terça-feira, 28 de abril de 2026

Dopamina é sinônimo de prazer? Uma discussão sobre neurotransmissores e sias funções e disfunções

Boa noite, pessoal!

Eu sempre falo aqui, que talvez a coisa mais incrível que acontece no nosso cérebro, seja a neuroplasticidade. Tanto pelo quão incrível ela é por si só, como pelas inúmeras possibilidades, funções e capacidades que derivam dela. É sensacional!

Massss, como toda coisa muito sensacional, existem coisas por trás, e, nesse caso, são as maravilhosas sinapses químicas (representadas abaixo por uma figura criada por mim, obviamente por IA, rs):



Para quem ainda não leu, a matéria sobre sinapses químicas é, até hoje, a mais lida de toda a história do blog, vale a pena conferir antes de seguir nessa de hoje:

https://plantandociencia.blogspot.com/2019/03/sinapses-quimicas.html

A matéria antiga tem várias formas de explicar a sinapse química, inclusive um esquema de flechas, mas vou resumir aqui como um neurônio se comunica com o outro: quando um impulso nervoso chega ao terminal sináptico (e sim, o impulso nervoso é o start para tudo aqui, sem ele não acontece comunicação nervosa), os canais de cálcio se abrem e entra um monte de cálcio para dentro do terminal sináptico (na fisiologia, influxo de cálcio). Essa entrada de cálcio faz com que as vesículas sinápticas se liguem às proteínas conectadas à membrana celular, se fundam à membrana e liberem os neurotransmissores na fenda sináptica (lembrem-se sempre, sinapse química não existe contato físico entre as células que estão se comunicando, por isso a fenda sináptica e a necessidade de neurotransmissores). Os neurotransmissores então atravessam a fenda e se ligam aos receptores do neurônio, músculo ou glândula que está recebendo a mensagem, e assim a informação é passada adiante. 

Por trás desse fenômeno, estão todas as nossas funções cognitivas, como nossa capacidade de focar em alguma entrada sensorial específica (como quando você foca sua visão no seriado que está assistindo), a formação das nossas memórias, as tomadas de decisões (e sim, as erradas também, rs), dentre diversas outras habilidades incríveis do nosso cérebro.

Mas hoje, vamos focar nossa discussão em dois neurotransmissores específicos e, posso dizer até que famosos, talvez os mais conhecidos na atualidade: serotonina e dopamina.

Primeiro, a Serotonina, que tenho certeza que você já ouviu falar da relação dela, ou melhor, da falta dela, com a depressão.

Até hoje, a hipótese neurobiológica mais discutida é sim a questão da diminuição da serotonina, tanto que o principal antidepressivo utilizado no brasil é a classe dos inibidores da recaptação de serotonina, que, ao impedirem que o neurotransmissor volte para o neurônio que o liberou, faz com que a concentração do mesmo aumente na fenda sináptica. 

Porém, agora com décadas de pesquisas e dados concretos, é evidente que a depressão é algo bem mais complexo que a baixa concentração de serotonina, e sua construção, muitas vezes com variáveis genéticas e ambientais envolvidas, é realizada por muitos caminhos que não só o neurotransmissor em falta. Associar a depressão exclusivamente à serotonina, hoje, é algo até reducionista.

Mas, e a serotonina? 

O que esse neurotransmissor tão conhecido realmente faz no nosso cérebro?

Primeiro, a maior parte da serotonina utilizada no nosso cérebro é produzida no tronco encefálico, em alguns núcleos conhecidos como Núcleos da Rafe, e dali essa serotonina se projeta para diversas regiões do nosso cérebro. Só com essa informação, já percebemos que a serotonina está envolvida em diversas funções cerebrais.

No Sistema Límbico, relacionado às nossas emoções e funções como a formação de memórias, a serotonina age principalmente na Amígadala e no Hipocampo. Na Amígdala, ela atua no processamento das emoções negativas, como o medo e às ameaças. Lembrem que a Amígdala é basicamente um sistema de alarme do nosso cérebro.

No hipocampo, a serotonina está relacionada à formação de memórias emocionais, papel esse que também tem uma grande participação da Amígdala (experiências que nos fazem sentir mais, possuem uma chance muito maior de se tornarem memórias de longo prazo), além de participar da função muito interessante de dar contexto às experiências, como se ajudasse a dar sentido (integrar informações) da experiência que estamos vivendo nesse momento.

No córtex pré-frontal, esse neurotriansmissor magnífico está por trás de funções como as tomadas de decisões, o controle cognitivo e a regulação emocional frente às experiências.

Agora, conseguem enxergar um pouco melhor como uma queda grande de serotonina está sim por trás dos sintomas característicos da depressão?

E a Dopamina?

Já pensou em prazer, né?

E sim, ela está relacionada e é um dos principais sistemas relacionados ao prazer no nosso cérebro, que inclui áreas como o Núcleo Accumbens, o Córtex Pré-frontal e o Estriado. Esse circuito é chamado de Via Mesolímbica.

Mas dopamina é igual a prazer? Não especificamente, pois ela esstá mais relacionada a motivação (o querer algo), na antecipação de recompensas (como o que sinto quando estou escolhendo qual hambúrguer vou pedir) e no aprendizado por reforço.

Os prazeres imediatos atuam na liberação de dopamina, nesse mesmo sistema, como as curtidas notificações e novidades que aparecem na tela dos nossos celulares constantemente. Isso acontece porque nosso cérebro adora recompensas rápidas e aquela questão da imprevisibilidade, tipo o que conseguimos em um cassino, ou no perigoso tigrinho.

Isso, por si só, já explica muito sobre a criação de hábitos tóxicos como os vícios, principalmente nesse tipo de jogo, ainda mais pela imprevisibilidade ser a possibilidade de se ganhar dinheiro, mas também no uso de substâncias, como a cocaína.

Aliás, no longo prazo, os efeitos do uso constante de cocaína sobre a dopamina cerebral leva a uma desregulação onde, basicamente, só mais cocaína vai suprindo, inclusive essa constância diminui a capacidade da pessoa optar por não usar (lá na tomada de decisão do córtex pré-frontal).

Neurotransmissores e as regiões onde atuam, com seus variados papéis influenciando nos nossos comportamentos e cognição, explicam tranquilamente inúmeros dos sintomas e características de transtornos psicológicos, hábitos, vícios...

Neurociência é vida, assim como terapia! 
Estudem e façam, rs.

Bons estudos!

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