Câncer de mama: da
anatomia normal ao desenvolvimento da doença
Introdução
O câncer de mama é a
neoplasia maligna mais frequente entre as mulheres em praticamente todo o mundo
e representa um dos maiores desafios da saúde pública.
Apesar dos avanços no
diagnóstico precoce e nas terapias modernas, continua sendo uma importante
causa de mortalidade, principalmente quando identificado em estágios avançados
(talvez um dos maiores problemas relacionados à taxa de óbitos da maioria dos
tumores malignos – entende a importância de realizar pelo menos um check-up
anual?).
Só no Brasil, segundo o
Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados aproximadamente 73.610
novos casos de câncer de mama por ano!!!!
Esses dados foram
estimados para o triênio 2023–2025, correspondendo a um risco estimado de cerca
de 66 casos para cada 100 mil mulheres.
O câncer de mama é o mais
incidente entre as mulheres brasileiras, excluindo os tumores de pele não
melanoma. Além disso, permanece como uma das principais causas de morte por
câncer na população feminina brasileira.
Criei uma imagem para que
você possa enxergar melhor:
Mas o que ela realmente está te contando?
Entre todos os novos
casos de câncer estimados para mulheres (desconsiderando o câncer de pele não
melanoma), cerca de 30% serão de mama.
A distribuição seria
aproximadamente:
- Mama: 30.100 casos (30,1%)
- Cólon e reto: 9.000 casos (9,0%)
- Pulmão: 8.500 casos (8,5%)
- Colo do útero: 6.500 casos (6,5%)
- Tireoide: 4.500 casos (4,5%)
- Demais tipos de câncer: 41.400 casos
(41,4%)
Esses números não
significam que 30,1% das mulheres desenvolverão câncer de mama.
Eles indicam que, entre
todos os novos casos de câncer estimados para mulheres no Brasil (excluindo o
câncer de pele não melanoma), aproximadamente 30,1% serão câncer de mama.
Mortalidade
Segundo o Ministério da
Saúde, aproximadamente 18 mil mulheres morrem por ano em decorrência da
doença no país, número que varia discretamente conforme a atualização anual das
estatísticas oficiais.
Aqui entra o parênteses
que coloquei nos primeiro parágrafos.
Exames recorrentes, e
pode até ser uma vez ao ano, mas acredito que ideal mesmo seria semestral (e
não, eu não faço a cada seis meses, faço anual).
Mas qual o ponto em
acompanhar, pelo menos anualmente, como está a biologia do seu corpo? Seu
perfil lipídico, suas enzimas hepáticas, marcadores variados, quase tudo que
precisa em um simples exame de sangue.
Salve casos extremamente
agressivos, normalmente, grandes doenças e grandes problemas de saúde não
surgem do dia para a noite.
Um exemplo claríssimo na
ciência é a aterosclerose. Todos nós sabemos que colesterol e LDL elevados
aumentam muito a probabilidade de você ter uma AVC ou um infarto agudo do
miocárdio. Mas sabe como isso acontece? As vezes em décadas de formação da
aterosclerose, que foi entupindo suas artérias dia após dia, ano após ano...
até culminar no infarto.
Acompanhando seu perfil
lipídico anualmente, você consegue trabalhar na regulação dele, diminuindo
drasticamente esses riscos. Simples, né?
Com o câncer de mama não
é diferente. Acompanhar anualmente os exames, incluindo os físicos, como o auto
toque, pode salvar a vida de muitas mulheres.
Da uma olhada nos dados
ao redor do mundo, e imagina como o conhecimento básico sobre o assunto pode
ajudar e muito a diminuir esses números (talvez nem tanto o de casos, mas o de
mortes com certeza).
De acordo com a World Health Organization:
- cerca de 2,3 milhões de novos
casos são diagnosticados anualmente;
- aproximadamente 670 mil mortes
ocorrem todos os anos.
Mas, e as causas?
Vou começar por uma das
perguntas mais comuns:
O câncer de mama é
hereditário?
