Bom
dia, pessoal!
No
Papo de Consultório 3 nós falamos sobre transferência, e podemos resumir com
dois exemplos que provavelmente já afetaram você: como o cérebro usa as
experiências do passado para prever como as pessoas vão se comportar com você,
e como às vezes você não reage a quem está na sua frente e suas atitudes, mas a
alguém que já não está mais na sua frente.
Hoje,
antes de avançarmos, quero puxar um fio que ficou solto desde o texto da
Projeção.
Lembra
quando eu disse que Freud descreveu a projeção como um dos mecanismos de
defesa do ego?
Pois
é.
A
projeção é um integrante, mas não é o único. E se a gente olhar o elenco
completo dessa lista, começa a fazer muito mais sentido agirmos de certas
formas sem entender nada do que está acontecendo.
Tipo aqueles pensamentos, comportamentos e respostas automáticas que damos e que, na esmagadora maioria, mais nos atrapalham do que nos protege!
Então
o tema de hoje engloba todos esses integrantes, que podemos chamar de: os mecanismos
de defesa.
O que são mecanismos de defesa?
A ideia central é simples e, ao mesmo tempo, um pouco desconfortável: quando um sentimento, um pensamento ou uma lembrança é forte demais para ser sentido, a mente não apaga esse conteúdo.
Ela
o transforma, quer você lembre dele ou não!
Freud
chamou esse movimento de Abwehr, que significa defesa, e Anna Freud, sua
filha, foi quem organizou esses processos em um catálogo formal no clássico O
Ego e os Mecanismos de Defesa, de 1936.
A
lógica é sempre a mesma: trocar um sofrimento grande por um incômodo menor.
A
mente, literalmente, dá um jeito.
O
detalhe importante: não é hipocrisia e não é escolha consciente. Ninguém decide
usar defesa, como ninguém decide piscar. É automático. E por ser automático,
funciona bem demais... até virar o problema.
Esses
são os mais frequentes no consultório:
Repressão:
empurrar o conteúdo doloroso para o inconsciente. A memória não desaparece, mas
sai do alcance consciente. É a defesa-mãe, aquela que sustenta todas as outras.
Negação:
recusar aceitar uma realidade óbvia. "O exame deve ter dado errado."
"Ele não é assim, é só estresse." O mundo diz uma coisa, a mente ouve
outra. Esse nos faz, muitas vezes, permanecer em relacionamentos, trabalhos,
locais, que se analisarmos conscientemente, não fazem nenhum sentido!
Racionalização:
encontrar explicações elegantes e lógicas para decisões movidas por emoção.
"Eu recusei a vaga porque não valia a pena mesmo." Não valia a pena,
ou a rejeição dói menos que ser rejeitado?
Deslocamento:
transferir a emoção do alvo verdadeiro para um alvo mais seguro. Você é cobrado
com dureza no trabalho e chega em casa gritando com o filho por causa de um
copo fora do lugar. O copo não foi o problema.
Anulação:
fazer ou dizer algo que "desfaz" simbolicamente um pensamento
inaceitável. A pessoa que xingou o motorista no trânsito e logo depois está
super gentil com todo mundo, como se o gesto compensasse o anterior.
Isolamento:
separar a lembrança do sentimento que a acompanha. A pessoa narra um evento
difícil no passado com todos os detalhes e com a voz totalmente plena, como se
estivesse lendo a lista de compras. O conteúdo está lá, a emoção foi
desconectada.
Sublimação:
o único que costuma ser considerado maduro. É transformar o impulso inaceitável
em algo socialmente valioso. A agressividade vira esporte de luta, a obsessão
vira pesquisa, a angústia vira arte.
E,
claro, a projeção, que já conhecemos: colocar no outro o que é meu e não
consigo ver em mim.
Repare
em uma coisa: a Sombra, do Papo 1, e a transferência, do Papo 3, são
atravessadas por esse catálogo.
A
Sombra existe porque a repressão empurrou o conteúdo para debaixo do
tapete. A transferência ganha força porque deslocamentos e repetições
antigas viram o modelo com o qual lemos o presente. O catálogo não é um
capítulo isolado. Ele é o motor atrás de tudo que já conversamos aqui.
Um exemplo de dentro do consultório:
Sessão
1
Marta
(nome fictício) chega falando sobre o término de um namoro de cinco anos, que
aconteceu há oito meses.
—
Eu superei, doutor. Foi a melhor coisa que podia ter acontecido. Já nem lembro
direito de como era, sinceramente.
E
ela fala do término inteiro... sem sentir nada.
Narra
detalhes com precisão cirúrgica e afeto zero. Eu escuto e percebo o tom plano:
é o isolamento em ação, a lembrança desconectada da dor.
Sessão
2
Marta
apresenta a uma pessoa que foi sua melhor amiga, e se posicona contra a
ex-melhor amiga, que "se afastou dela na hora em que mais precisava".
