quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Enzimas e vitaminas: pequenas moléculas, grandes responsabilidades - parte 2

Olá, pessoal.

Bom dia!

Vamos começar a conversa hoje com uma pergunta que eu tenho certeza que você já fez em algum momento: afinal, para que servem as vitaminas?

Quando alguém fala em vitamina, geralmente pensamos imediatamente em saúde.

“Vitamina faz bem.”

“Vitamina aumenta a imunidade.”

“Estou cansado, talvez esteja com falta de vitamina.”

Mas essas frases, apesar de populares, escondem uma pergunta muito mais interessante:

O que uma vitamina realmente faz dentro do organismo?


E sabe a resposta?

Depende da vitamina, porque as funções e relações com saúde física e mental são interessantíssimas e bem variadas.

E talvez uma das formas mais interessantes de compreender isso seja voltando ao que acabamos de discutir.

Algumas vitaminas participam direta ou indiretamente de processos metabólicos fundamentais. Algumas dão origem a moléculas utilizadas como cofatores ou coenzimas.

Outras participam de processos relacionados à visão, coagulação, absorção de cálcio, proteção antioxidante, síntese de moléculas e funcionamento neurológico.

Ou seja: As vitaminas não são simplesmente “boas para o corpo”.

São moléculas envolvidas em processos específicos. Elas são indispensáveis para o bom funcionamento do nosso corpo.

E, quando elas faltam, determinadas partes dessa enorme rede bioquímica podem deixar de funcionar adequadamente.

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Uma das classificações mais importantes divide as vitaminas em dois grupos: lipossolúveis e hidrossolúveis.

As vitaminas lipossolúveis são absorvidas juntamente com os lipídios da alimentação e podem ser armazenadas, principalmente no fígado e no tecido adiposo.

Aqui encontramos as famosas vitaminas A, D, E e K.

Já as vitaminas hidrossolúveis geralmente não são armazenadas da mesma forma e precisam ser consumidas regularmente.

Nesse grupo estão: vitamina C e vitaminas do complexo B.

E essa diferença já nos mostra uma coisa importante.

Não faz sentido pensar em todas as vitaminas como se fossem iguais. Porque elas não são.


Vitamina A: enxergar é muito mais bioquímico do que parece

Quando pensamos em vitamina A, a primeira ideia que aparece para a maioria das pessoas é a relação com a visão.

E não é por acaso, a relação é real!

Ela possui participação importante em processos relacionados à visão, além de estar associada ao crescimento celular e ao sistema imunológico.

Podemos encontrá-la em diferentes fontes. O retinol aparece principalmente em fontes animais.

Já compostos como o betacaroteno estão presentes em vegetais. E aqui temos uma conexão interessante com as cores dos alimentos: Cenoura, Abóbora, Batata-doce e Vegetais verdes. Frutas e vegetais alaranjados.

Parece que sua mãe e sua avó estavam certas, em? Comer cenoura faz bem para os olhos, rs.

 

Vitamina D: uma vitamina que também nos faz olhar para o Sol

A vitamina D também apresenta uma característica especial. Além de fontes alimentares, sua produção está relacionada à exposição da pele à luz solar.

Ela possui participação importante no aumento da absorção de cálcio pelo intestino. E isso nos leva a uma pergunta:

Se o cálcio é importante para os ossos, será que basta simplesmente consumir muito cálcio para garantir que ele seja adequadamente absorvido e utilizado? Isso vai depender da vitamina D.

A resposta nos mostra novamente que o organismo não funciona por moléculas isoladas. Os sistemas dependem uns dos outros.

 

Vitamina E: protegendo as células

A vitamina E está relacionada à proteção antioxidante.

Mas o que significa isso na prática?

As células estão constantemente expostas a processos capazes de gerar espécies reativas. Em determinadas condições, essas moléculas podem contribuir para danos celulares e hoje sabemos que o estresse oxidativo está  diretamente relacionado ao envelhecimento precoce do corpo e do cérebro.

Sistemas antioxidantes ajudam a reduzir parte desse impacto e a vitamina E participa dessa rede de proteção.

Podemos encontrá-la, por exemplo, em óleos vegetais, nozes, sementes e alguns vegetais. Mas é importante perceber uma coisa:

Quando falamos em antioxidante, não estamos falando de uma espécie de “escudo mágico”.

Estamos falando de moléculas participando de processos químicos específicos. E, novamente: equilíbrio.

 

Vitamina K: quando o sangue precisa saber a hora de parar

Tem uma excelente história que sempre conto para meus alunos em sala de aula, onde tentei separar dois pães de queijo congelados com uma faca afiada. Resultado óbvio: corte e muito sangue.

Mas, em algum momento, o organismo precisa interromper esse sangramento. Não podemos perder tanto de uma coisa tão preciosa para nossa vida.

A coagulação é uma sequência extremamente organizada de eventos e a vitamina K participa de processos relacionados a essa coagulação, incluindo a formação da protrombina, uma das chaves da formação organizada de coágulos.

Ela também participa da ativação de proteínas relacionadas à fixação de cálcio na matriz óssea. Uma mesma vitamina. Mais de uma função.


Agora vamos falar das vitaminas que circulam melhor na água

Entre as vitaminas hidrossolúveis, encontramos a vitamina C e o complexo B. E talvez a vitamina C seja uma das mais conhecidas.

Tenho certeza que você já tomou aquela efervescente, com gostinho sem vergonha de laranja e que tem um poder de ativar muitas memórias afetivas, até da infância.