Na maioria das vezes,
não.
Atualmente sabe-se que
aproximadamente:
- 5 a 10%
dos casos possuem origem claramente hereditária;
- 90 a 95%
surgem de forma esporádica, resultado do acúmulo progressivo de mutações
ao longo da vida.
Isso significa que a
maior parte dos tumores não é herdada dos pais, mas desenvolve-se em
consequência da interação entre predisposição genética individual,
envelhecimento e fatores ambientais.
Seus genes pesam bastante
aqui, mas na questão da propensão.
Os
genes mais conhecidos relacionados aos tumores de mama são: BRCA1, BRCA2, TP53,
PALB2, CHEK2 e ATM
Esses genes participam
principalmente do reparo do DNA.
Quando apresentam
mutações hereditárias, aumentam significativamente o risco de desenvolvimento
do câncer. Mulheres portadoras de mutações em BRCA1 ou BRCA2 podem apresentar
risco cumulativo superior a 60% ao longo da vida.
Fatores ambientais e
hormonais
Os fatores ambientais
possuem maior impacto populacional, quando consideramos os últimos 20 anos de
pesquisa e acompanhamento clínico.
Entre eles destacam-se os
clássicos, que aumentam a predisposição, ou seja, a chance de você ter uma
doença ou problema de saúde mais grave:
- envelhecimento
- obesidade
- sedentarismo
- consumo de álcool
- terapia hormonal prolongada
- primeira gestação tardia
- nuliparidade
- menarca precoce
- menopausa tardia
- exposição à radiação ionizante
Todos esses fatores
aumentam o tempo de exposição do tecido mamário aos estrogênios, favorecendo a
ocorrência de mutações celulares.
Anatomia normal da mama
Anatomia da mama normal
mostrando pele, aréola, mamilo, ductos lactíferos, lobos glandulares, lóbulos,
tecido adiposo, ligamentos de Cooper e músculos peitorais.
Podemos visualizar nessa
figura:
Histologia normal
https://anatpat.unicamp.br/lamgin21.html
Os lóbulos são
constituídos por ácinos, que por sinal, são as estruturas responsáveis pela
produção de leite.
Cada ácino apresenta duas
camadas celulares:
- células epiteliais luminais
- células mioepiteliais
Toda essa estrutura
repousa sobre uma membrana basal íntegra, característica fundamental para
diferenciar lesões benignas das malignas invasivas. O estroma é formado por
tecido conjuntivo, fibras colágenas, vasos sanguíneos e tecido adiposo.
Agora que você enxerga um
pouco melhor a estrutura da mama, como será que o câncer começa? Onde ele
começa?
Mais de 70% dos tumores
surgem nos ductos lactíferos.
Mas
também podem originar nos lóbulos e raramente no estroma
É por esse motivo que
existem:
- carcinoma ductal
- carcinoma lobular
Mas vamos mais afundo,
entendendo o desenvolvimento fisiopatológico do câncer de mama:
A primeira célula sofre
alterações genéticas, as famosas mutações.
Essas mutações podem
atingir genes que controlam:
- proliferação celular
- apoptose
- reparo do DNA
E aqui mora o grande
problema.
O controle de divisão
celular é, de longe, um dos mais rigorosos de todo o nosso organismo, porque
qualquer erro, vai gerar problema. Quando uma mutação afeta qualquer parte do
ciclo de divisão celular, pode acontecer uma proliferação descontrolada de células,
formando os tumores.
A célula deixa de
responder aos mecanismos normais de controle e passa a crescer
descontroladamente, sem freios.
Carcinoma in situ
O tumor permanece
limitado ao interior do ducto. A membrana basal ainda está preservada. Nesta
fase não existe metástase. Histologicamente essa diferença é muito interessante
para comparação.
Carcinoma invasivo
As células rompem a
membrana basal.
Invadem:
- tecido conjuntivo
- gordura
- vasos linfáticos
- vasos sanguíneos
Essa é a grande mudança
biológica da doença.
