Plantando Ciência — Prof. Dr. Bruno Damião
Bom dia, meu povo!
Vamos fazer algumas reflexões sobre nossa Ansiedade?
Deixa eu começar com uma pergunta: quando foi a última
vez que seu corpo acelerou sem pedir licença?
E quando digo acelerou, quero dizer: coração disparado
antes da reunião, estômago apertado ao abrir o e-mail, cabeça rodando o pior
cenário na noite anterior a um dia completamente comum.
Se a sua resposta foi “hoje”, esse texto é para você.
Senta aí e bora entender o que está acontecendo dentro
da sua cabeça.
O cérebro que hoje te faz sofrer antecipando o boleto
é o mesmo que mantinha nossos antepassados vivos. A base da ansiedade é a resposta
do medo, e basicamente serve para nos manter vivos e ajudar a formar memórias
das experiências marcantes (aprendizado forçado, eu diria).
Já falamos sobre isso aqui no blog, mas desde 2017, o
Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo pela Organização Mundial da
Saúde.
E se traduzirmos em números, fica ainda mais fácil de
entender: cerca de 9,3% da população — mais de 18,6 milhões de brasileiros,
sofrem com algum transtorno de ansiedade. O mais comum por aqui é o TAG,
transtorno de ansiedade generalizada.
E tem mais: 26,8% dos brasileiros já receberam
diagnóstico médico de ansiedade. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse número
passa de 31%.
O primeiro ano da pandemia aumentou em 25% a
prevalência global de ansiedade e depressão. O isolamento social e as perdas de
entes queridos serviram como um terreno fértil para a explosão de casos no
mundo.
Hoje, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com
algum transtorno mental, e os transtornos mentais são a segunda maior causa de
incapacidade a longo prazo.
Como a neurociência vem enxergando a Ansiedade?
Vamos por partes.
Medo é a resposta a uma ameaça presente. A barata que
apareceu do absoluto nada na sua frente. Ansiedade é a mesma resposta, mas
diante de uma ameaça antecipada — o cérebro simulando um futuro possível que
talvez nunca aconteça. Como um mecanismo de previsão.
E aqui está o ponto que muita gente esquece: esse
sistema é um dos mais antigos e conservados do cérebro.
Por centenas de milhares de anos, quem não sentia nada
diante do perigo não chegava para contar a história, descuido resultava em
morte, assim, nosso cérebro aprendeu a utilizar os cinco sentidos de uma forma
bem aguçada, para sentir o mundo à nossa volta, mas também para nos proteger!
A ansiedade, em doses certas, é uma herança do mecanismo
de defesa que nosso cérebro desenvolveu para chegarmos até aqui neste texto!
Então quando é que ela vira problema?
A diferença entre ansiedade normal e patológica não é
a existência da ansiedade — todo mundo sente.
É a intensidade, a duração e o prejuízo funcional. É
quando ela deixa de ser apenas uma resposta de sobrevivência e passa a
atrapalhar suas experiências e sua saúde mental.
É como se o alarme disparasse sem ameaça real, grita
alto demais em momentos onde não existe necessidade de um grito tão alto e
nunca desliga. O problema é que isso custa caro demais para nossa saúde física
e mental.
Podemos dizer
que é um problema de calibragem
Para falar sobre a calibragem, precisamos entender
quais as áreas envolvidas na resposta de medo e ansiedade.
O sistema límbico é uma das grandes chaves da nossa
reflexão e inclui regiões como a amígdala, o hipocampo, o giro do cínguloe o
hipotálamo (dentre várias outras).
Basicamente, uma rede inteira conversando sobre
emoções, sobrevivência e aprendizado.
E a neurociência atual olha menos para estruturas
isoladas e mais para os circuitos: o que importa é como essas áreas se
comunicam.
Bonito, né?
Na amígdala, vale conhecer os núcleos: o basolateral
integra informação sensorial e emocional; o central coordena a expressão das
respostas de defesa; o corticomedial faz a conexão com sinais, inclusive os
olfativos.
É por isso que um cheiro pode te jogar numa lembrança
de volta pro passado em meio segundo. Por isso que cheiros estão diretamente
relacionados a memórias carregadas de emoção.
E o alarme conversa com o corpo pelo eixo HPA: o
hipotálamo libera CRH, a hipófise anterior responde com ACTH, a adrenal secreta
o cortisol na circulação sanguínea — resultado? Corpo entra em modo de luta ou
fuga.
Coração acelera, respiração encurta, digestão pausa, músculos
e cérebro passam a receber mais sangue e mais combustível. Porém, no caso da
ansiedade, é basicamente o corpo se preparando para correr de um leão que não
existe.
A clássica batalha entre razão e emoção
Espera, deixa eu falar isso de uma forma mais clara, porque aqui seria basicamente o coração da nossa reflexão de hoje: a ansiedade é descrita hoje como um desequilíbrio entre um sistema emocional acelerado — a amígdala — e um sistema de freio (regulador) enfraquecido — o córtex pré-frontal.
O acelerador e o freio. Só que o freio está com o
disco gasto.
A amígdala não é apenas o “centro do medo”.
Ela é uma detectora de saliência emocional — responde
ao que é emocionalmente intenso, positivo ou negativo.
Ela não sabe se é perigo ou êxtase, alegria ou
felicidade: ela sabe que é importante. E grita.
O córtex pré-frontal ainda tem subdivisões com papéis
diferentes e que fazem bastante sentido para nosso entendimento:
- O ventromedial cuida da regulação emocional, da
empatia e da redução do medo.