—
Aí, quando o meu ex terminou, ela nem apareceu. Eu acho um absurdo. Pior amiga
da minha vida, meu Deus.
Eu
pergunto, com calma, o que aconteceu antes disso.
Ela
pensa um pouco e admite: depois do término, passou três meses praticamente sem
responder ninguém, cancelou tudo, se isolou. A amiga tentou contato várias
vezes. Ou seja: foi ela quem sumiu primeiro. O que ela sente é a própria culpa
inaceitável, empurrada para fora e transformada em acusação. Projeção,
vocês já sabem.
Sessão
3
Marta
conta que recusou uma oportunidade de emprego em outra cidade. Justificativa:
"Os custos eram altos, a empresa não era confiável, eu ia me
arrepender."
Quando
eu pergunto se ela pesquisou os números de verdade, ela para. E depois, num fio
de voz:
—
Eu não ia aguentar começar de novo. Do zero. De novo.
A
racionalização veio primeiro, porque doía menos do que admitir o medo. E repara
que ela nem sabia que estava com medo: a defesa esconde o conteúdo até de quem
usa.
Marta
não estava "fingindo" em nenhuma dessas sessões. Ela era sincera em
cada uma delas. Isso é o mais importante do texto de hoje: a defesa engana o
próprio usuário.
E
o papel do consultório, no fundo, é fazer com que esses processos automáticos
voltem a ser vistos, nomeados e, eventualmente, escolhidos em vez de apenas
executados.
E a neurociência, o que diz sobre isso?
Jung
não tinha ressonância magnética, é claro, rs.
Mas
a neurociência moderna tem uma forma interessante de enxergar esse fenômeno,
não como "defesas", mas como regulação emocional.
A
pesquisa contemporânea nessa área, em especial os estudos sobre reavaliação
cognitiva e supressão, mostra duas coisas fundamentais.
A
primeira: quando suprimimos uma emoção (a tentativa consciente de não sentir),
o córtex pré-frontal dorsolateral, o grande maestro executivo do cérebro,
aumenta sua atividade para "frear" regiões como a amígdala.
Funciona
no curto prazo, mas há um custo: a fisiologia do estresse continua lá embaixo,
e a carga cognitiva aumenta, o que piora a memória e a flexibilidade de
pensamento. Em outras palavras, reprimir custa caro para nosso cérebro.
A
segunda: quando usamos reavaliação (reformular o significado de uma situação),
o mesmo circuito pré-frontal ativa, mas o custo é menor e a amígdala acalma de
verdade.
A
defesa racionalizada, aquela história que a mente conta para justificar a
decisão emocional, é uma tentativa automática e primitiva de reavaliação. Só
que feita às escondidas, com a versão que dói menos.
Há
ainda um ponto sobre a memória: experiências emocionalmente intensas são
priorizadas pela amígdala na consolidação da memória, via influência do eixo do
estresse e do hormônio cortisol. Quando a experiência foi traumática demais, o
sistema que deveria "registrar e aprender" pode, na prática,
fragmentar ou dificultar o acesso a essa memória, algo que psicologia e
psiquiatria reconhecem em condições como o transtorno de estresse
pós-traumático.
O
mecanismo freudiano da repressão e o que hoje chamamos de falha no
acesso consciente à memória emocional não são a mesma coisa, mas caminham lado
a lado.
Ou
seja: o que Freud descreveu com a intuição clínica dele, a neurociência enxerga
hoje em circuitos. A mente protege você da dor usando estratégias caras, e o
preço é pago depois, em forma de padrões repetidos, relacionamentos quebrados e
emoções que aparecem em lugares errados, como o copo fora do lugar na cena do
deslocamento. E nessa linha de pensamento, seriam essas as bases mais prováveis
do desenvolvimento dos transtornos mentais.
Para fechar
Os
mecanismos de defesa não são defeitos de fabricação. São soluções inteligentes
que a sua mente criou, muito provavelmente quando você era criança e não tinha
outras ferramentas, para sobreviver emocionalmente a algo que estava além da
sua capacidade naquele momento.
O
problema é que elas não expiram sozinhas. A defesa que te salvou aos dez anos
pode estar te custando caro aos quarenta, mais atrapalhando sua vida do que te
ajudando!
Então
a pergunta prática da semana é: qual emoção você sente com mais dificuldade?
Raiva? Tristeza? Vergonha?
A
partir da resposta, repare nos seus dias. Existe uma defesa trabalhando ali,
provavelmente em tempo integral, para que você não precise sentir.
E
se a porta que você precisa abrir estiver pesada demais, lembre-se: a terapia
existe exatamente para te ajudar a abrir essa porta com cuidado, no seu tempo,
com alguém do lado. Inclusive, se precisar, o link do meu consultório online na
Doctorallia está aqui no blog ou no link da bio do instagram!
Até o próximo Papo de Consultório, meu povo.

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