Boa tarde, pessoal!
Essa é a segunda matéria onde
estamos atualizando alguns conhecimentos sobre a relação do sistema límbico com
o córtex pré-frontal, sempre buscando entender melhor as fontes da nossa
ansiedade.
Recomendo começar por
aqui:
https://plantandociencia.blogspot.com/2026/05/a-batalha-entre-razao-e-emocao-dentro.html
A mudança de papéis da
amígdala (alias, uma atualização de funções, porque acrescentamos algumas, rs),
nos últimos anos, nos permite enxergar de uma forma totalmente diferente como percebemos
a carga emocional das experiências que usufruímos através dos nossos cinco
sentidos.
De centro do medo (o que
ela é), a Amígdala passou a ser vista como uma detectora de saliências
emocionais, que além de ser um termo belíssimo, significa que a Amígdala é a
responsável por perceber e interpretar tudo o que sentimos em cada experiência,
seja coisas positivas ou negativas.
E para que serve isso?
Para mostrar para o nosso
cérebro o que de fato merece atenção naquele momento, conversa essa que a
amígdala tem com o córtex pré-frontal para, além de voltar o foco, ter a análise
consciente para a tomada de decisões.
E é aqui que novamente puxamos
o gancho clínico com a Ansiedade. Até pouco tempo, a ciência acreditava que a
amígdala hiperexcitada, reconhecendo perigo onde não tem e deixando nosso
cérebro em constante alerta (gerando ansiedade) era a principal responsável.
Ela participa, sem dúvida alguma, mas agora sabemos que o córtex pré-frontal
costuma estar menos ativos nos transtornos de ansiedade.
Ou seja, a resposta
emocional da amígdala excitada demais encontra o córtex pré-frontal, que é o
único capaz de acalmá-la, mais fraco que o normal. O medo vence a razão, a
ansiedade tem um terreno extremamente fértil para crescer e se desenvolver.
Mas, continuando o conteúdo
da primeira parte:
Córtex Pré-Frontal: algo
como o freio emocional do cérebro
É aqui que entra o córtex
pré-frontal, nessa relação toda.
Embora não faça parte do
sistema límbico, ele possui conexões intensas com essas estruturas emocionais.
E, ele possui funções fantásticas, como:
- planejamento
- tomada de decisão
- atenção
- controle de impulsos
- pensamento racional
- regulação emocional
Ele funciona como um
sistema de modulação emocional, porque abusa mais da cognição para tomar
decisões. Menos impulsivo, mais analítico. Lembra da história de contar até 10
antes de responder? Uma boa margem de tempo para o sistema límbico acalmar e o
córtex pré-frontal refletir sobre uma melhor resposta!
Em outras palavras:
A amígdala reage
rapidamente e o córtex pré-frontal avalia se aquela reação faz sentido.
Emoção vs Razão: o modelo
moderno da ansiedade
A neurociência atual
descreve a ansiedade como um desequilíbrio entre dois sistemas:
Sistema emocional com a
Amígdala!
Sistema regulador com o
córtex pré-frontal!
Amígdala responde rápido,
relacionada à resposta de medo, sempre visando manter nossa saúde, nos deixar
vivos frente aos perigos (mesmo que eles não existam de verdade, rs). O córtex
pré-frontal analisa se isso tudo realmente faz sentido, ou você nunca notou
que, após disparar o coração em uma cena do filme de terror, logo ele
desacelera e volta ao seu ritmo normal?
Nesse exemplo, o perigo
identificado pela amígdala durante o susto com o filme dispara a resposta para
preparar o corpo para lutar ou fugir, mas quando a amígdala conta o que aconteceu para o córtex pré-frontal, ele
percebe que não existe um perigo real, e começa a trabalhar para tudo voltar ao
normal, num estado de tranquilidade para continuar aproveitando o filme.
Quando o córtex
pré-frontal perde eficiência, a amígdala passa a dominar o funcionamento
emocional. E ai, as emoções tomam conta, mesmo que não faça muito sentido.
Repetindo a expressão
usada no começo da matéria: terreno absurdamente fértil para a ansiedade.
O que nos ajuda a explicar:
- impulsividade
- crises de ansiedade
- explosões emocionais
- pensamentos catastróficos
- dificuldade de “desligar” a mente
E para complementar os
avanços no conhecimento sobre o tema, é definida pelo termo Conectividade funcional.
O problema não está
apenas nas estruturas isoladas. O problema pode estar na comunicação entre
elas. Podemos traduzir isso como: o buraco é mais embaixo!
Esse é o conceito de conectividade
funcional
Exames modernos de
neuroimagem mostram que pessoas com ansiedade frequentemente apresentam: maior
ativação da amígdala, menor conectividade com o córtex pré-frontal resultando
em dificuldade de regulação emocional
Ou seja:
o “freio” cerebral perde
força.
O córtex pré-frontal é
fantástico, e podemos dividir ele em algumas áreas que já conhecemos bem:
Córtex Pré-Frontal
Ventromedial (vmPFC)
Relacionado à:
- regulação emocional
- empatia
- redução do medo
Córtex Pré-Frontal
Dorsolateral (dlPFC)
Relacionado à:
- concentração
- raciocínio lógico
- reavaliação racional das emoções
Córtex Orbitofrontal
(OFC)
Relacionado à:
- recompensa
- punição
- avaliação social
Essas regiões trabalham
juntas constantemente para modular nossas respostas emocionais.
Mas no final da história,
o que tudo isso significa para a clínica em torno da Ansiedade?
A amígdala percebe as
saliências emocionais para facilitar a vida do córtex pré-frontal para saber
onde focar a atenção naquele momento. Além disso, ele analisa cognitivamente se
a proposta da amígdala faz sentido, evitando estresse desnecessário.
Aqui conversam dois
pontos que são cruciais para a formação das memórias no nosso cérebro! Atenção
e carga emocional!
Tudo que prestamos atenção
e nos faz sentir algo tem maior probabilidade de ser registrado como memória de
longo prazo. Imagina um cérebro que, por anos, as vezes por décadas, trabalhou
com uma amígdala hiperativa e um córtex pré-frontal hipoativo. Registrou todos
os episódios da vida, basicamente, sob o olhar da ansiedade, sob o olhar mais
voltado para o modo de defesa, para a cautela...
Agora, imagina se o
episódio que disparou tudo isso foi lá na infância, a vida literalmente foi
construída nesse modo, basicamente TUDO e TODOS os caminhos percorridos com
frequência pelo cérebro, todos os hábitos, comportamentos, derivam de um
cérebro mais assustado, mais ansioso.
Deu para entender melhor,
agora, o porque usei a expressão maravilhosa de que o buraco é bem mais
embaixo?
Boas reflexões!
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