece no sistema nervoso quando uma agulha encontra um ponto do corpo?

Olá, pessoal!

Boa tarde!

Hoje vamos fazer uma mistura espetacular aqui no Plantando Ciência: tradição milenar chinesa misturada com neurociência moderna.

Sendo um pouquinho mais claro, o que sabemos hoje sobre os efeitos da acupuntura na Ansiedade, Depressão e Estresse?

Olha que interessante esse quadro antes de começar a nossa reflexão:



Um dos trabalhos mais interessantes para abrir o artigo é uma meta-análise publicada em 2026, que reuniu 20 ensaios clínicos randomizados e 1.462 participantes.

A acupuntura tradicional apresentou uma melhora significativa na ansiedade dos pacientes, quando comparados aos pacientes que receberam outras técnicas e também quando comparados ao grupo controle (que não passou por acupuntura ou outra intervenção).

O efeito também permaneceu no acompanhamento dos pacientes. Porém, quando analisamos mais a fundo outros pontos comparados no artigo, os resultados se mostraram mais heterogêneos, justamente o tipo de ressalva que combina com a proposta aqui do Plantando Ciência.

Um estudo com foco no transtorno de ansiedade generalizada (TAG), uma meta-análise de 2025, encontrou uma redução significativa nas escalas de ansiedade e também melhora da qualidade do sono e sintomas depressivos, quando comparada a outras metodologias.

Mas tem estudo mostrando o cérebro funcionando durante uma sessão de acupuntura? Tem!

Estudos de neuroimagem mostram que a acupuntura não parece simplesmente produzir uma resposta “local”. Uma revisão de estudos de ressonância magnética em depressão encontrou alterações envolvendo o funcionamento de regiões como córtex cingulado anterior e regiões pré-frontais, além de mudanças na conectividade funcional. Isso é sensacional, uma vez que uma das discussões atuais sobre ansiedade fala sobre o córtex pré-frontal trabalhando menos que o normal na contenção das análises emocionais da amígdala. Algo como o freio dos impulsos ansiosos, das interpretações dramaticamente exageradas da amígdala não funcionar corretamente.

Fato que vem sendo confirmado por estudos recentes que apontam para um efeito sobre as redes neurais relacionadas à regulação emocional, recompensa e modo padrão.

Há um trabalho particularmente recente, publicado em 2026, que fez uma meta-análise de estudos de fMRI envolvendo 357 pessoas com depressão.

Os autores encontraram alterações consistentes em regiões como cíngulo e núcleo caudado, principalmente por meio de plasticidade neural, o que aparenta ter levado a melhora clínica dos pacientes analisados.

Também foi observada uma relação dose-resposta entre número de sessões e modulação da amígdala. E modulação da amígdala, hiperativada em muitos casos de transtornos de ansiedade, pode ser chave dos efeitos ansiolíticos de uma técnica milenar, criada milhares de anos antes de qualquer ideia sobre ciência como temos hoje, sensacional!

Talvez a pergunta mais interessante não seja “qual ponto da acupuntura trata a ansiedade?”, mas “como uma estimulação periférica consegue modificar a atividade de circuitos cerebrais envolvidos na ansiedade?”

 

Mas e o estresse?

Se eu disse, apenas que: “Acupuntura reduz o estresse.”

Eu não estaria sendo honesto com vocês!

“Há evidências de que a acupuntura pode interferir em sistemas neurobiológicos relacionados à resposta ao estresse.”

Pronto, olha que poética essa versão, rs.

Aqui, um dos principais candidatos é o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA), responsável pela liberação de cortisol no estresse, dentre diversos outros efeitos característicos do estresse crônico, acumulado.

Uma revisão de 2024 reuniu evidências sobre a interação entre acupuntura e eixo HPA e descreveu possíveis efeitos envolvendo hipotálamo, hipocampo, amígdala, hipófise, neurotransmissores e neuropeptídeos. Uma análise um pouco mais neurobiológica das ações.

E isso é muito interessante porque conecta diretamente a acupuntura com algo que já discutimos inúmeras vezes aqui:

Estímulo → sistema nervoso → hipotálamo → eixo HPA → cortisol → resposta fisiológica ao estresse.

Um estudo publicado na Nature demonstrou, em modelos experimentais, que a eletroacupuntura em determinados locais poderia recrutar fibras sensoriais e ativar uma via vagal-adrenal, associada à modulação de respostas inflamatórias.

Aqui, porém, preciso deixar muito claro:

Isso é evidência experimental — não significa que já esteja comprovado que a mesma via produza os mesmos efeitos clínicos em seres humanos com ansiedade ou depressão.

Um mecanismo fascinante: a agulha conversa com o sistema nervoso

Um dos exemplos mais bonitos de neurobiologia da acupuntura vem de um estudo publicado na Nature Neuroscience.

Pesquisadores demonstraram que a estimulação por acupuntura aumentava localmente a liberação de adenosina, e que seus efeitos analgésicos dependiam da ativação de receptores A1. Esse estudo foi feito em animais e estudou principalmente dor, então não devemos extrapolá-lo diretamente para ansiedade ou depressão.

Mas ele demonstra algo conceitualmente importante: uma agulha inserida na periferia pode desencadear uma cascata neuroquímica mensurável e auxiliar no tratamento de dor.

Imagina nos casos de dores crônicas, o tanto de sofrimento que poderia ser resolvido com mais agulhas e menos medicamentos! Qualidade de vida, saúde e longevidade juntos!

E isso muda completamente a maneira de pensar a acupuntura, porque a ciência vem mostrando claramente que: a estimulação mecânica de tecidos periféricos pode ativar fibras sensoriais, produzir sinais neurais e desencadear respostas neuroquímicas e autonômicas.

A questão científica passa então a ser:

Quais vias são ativadas, em quais condições e com qual magnitude? E quais os pontos mais interessantes para serem explorados?

Mas, a partir desse ponto, quem assume a discussão na segunda parte da matéria é a biomédica e grande amiga Valéria Caruso, trazendo mais informações sobre a técnica em si, a qual ela exerce a anos em sua clínica.

Boas reflexões e até a próxima!


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