A vitamina C, ou ácido ascórbico, está relacionada à síntese de colágeno, ao funcionamento do sistema imunológico e à atividade antioxidante e sua deficiência pode provocar consequências importantes.

O escorbuto é um exemplo clássico.

Alterações como sangramento gengival, anemia e outros sinais sistêmicos mostram algo importante:

Quando uma molécula essencial começa a faltar, o organismo não simplesmente “fica um pouco menos saudável”.

Determinadas funções começam a falhar. E os sintomas aparecem.

 

O complexo B: quando pequenas moléculas participam de grandes sistemas

Agora voltamos à conexão que iniciou essa segunda parte da nossa história. Enzimas, Cofatores, Coenzimas, Vitaminas.

As vitaminas do complexo B participam de diferentes processos metabólicos.

A B1 está relacionada ao metabolismo de carboidratos e à função neurológica. A B2 participa de processos relacionados à produção de energia.

A B3 está associada ao metabolismo celular. A B5 possui uma conexão direta com a formação da coenzima A.

E aqui vale lembrar algo que já discutimos anteriormente.

A coenzima A participa de diversas reações metabólicas importantes, incluindo processos relacionados à produção de energia e à transferência de grupos acetil.

A B6 possui uma ligação especialmente interessante com o sistema nervoso. Além de participar do metabolismo de aminoácidos, está relacionada à formação de piridoxal fosfato, um cofator.

E isso nos permite voltar à nossa pergunta:

Uma enzima pode estar presente e, mesmo assim, não funcionar adequadamente?

E a resposta é sim!

Dependendo do sistema, pode faltar algo necessário para sua atividade. A enzima está lá. O substrato está lá. Mas uma peça importante pode estar faltando.

A vitamina B7 participa de processos relacionados ao metabolismo de ácidos graxos e aminoácidos. A B9 possui importância na síntese de DNA e na formação de novas hemácias.

E a B12 está relacionada à produção de glóbulos vermelhos e ao funcionamento neurológico. E aqui entra uma relação já muito bem discutida na ciência sobre deficiência de vitamina B12 e déficits cognitivos, inclusive a níveis de causar uma demência.

Você leu certo, demência! Com sintomas característicos e confusão mental, dificuldades e erros de memória. E, quando a vitamina B12 é reposta, os problemas se resolvem. Uma demência tratável por falta de vitaminas.

Mais uma vez: Não estamos falando apenas de “vitaminas”.

Estamos falando de bioquímica acontecendo.


O problema não é apenas a falta

Quando falamos sobre vitaminas, geralmente pensamos em deficiência. Mas existe outra questão importante.

Mais é sempre melhor?

Se uma vitamina é importante...Será que consumir dez vezes mais seria dez vezes melhor?

Provavelmente você já percebeu a resposta.

O organismo não funciona dessa maneira. Especialmente quando falamos de moléculas que podem ser armazenadas.

Existe uma diferença importante entre:

  • consumir uma quantidade adequada;
  • apresentar deficiência;
  • e consumir quantidades excessivas.

Mais uma vez, voltamos a uma palavra que apareceu diversas vezes durante esta aula: equilíbrio.

Pesquisas brasileiras já mostraram que consumo exacerbado de vitaminas, em especial um estudo com a vitamina C e atletas, mostrou que altas doses podem fazer com que o ácido ascórbico deixe de funcionar como antioxidante e passa a ser uma espécie reativa, oxidante, contribuindo com o estresse oxidativo ao invés de combatê-lo.

Nesse caso, o exagero nos levou à clássica expressão popular brasileira: “o poste mijando no cachorro”.

 

No final, enzimas e vitaminas contam a mesma história

E isso nos leva direto à pergunta inicial.

O que está acontecendo dentro do seu corpo neste exato momento?

Reações químicas. Milhares delas. O tempo todo. Algumas quebrando moléculas. Outras construindo. Algumas produzindo energia. Outras protegendo as células. Algumas acontecendo rapidamente. Outras sendo desaceleradas.

Algumas dependendo de proteínas. Outras precisando de cofatores. E alguns desses cofatores dependendo, direta ou indiretamente, de vitaminas.

Por isso, talvez enzimas e vitaminas não sejam dois assuntos diferentes. Talvez sejam capítulos diferentes da mesma história.

Uma história sobre como moléculas aparentemente pequenas podem determinar processos gigantescos. Porque, no final das contas, a vida não acontece simplesmente porque temos células.

A vida acontece porque, dentro delas, existe uma quantidade quase inacreditável de reações acontecendo de forma espetacularmente organizada.

E, para que isso aconteça... Algumas moléculas aceleram.

Outras regulam. Outras ajudam.

E algumas, mesmo presentes em quantidades muito pequenas, podem fazer uma enorme diferença.

Afinal, conseguimos entender agora que na bioquímica, para o bom funcionamento do nosso organismo e para a nossa saúde, quantidade e tamanho são fatores pouco importantes.

E talvez essa seja uma das melhores formas de terminar nossa discussão de hoje. Porque agora fica uma última pergunta:

Se uma molécula tão pequena pode alterar o funcionamento de uma enzima, de uma célula, de um tecido e até de todo o organismo... quantas coisas importantes estão acontecendo dentro de você agora, sem que você perceba?

Percebe que conforme avançamos na disciplina, mais complexa e maravilhosa fica essa resposta?

Bons estudos!

Aquele infográfico para resumir:


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