Em casos mais agressivos,
ocorre a metástase, que pode ser traduzida por o câncer invadindo novos órgãos
e regiões do nosso corpo, complicando bastante a situação clínica do paciente.
A disseminação ocorre
principalmente pelos vasos linfáticos.
Montei uma imagem para
ilustrar as alterações anatômicas mais comuns da mama:
Traduzindo essas alterações da imagem em palavras:
Conforme o tumor cresce e
se desenvolve podem surgir alterações anatômicas, como:
- nódulo endurecido
- retração da pele
- retração do mamilo
- espessamento cutâneo
- pele em "casca de laranja"
- ulceração
- aumento dos linfonodos axilares
Esses sinais decorrem da
invasão dos ligamentos de Cooper, vasos linfáticos e pele.
Comparação histológica
Traduzindo as alterações histológicas:
Mama normal
- ductos organizados
- membrana basal íntegra
- baixa atividade mitótica
- núcleos uniformes
Mama com carcinoma
- perda da arquitetura
- pleomorfismo celular
- hipercromasia
- figuras de mitose
- invasão estromal
- angiogênese
- infiltrado inflamatório
Uma outra questão, dentro desse tema, que aparece frequentemente nas perguntas dos alunos: E o tratamento? Funciona? Como acontece?
Tratamento
O tratamento depende do estado
clínico, do grau de desenvolvimento do tumor.
Pode envolver:
Cirurgia
- tumorectomia
- quadrantectomia
- mastectomia (retirada total da mama)
Aqui, vale refletir sobre como o problema e as cirurgias, principalmente a mastectomia, podem mexer com a visão que a mulher tem sobre si mesma, mexendo com algo muito delicado que é a nossa autoestima. Assim, fica mais fácil de você entender o porquê um acompanhamento terapêutico pode ser crucial no tratamento da doença.
Radioterapia - Utilizada
principalmente após cirurgia conservadora.
Quimioterapia - Indicada
conforme tamanho tumoral, comprometimento linfonodal e perfil molecular.
Hormonioterapia - Para
tumores receptores hormonais positivos.
Principais medicamentos: Tamoxifeno,
Anastrozol e Letrozol.
Terapia-alvo - Tumores
HER2 positivos.
Exemplo: Trastuzumabe
Essas terapias
revolucionaram o prognóstico dessa população. Imunologia clínica é uma linha
que vem absurdamente forte no tratamento de tumores. Ao meu ver, com o
conhecimento que tenho hoje, provavelmente essas técnicas serão o futuro dos
tratamentos.
Imunoterapia - Principalmente
para alguns casos de câncer triplo negativo avançado.
Prognóstico – ou, para
onde vai?
Quando diagnosticado
precocemente, as taxas de sobrevida em cinco anos ultrapassam 90% em
muitos grupos de pacientes.
O prognóstico depende
principalmente do estágio da doença (faça o check-up, não se esqueça), do
comprometimento linfonodal e das características moleculares do tumor.
Tumores localizados
apresentam excelente resposta ao tratamento, enquanto a presença de metástases
reduz significativamente as chances de cura, embora novas terapias tenham
melhorado a sobrevida e a qualidade de vida.
Para concluirmos:
O câncer de mama é uma
neoplasia complexa que resulta da interação entre fatores genéticos, hormonais
e ambientais. Seu desenvolvimento inicia-se com alterações moleculares em
células do epitélio mamário, evoluindo progressivamente para lesões invasivas
capazes de disseminar-se para outros órgãos.
A compreensão integrada
da anatomia, histologia e fisiopatologia permite entender por que o diagnóstico
precoce é tão importante e como os tratamentos modernos atuam de forma
personalizada conforme as características biológicas de cada tumor.
O cuidado contínuo continua sendo a melhor opção, não só no câncer de mama como em todas as doenças que mais afetam nossa qualidade de vida e aumentam as taxas de mortalidade.



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