- O dorsolateral cuida da concentração, do raciocínio
lógico e da reavaliação racional — o famoso “deixa eu pensar com calma” ou “contar
até 10”.
- O orbitofrontal processa recompensa, punição e
avaliação social, ou seja, o medo do julgamento alheio passa por aqui.
A ciência recente deixou claro: o problema não está só
nas estruturas, está na comunicação entre elas — a conectividade funcional.
O buraco é mais embaixo: quando o freio e o acelerador
não conversam bem, o resultado na prática é impulsividade, crises de ansiedade,
explosões emocionais, pensamentos catastróficos e aquela dificuldade cruel de
desligar a mente na hora de dormir.
De onde vem tudo isso?
Olha, a evidência clássica vem de animais: macacos com
lesão da amígdala apresentam perda da resposta de medo — o quadro conhecido
como Síndrome de Klüver-Bucy.
Camundongos que produzem mais CRH aumentam
comportamentos ansiosos; camundongos sem receptor de CRH diminuem.
Deixemos claro: são modelos animais, evidência
experimental valiosa, porém, não são idênticos a circuitos cerebrais humanos, mas
ajuda muito no entendimento e no desenvolvimento de melhores tratamentos para o
nosso próprio cérebro.
Isso é genético?
Genético e ambiental já apresentaram seus papéis no desenvolvimento
dos transtornos de ansiedade, basicamente, os dois juntos.
A experiência reforça o circuito estímulo-resposta.
Um exemplo ilustrativo sensacional: policiais
veteranos do BOPE mostraram respostas de cortisol e adrenalina adaptadas ao
contexto extremo que vivem — o corpo aprendeu a resposta daquele ambiente. Ou
seja, muitos nem apresentam cortisol elevado nas dosagens sanguíneas, se
adaptaram ao estresse, inclusive a nível endócrino.
Isso é ilustração de adaptação ao contexto, não regra
geral para ninguém.
E tudo culpa da neuroplasticidade.
Neurônios que disparam juntos se conectam. Um cérebro
que repete estresse todos os dias constrói circuitos de estresse. Um cérebro
que dispara com ansiedade a qualquer coisa vai reforçando esse padrão para
todas as nossas coisas. Pense como isso é fantástico — e assustador: o mesmo
mecanismo que te prende na ansiedade é o que pode te tirar dela, rs
A ciência já sabe sobre como amenizar
essa ansiedade?
Importante considerar, antes de começar esse tópico, que existe uma diferença enorme entre amenizar a ansiedade no momento onde a crise ataca, que seria curto prazo, e tratar ansiedade no longo prazo, para ter uma qualidade de vida melhor.
No curto prazo, algumas ferramentas ajudam a desligar
o alarme no momento: exercício aeróbico agudo, respiração para apoiar a
regulação autonômica, sono, e pausa digital — porque a sobrecarga de informação
e as micro-ameaças que a amígdala processa o dia inteiro não são de graça.
Cada informação extra, cada reels aleatório, cada nova
foto ou notícia, podem ser vistos como ameaças para um cérebro ansioso.
No longo prazo, o que muda o jogo?
O exercício físico regular aumenta o BDNF e melhora a
regulação emocional — a evidência atual trata o exercício como indispensável no
tratamento dos transtornos de ansiedade. Não adianta fazer cara feia: mexer o
corpo é intervenção de verdade, e os tratamentos para transtornos de ansiedade
envolvem terapia, medicamentos quando são necessários e exercício físico!
A psicoterapia é uma frente com respaldo.
A terapia cognitivo-comportamental tem forte base de
evidência; a psicanálise, por sua vez, é uma via valiosa de autoconhecimento.
E a nível biológico o básico: sono regular,
alimentação equilibrada e conexão social sustentam tudo o que veio antes, e
servem para deixar o cérebro menos ansioso.
Práticas complementares, como meditação e acupuntura,
podem ajudar algumas pessoas, assim como outras técnicas alternativas
relacionadas à medicina chinesa e oriental de uma forma geral.
E um aviso sobre farmacologia que muita gente precisa
ouvir: o álcool e os ansiolíticos agem no mesmo receptor, o receptor GABA. Por
isso a taça à noite “relaxa”. Mas o alívio do álcool não é tratamento — é
empréstimo com juros altíssimos.
Então, o que realmente pode ajudar?
1. Proteja o sono como compromisso inegociável. Horário para dormir, tela longe da cama, quarto escuro. O sono é quando o cérebro faz a manutenção da calibragem do alarme.
2. Movimento todos os dias, mesmo que leve. Vinte a
trinta minutos de caminhada já mudam a química do cérebro. Não precisa ser suoer
intenso, precisa ser frequente.
3. Escolha uma hora do dia para ficar offline. Uma
hora. Sem notificação, sem manchete, sem comparar a sua vida com a de ninguém.
E se o sofrimento já tomou conta do sono, do apetite,
das relações e do trabalho, a terapia existe exatamente para isso. Buscar ajuda
é cuidado, não fraqueza.
Por fim, deixa eu te contar uma coisa: o Manual do
Cérebro Ansioso é o meu primeiro livro. Nele, explico como funciona o cérebro
ansioso, ajudo a diferenciar ansiedade normal de ansiedade patológica, trago
reflexões e finalizo com dicas baseadas em neurociência — pequenos hábitos que
mudam a rotina — tudo em linguagem simples, em mais de 130 páginas.
O livro é uma porta de entrada para entender esse
alarme e recalibrá-lo.
Ele está disponível no link da bio do meu Instagram e
no canto superior esquerdo do blog: https://pay.kiwify.com.br/LpKXoh6
Boas reflexões e até a próxima!

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