terça-feira, 9 de junho de 2026

Por que a liberdade assusta?

Bom dia, pessoal!

Hoje tive o prazer de participar do quadro: Cá entre nós!

De uma profissional que admiro e acompanho a um bom tempo, a Camila Manga. Inclusive, muito obrigado pelo convite, Cá.

E o tema da live?

“O que fazer quando a liberdade assusta?”

Para refletirmos melhor sobre o assunto, dividi a discussão em cinco pontos principais, começando pelo mais neurobiológico deles:


 

1. O cérebro prefere previsibilidade

Nossos ancestrais precisavam caçar para obter alimentos, pasmem, não existia ifood em épocas antigas, rs.

Imagina ser difícil obter combustível e ter um cérebro extremamente potente, sedento por conhecimentos e aventuras, mas que gasta um combustível danado, tipo um superesportivo.

A conta não fechava e, para continuar se desenvolvendo sem fronteiras, o cérebro aprendeu a ser o mais econômico possível quando executa suas funções.

E aqui mora a biologia por trás da discussão de hoje: para gastar menos energia sendo tão “inteligente” quanto seu potencial, o cérebro constrói padrões e adora previsibilidade e zona de conforto.

Escolhas, principalmente quando existem diversas opções, implicam incertezas.

Incertezas fazem com que o cérebro gaste mais energia para evitar erros, para nos manter vivos... Mais opções, maior gasto energético, mais trabalho para o cérebro.

Resultado? Melhor evitar e se manter no fluxo normal dos hábitos e padrões.

Mas, diante do catálogo da Netflix ou das dezenas de opções do rodízio da churrascaria (ou do japonês), frente à liberdade, o cérebro enxerga:

  • múltiplas possibilidades;
  • ausência de garantias;
  • responsabilidade pelas escolhas;
  • imprevisibilidade dos resultados.

 

Do ponto de vista neural, isso aumenta a incerteza.

E incerteza costuma ativar circuitos relacionados à vigilância e à ansiedade.

Ou seja, biologicamente falando, escolhas causam medo. É inevitável, rs.

 

2. Mais opções nem sempre significa mais felicidade

Já ouviu falar sobre: paradoxo da escolha?

Quando temos poucas opções, escolhemos e seguimos em frente. Tipo quando seu parceiro ou sua parceira diminui as opções de hambúrguer para duas hamburguerias, agilizou absurdamente sua vida.

Quando temos muitas opções nosso cérebro começa a trabalhar com questões mais complexas do que apenas escolher e pronto, ele precisa analisar fatores como:

  • aumento do medo de errar;
  • arrependimento potencial – achei fantástico esse termo, porque quanto mais opções eu tenho, maior a impressão de que posso mais errar do que acertar. Psicologicamente péssimo;
  • aumenta a comparação entre alternativas.

 

O resultado pode ser justamente uma sensação de paralisia, travar frente tantas opções.

Pensando no self-service, normalmente é quando colocamos 5 tipos de mistura no prato, porque queria provar todas (mesmo sem a menor necessidade e, muitas vezes, sem nem fome para isso – vale olhar isso aqui: comer-com-os-olhos)

A liberdade absoluta pode se transformar em peso.

 

3. A responsabilidade assusta

Do ponto de vista psicológico, quando alguém está preso a uma regra rígida, uma tradição ou uma autoridade, parte da responsabilidade pela decisão pode ser atribuída a algo externo.

É o que comentei na live: quando minha rotina era definida pelos meus pais, com a escola ocupando parte do meu dia, refeições prontas e acontecendo sempre na mesma faixa de horário, dentre inúmeras outras coisas da rotina daquela época, meu cérebro não precisava se preocupar com inúmeras escolhas importantes do meu dia, podendo ser mais criativo, mais imaginativo – talvez até construindo uma ideia errônea de que liberdade em demasia é sempre maravilhoso.

Mas quando a pessoa é verdadeiramente livre, ela se torna autora das próprias escolhas, ou seja, aumenta drasticamente a responsabilidade pelos resultados que serão colhidos daquela escolha.

Senti uma pontada de ansiedade aqui, só de lembrar de todas as responsabilidades que tenho atualmente, rs.

A neurociência social mostra que regiões como o córtex pré-frontal medial estão envolvidas na autorreferência e na avaliação das consequências das próprias decisões. Que, coincidentemente, também é uma das regiões envolvida no controle das nossas emoções, um caminho que conhecemos com inteligência emocional.

Consegue entender melhor agora, como nossas emoções influenciam nas nossas escolhas?

 

4. Para o cérebro: segurança é mais importante que prazer

Uma descoberta importante das últimas décadas é que o sistema nervoso não trabalha prioritariamente para buscar felicidade, isso foi uma ideia maligna construída por nós mesmos.

O cérebro trabalha para garantir sobrevivência.

Por isso muitas pessoas permanecem:

  • em relacionamentos ruins;
  • em empregos insatisfatórios;
  • em hábitos prejudiciais.

 

Não porque gostem deles. Mas porque são locais seguros, mesmo que seja uma possível falsa segurança, como a Camila colocou muito bem na live.

O conhecido gera previsibilidade. O desconhecido gera ativação fisiológica, e, nesses casos, a ativação fisiológica é a famosa resposta do medo, base dos nossos anseios mais comuns.

Nesse sentido, a liberdade pode ser vivida como uma ameaça biológica antes de ser experimentada como uma oportunidade. Análise de risco!

 

5. O desenvolvimento humano exige tolerar a incerteza

Talvez a reflexão mais interessante seja:

A maturidade não consiste em eliminar o medo da liberdade. Ela consiste em desenvolver recursos para agir apesar dele.

Do ponto de vista neurobiológico, isso envolve o fortalecimento de circuitos relacionados à regulação emocional, especialmente as conexões entre regiões pré-frontais e estruturas límbicas como a amígdala.

Ou seja, não é que pessoas maduras sintam menos incerteza. É que elas desenvolveram ferramentas e conseguem sustentar a incerteza por mais tempo sem fugir dela.

E aqui, meu amigo, só a terapia e o autoconhecimento podem te ajudar!

Um comentário:

  1. Excelente reflexão da analise do celebro humano na nossa atualidade. Onde o consumo vem a frente de tudo e a exposição a grandes informações diárias e facilidades do dia dia.
    Como dito o celebro humano sempre vai procurar a economia e atalhos em tudo e por conta disso que estamos em uma era onde encontramos de tudo fácil como comida, bebidas, prazeres, lazeres, jogos e etc (vícios no geral). E é onde entra as doenças psicossomática. E é neste ponto que quero dialogar. Porque existe a evolução humana? Somos únicos num universo? Minha vida termina quando moremos? Deus existe? Jesus viveu mesmo?
    Se existir egoísmo em qualquer uma das suas resposta não faria sentido evolução da espécie humana. O celebro "preguiçoso" é o que determina a evolução. Se lá atrás ele era preguiçoso morria de fome e hoje se é preguiçoso morre de doenças psicossomática. Veja que ambos leva a morte, superar ela, por mais tempo ela é evoluir para a próxima (vida ou outras vidas). Se pensar ganhamos a batalha da "Segurança" em comida e sobrevivência. Hoje vivemos a segurança e o que devemos agora começar a pensar, qual próximo passo? Eu vejo que agora, mais que doque antes é obter o autoconhecimento. Sofrera mais e mais aqueles que ficarem para trás. Portanto o papel que fizeram hoje deve e deverá acontecer cada vez mais para levar essas informações a diante. Começar fazer as pessoas pensar mais e mais em si mesmas e tentar responder aqueles questões acima.
    A ansiedade é um grão do reflexo de que não estamos pensando em nós, ou seja, deixando ser levados por influências alheiras.

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